Chevrolet Kadett trouxe ao Brasil novos ares europeus

Há 30 anos, depois de cinco sem lançamentos, estreava aqui um alemão que ganhou longa vida em outros mercados

Texto: Fabrício Samahá* – Fotos: divulgação

 

Durante quatro décadas, a linha de automóveis da Chevrolet no Brasil foi baseada — com raras exceções como o Celta — em modelos compartilhados com a Opel, então o braço alemão da General Motors. Alguns tinham grandes diferenças de ordem técnica para o similar europeu, caso do Opala em relação ao Rekord. A maioria, porém, seguia de perto o projeto da fábrica de Rüsselsheim, como ocorreu com Monza, Omega, duas gerações do Vectra e com o Kadett.

O nome Kadett foi usado em um automóvel da Opel bem antes do que muitos imaginam. Foi em 1936 que a empresa, fundada em 1862 por Adam Opel para fabricar máquinas de costura e produtora de carros desde 1899, aplicou o nome militar a um novo modelo compacto: o Kadett 11234, número que indicava a cilindrada de 1,1 litro e a distância entre eixos de 2,34 metros. Ele tinha duas ou quatro portas, 3,8 metros de comprimento e potência de 23 cv. A versão conversível mantinha os arcos das janelas laterais.

 

O primeiro Kadett (foto maior) teve vida breve, mas sobreviveu na Rússia; nos anos 60 a Opel retomava seu nome em uma linha com sedã, cupê e perua

 

A Segunda Guerra Mundial encerrou em 1940 a produção do Kadett — nome em alemão para cadete, o primeiro alusivo à Marinha usado pela marca, antes de Admiral e Kapitän, ou almirante e capitão. Seis anos mais tarde a linha de montagem foi apropriada pelos russos a título de espólio de guerra, o que deu origem ao Moskvitch 400, feito até 1954 em volume bem maior que o do original alemão.

 

 

Em uma nova fábrica, o Kadett A trazia o nome de volta ao mercado em 1962, agora com escolha entre sedã, cupê e perua, todos com motor de 1,0 litro e tração traseira. Três anos mais tarde vinha a geração B, com maiores dimensões, estilo fastback para o cupê e motor de 1,1 litro. A versão esportiva Rallye oferecia um de 1,9 litro e 90 cv.

O Kadett C, de 1973, é um velho conhecido dos brasileiros: foi lançado aqui seis meses antes da Alemanha como Chevette. Ambos faziam parte do ambicioso projeto do carro T, destinado a atender mercados de todo o globo com pequenas variações, do Japão aos Estados Unidos, da Inglaterra à Argentina. Ele oferecia sedã, fastback e perua, aos quais se somavam depois um hatchback (o City) e uma versão targa com capota rebatível na parte traseira. Os motores iniciais variavam de 1,0 a 1,6 litro, mas chegavam a 1,9 litro com injeção no esportivo GT/E e até 2,3 no inglês Vauxhall Chevette.

 

O Kadett C, que foi nosso Chevette, incluiu versões fastback e targa; o modelo D fazia estreia do motor transversal e da tração dianteira e abandonava o sedã

 

A geração D, de 1979, marcou a adoção pelo Kadett de soluções técnicas que tomaram conta da indústria em carros de menor porte: motor transversal e tração dianteira. Não havia mais sedã: apenas hatches de três e cinco portas, perua e furgão, que era a perua sem banco e vidros na traseira. Motores de 1,2 a 1,6 litro estavam disponíveis.

 

O Kadett GSi da Opel era atração à parte, tanto pelo estilo quanto pelo interior, com quadro de instrumentos digital, e o motor de 1,8 litro com injeção e 116 cv

 

Como uma gota

O lançamento do Kadett E, em agosto de 1984, marcou uma revolução em estilo na Opel. As linhas retas do D davam lugar a formas arredondadas, que lembravam as de uma gota quando visto por cima, em prol da aerodinâmica. De fato, o Cx 0,32 era ótimo para um carro de seu tamanho — e ainda melhor no esportivo GSi, com 0,30.

