Ford Escort, cooperação que deu certo por 30 anos

1980 Escort

 

1982 Escort Laser II
1980 Escort Estate

 
Renovação completa: o terceiro Escort ganhava motor transversal, tração dianteira e suspensão traseira independente; de início vinha apenas como hatch e perua

 

Pequenas mudanças de estilo vinham no modelo 1978. Dois anos depois o motor 1,6 de 85 cv tornava-se disponível em mais versões, desde a simples L com quatro portas até a edição especial Harrier, que vinha com rodas de alumínio e defletor traseiro. No teste da Motor o L 1,6 mostrou “um desempenho virtualmente sem rivais pelo preço. A economia também é excelente e, com estabilidade precisa, ele é agradável de dirigir rápido. Conforto e refinamento, porém, estão abaixo dos padrões da classe: diversão sem pretensões”.

Como o primeiro, o segundo Escort teve produção também na Austrália e na Nova Zelândia e montagem em Israel. Os australianos tiveram um exclusivo RS 2000 de quatro portas, que usava motor mais “manso” que o europeu e oferecia câmbio automático, além do furgão de lazer Sundowner (leia quadro abaixo).

 

O Escort atravessa o Atlântico

Com o lançamento do Fiesta, em 1976, a Ford europeia adotava com sucesso a arquitetura de motor transversal e tração dianteira e logo concluía que o Escort também deveria recebê-la, seguindo o exemplo de adversários como Opel Kadett, Fiat Ritmo e VW Golf. Em setembro de 1980 chegava sua terceira geração com essa concepção mecânica e outra novidade técnica, a suspensão traseira independente McPherson. O projeto atravessava o Oceano Atlântico para resultar, com alterações, no primeiro Escort norte-americano (leia quadro abaixo).

 

1980 Escort XR3
1980 Escort XR3

 
Rodas, defletor traseiro e interior diferenciado marcavam o esportivo XR3, então com carburador e 96 cv no motor de 1,6 litro; ele passaria a XR3i ao receber injeção

 

Havia tão pouco em comum aos modelos anteriores que a Ford cogitou de chamá-lo de Erika, seu codinome de projeto — a fidelidade dos britânicos talvez tenha sido decisiva na opção por manter o nome original. A carroceria desenhada por Uwe Bahnsen e Patrick Le Quément (autor do Sierra e que mais tarde faria modelos polêmicos como Twingo, Avantime e Vel Satis para a Renault) era hatchback com um “meio volume” na traseira, chamado de Aeroback pela marca, em vez dos três volumes dos modelos passados, formato que retornaria em 1983 com o Orion.

 

A estratégia de “carro mundial”, embora o norte-americano fosse diferente, garantiu à Ford o título de modelo mais vendido do mundo por mais de 10 anos

 

O estilo estava bem diferente e mais moderno, com frente em cunha, linhas retas e grandes janelas. O coeficiente aerodinâmico (Cx) de 0,37 era o melhor do segmento. Nas dimensões os destaques eram a maior largura (1,64 m) e a altura reduzida (1,38 m), com alterações sutis em comprimento (3,97 m) e entre-eixos (2,39 m). No sedã Orion, porém, os 4,19 m representariam alongamento expressivo em relação às gerações anteriores. O peso da versão de entrada estava mais baixo, 850 kg, para o que concorria a eliminação da transmissão até as rodas traseiras.

A linha incluía peruas de três e cinco portas, furgão e os esportivos XR3 e RS 1600i. Conveniências internas passavam por itens inéditos como controle elétrico de vidros e travas, teto solar e um sistema de verificação que apontava anormalidades como baixo nível de fluidos e pastilhas de freio gastas. Um câmbio automático de três marchas, cedido pelo modelo norte-americano, aparecia na Europa em 1983.

 

1984 Escort RS 1600i

 

1981 Escort RS 1600i
1983 Orion Ghia

 
Exagerado em faróis, faixas e defletores, o RS 1600i elevava a 115 cv a potência do Escort e foi o primeiro com injeção; o sedã Orion vinha em 1983 complementar a família

 

À exceção da versão de entrada, com o antiquado Kent de 1,1 litro e 55 cv, todo Escort agora usava o motor com comando no cabeçote denominado CVH (câmara de combustão hemisférica): de 1,3 litro com 69 cv, de 1,6 litro com 79 cv e, no caso do XR3, de 1,6 litro com 96 cv e 13,5 m.kgf, com o qual alcançava 180 km/h. Testado pela Autocar, o Ghia 1,3 revelou evolução geral em refinamento: “Ele compete bem com os estabelecidos, exceto em conforto de marcha. O Ghia é bem equilibrado, tem boa aderência, freios e ventilação. Gostamos muito do motor e da sensação sólida do carro”.

 

 

Herdeiro da tradição de versões RS, o Escort RS 1600i de 115 cv e 15,1 m.kgf era a primeira versão do modelo com injeção (Bosch K-Jetronic) e câmbio de cinco marchas, além de vir com rodas de 15 pol, pneus na medida incomum 190/50, faixas um tanto exageradas e duplo aerofólio traseiro. Menos de 9.000 deles foram produzidos, sendo 5.000 necessários para homologação no Grupo A. As cinco marchas, porém, logo se estenderam a toda a gama.