A gama inicial contava com hatches e peruas de três e cinco portas, a que se somava em 1985 o sedã de quatro portas. Em termos de tamanho ele pouco mudara em relação ao D: 3,99 m de comprimento no hatch (4,22 m no sedã, 4,23 m na Caravan), 1,66 m de largura, 1,40 m de altura e os mesmos 2,52 m de distância entre eixos. Pontos criticados no interior eram o pouco espaço para os passageiros de trás e as largas colunas posteriores, com prejuízo à visibilidade.

 

O Kadett E aparecia na Europa em 1984 com linhas arredondadas e opções que não chegariam aqui, como hatch cinco-portas e sedã; os motores iam de 1,2 a 2,0 litros

 

A oferta de motores continuava ampla: 1,2-litro com 55 cv, 1,3 com 60 cv, 1,4 com 75 cv, 1,6 com 75 cv, 1,6 S com 90 cv e 1,8 com injeção e 90 cv (todos a gasolina), além das unidades a diesel da parceira japonesa Isuzu de 1,5 (72 cv com turbo), 1,6 (54 cv) e 1,7 litro (57 cv sem turbo, 82 cv com ele). A transmissão manual podia ter quatro ou cinco marchas, e a automática, apenas três. A suspensão dianteira seguia o esquema McPherson e a traseira usava eixo de torção. O peso ficava entre 855 e 1.030 kg conforme a versão.

 

 

O GSi era atração à parte, a começar pelo estilo, com para-choques diferenciados na cor da carroceria, grade estreita, saídas de ar no capô, aerofólio na tampa traseira e rodas de 14 pol em vez de 13. No interior eram aplicados bancos dianteiros Recaro, quadro de instrumentos digital (criticados por muitos pela difícil leitura, o que levou a Opel a oferecer os analógicos como alternativa), computador de bordo e volante de três raios. A suspensão vinha mais baixa e firme, os freios dianteiros tinham discos ventilados e havia opção por sistema antitravamento (ABS). O motor de 1,8 litro com injeção, 116 cv e torque de 15,3 m.kgf foi usado de início. No Reino Unido era chamado de Vauxhall Astra GTE.

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Os furgões

A linha Kadett E contou também com furgões, comuns na Europa para pequenos transportes — raras por lá são as pequenas picapes que temos aqui. Lançado em 1986, o Opel Kadett Van era derivado da perua Caravan, enquanto o Kadett Combo recebia um grande baú na traseira, maior distância entre eixos e suspensão posterior com eixo rígido em vez do eixo de torção do carro original.

Esses Kadetts não eram fabricados na Alemanha: saíam de Ellesmere Port, unidade da Vauxhall na Inglaterra. Naquela região o modelo com baú era vendido como Bedford Astramax por outra marca do grupo, voltada a utilitários. O furgão da perua, o Astravan, era oferecido tanto pela Bedford quanto pela Vauxhall.

Em 1989 os ingleses deixavam de fazê-los e a produção era transferida para Azambuja, em Portugal, com motor a gasolina de 1,3 litro ou 1,6 a diesel (mais tarde passavam a 1,4 e 1,7 litro, na ordem). Nessa fase os britânicos renomearam o modelo maior como Vauxhall Astramax. Eles foram oferecidos até 1993, dois anos após o fim do Kadett hatch na Europa, e substituídos pelo Combo derivado do Corsa B.

 

Em testes

O Brasil produziu apenas as gerações C e E do Kadett (a primeira como Chevette), mas outras duas foram testadas aqui. A primeira foi a B, em 1967. Como a Chevrolet ainda não produzia automóveis no País, diversos modelos estrangeiros do grupo General Motors foram estudados para definir qual seria o carro inaugural. A opção, como se sabe, foi por outro Opel: o Rekord, que aqui recebeu o nome Opala.

Tempos depois, em 1979/1980, outro Kadett passou a circular em testes secretos no Brasil. Era a geração D, a primeira de motor transversal e tração dianteira — mesmas características que o Monza inauguraria na linha nacional da marca, em 1982. Esses Kadetts serviam como “mulas”, no jargão dos fabricantes, para testar componentes mecânicos do próximo Chevrolet, inclusive a adaptação de seu novo motor 1,6-litro ao uso de álcool.

* Bob Sharp colaborou com o texto original de 2001 que deu origem a este artigo

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