No teste da francesa Autohebdo o RS 1600i obteve máxima de 197 km/h e 0-100 em 9,6 segundos, deixando para trás o mais potente (125 cv) Fiat Ritmo Abarth 125 TC. “Um temperamento esportivo, um rigor técnico absoluto, um caráter sagrado. A eficácia de um autêntico esportivo, que exige toda a concentração do motorista”, entusiasmou-se a revista.

 

1983 Escort GL Cabriolet
1984 Escort XR3i

 
O primeiro conversível da linha vinha em diferentes versões e tinha uma barra transversal como reforço da estrutura; o XR3i (à direita) aparecia em 1983 com 105 cv

 

Eleito Carro do Ano europeu em 1981, o novo Escort assumia no ano seguinte a liderança do mercado do Reino Unido (que manteria por oito anos), até então nas mãos do Cortina da mesma marca. A estratégia de “carro mundial”, embora o norte-americano fosse diferente, garantiu à Ford o título de modelo — ou denominação — mais vendido do mundo por mais de 10 anos, ainda que alguns carros japoneses o superassem ao se considerar em separado as versões de cada lado do Atlântico.

A família cresceu rápido. Oferecido pela primeira vez no modelo, o Escort conversível chegava em 1982 com capota de lona e uma barra estrutural ligando as colunas centrais. No ano seguinte vinham o sedã de quatro portas Orion (nome de uma constelação) e a opção de motor 1,6 a diesel de apenas 55 cv, lento, mas muito econômico.

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Como furgão e picape

Sundowner
Sundowner
Mazda Rustler
Mazda Rustler

Embora diferentes gerações do Escort tenham sido oferecidas na Europa como furgão — veículo bastante usado no transporte de cargas leves, sobretudo na Inglaterra, onde usufrui benefícios tributários —, chamado de Escort Van ou Express, outros mercados fizeram pequenos utilitários com perfil mais esportivo sobre o modelo.

Na Austrália, o furgão da segunda geração ganhou uma versão jovial, a Sundowner, com motores de 1,6 e 2,0 litros e decoração esportiva. Chamado de panel van, esse tipo de veículo fazia sucesso por lá nos anos 70 entre os surfistas.

Na África do Sul a Ford produziu a picape Bantam, tomando por base o furgão europeu do terceiro modelo. A carroceria era a mesma do hatch de cinco portas até a metade, mas a suspensão traseira usava eixo rígido, mais apropriado para levar peso que a McPherson do carro original. Mais tarde o nome seria usado em um derivado do Mazda 323 e, na terceira geração, em uma versão local da Courier brasileira, derivada do Fiesta e produzida até 2011. A Mazda teve sua própria variação dos dois primeiros modelos, a Rustler, também oferecida aos sul-africanos.

 

Nos Estados Unidos

1982
1982
1982
1982
1988
1988

O mercado norte-americano recebeu Fords da Europa desde 1948, quando os pequenos ingleses Anglia e Prefect começaram a cruzar o Atlântico, mas o Escort — ao contrário do Fiesta — nunca teve sua versão europeia vendida nos EUA. Lançado em 1981, logo depois da terceira geração na Europa, o Escort de produção local sempre foi um produto próprio, com porte, estilo e mecânica idealizados para as preferências locais.

O primeiro carro da marca fabricado no país com tração dianteira substituiu o Pinto, cuja fama havia sido abalada por incêndios, e oferecia versões hatch de três e cinco portas e perua de cinco. Motores a gasolina de 1,6 e 1,9 litro (incluindo um 1,6 turbo de 120 cv) e um modesto Mazda 2,0 a diesel de 52 cv estavam disponíveis. O Lynx era sua versão para a marca Mercury. Rendeu também um pequeno esportivo, o EXP.

1992
1992
GT 1992
GT 1992
1992
1992

Reestilizado em 1985 e 1988, o Escort ianque passava três anos depois a uma nova geração, baseada no Mazda 323 japonês, tendo como clone o Mercury Tracer. Mais arredondado, acrescentava à linha um sedã de quatro portas e usava motores de 1,8 e 1,9 litro a gasolina, o segundo com 127 cv. Agora o câmbio automático opcional tinha quatro marchas, ante três do anterior.

1997
1997
1997
1997
ZX2 2002
ZX2 2002

Nova reforma vinha em 1997, quando sedã e perua assumiam formas ainda mais arredondadas — não havia mais o hatch — e ganhavam motor de 2,0 litros. Um ano depois aparecia o cupê ZX2, com frente inspirada no carro-conceito Profile (baseado no Mondeo) e motor Zetec 2,0 de 130 ou 143 cv. A unificação de carrocerias com a Europa ocorria apenas em 2000, quando o Focus era lançado nos EUA, mas o Escort permanecia por dois anos como opção de entrada; o ZX2 duraria até 2003.

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