Ford Corcel: uma família que atendeu a muitas outras

O GT continuava o Corcel mais esportivo, com suspensão firme e laterais em preto

 

A opção 1,4 continuava a ser produzida, mas não por muito tempo. Como curiosidade, pela primeira vez era usada no Brasil a denominação 1.6, com ponto em vez de vírgula, o que é incorreto no sistema métrico — o usual na indústria até então era informar os cm³, como em VW 1600 ou Dodge 1800. Coube ao modelo da Ford a introdução no Brasil desse sistema inglês, hoje consagrado, embora não usado pelo Best Cars.

Com a reformulação o Corcel ganhava novo fôlego diante dos concorrentes. Passat e Polara (evolução do Dodge 1800) ofereciam melhor desempenho, mas o carro da Ford era mais econômico, tinha interior mais confortável (em especial os bancos) e melhor acabamento, além de ser mais robusto e confiável que o Polara.

 

Novidades em 1980: o Hobby, jovial e despojado, e o milionésimo Corcel

 

Confrontado pela Quatro Rodas ao Passat TS, o Corcel GT mostrou bom desempenho, embora ainda inferior ao do rival: acelerou de 0 a 100 km/h em 17,2 segundos ante 15,3 s. “Numa hipotética largada conjunta, o Passat ‘despacharia’ facilmente o Corcel. Eles se diferenciam na maior economia do carro da Ford e no melhor desempenho no carro da VWB. De resto, há um notável equilíbrio entre os dois, que são carros seguros e confiáveis”, observou a revista, que julgou o GT superior em acabamento, conforto e porta-malas, mas preferiu a transmissão e a direção do TS.

 

O Corcel ganhava novo fôlego diante dos concorrentes: era mais econômico e tinha interior mais confortável

 

Acompanhando a evolução do álcool no Brasil, chegava em 1980 a versão com motor movido pelo combustível vegetal. Foi considerado por muitos o melhor motor a álcool produzido no País: pegava rápido, não demorava a se aquecer, tinha pouca vibração e se mantinha regulado por muito tempo. Um pequeno logotipo nos para-lamas dianteiros, com a inscrição Álcool e quatro gotas azuis em degradê, indicava o combustível usado. Seu desempenho geral era tão bom quanto o do modelo a gasolina e tinha acelerações mais rápidas. Embora menos potente (67 ante 71 cv líquidos), apresentava torque superior, 12,2 contra 11 m.kgf.

O Corcel II Hobby, mais uma opção de versão, era lançado em março de 1980. Como o Passat Surf, tinha acabamento despojado e ganhava apelo jovem ao eliminar os cromados de frisos e para-choques. Trazia as rodas com sobre-aros do GT — ao qual era uma opção mais barata —, bancos em preto e vermelho e volante esportivo. A Belina, que até então contava com as duas versões de motores, passava nesse ano a oferecer só a de 1,6 litro, muito mais adequada a seu peso, sobretudo em viagens com a família.

 

Detalhes do Hobby, que lembrava o GT, e o teto solar lançado no modelo 1981

 

Toda a linha recebia ponteiras plásticas nos para-choques. O Corcel atingia em dezembro de 1980 a marca de um milhão de unidades produzidas, inédita no Brasil para um carro médio. Para o ano seguinte as novidades eram cintos dianteiros de três pontos, pneus radiais com cinta de aço e controle interno do retrovisor. Havia ainda a inédita opção de teto solar, de vidro serigrafado para conter os raios solares, mas ainda sem forro interno — item que seria decisivo para sua aceitação pelo mercado no Escort XR3.

 

 

A essa época a Ford oferecia também uma versão furgão da Belina, o Corcel II Van, sem banco ou vidros laterais na parte traseira: a plataforma de carga vinha com ripas de madeira para proteção do assoalho, como nas picapes da época.

 

Del Rey, opção aos grandes de luxo

Outro membro de sucesso da família Corcel era apresentado em maio de 1981: o Del Rey, resultado do projeto Ômega. Especialista em carros de luxo com a série Galaxie/Landau, a Ford caprichou nesse quesito para o novo carro. O sedã médio de três volumes bem definidos era elegante, muito bem acabado e oferecia quatro portas, opção que faltava ao Corcel II.

 

A linha Corcel 1981, com novos cintos e pneus, e a curiosa Van, uma Belina furgão

 

O desenho da carroceria agradava, com a traseira baixa e de amplas lanternas horizontais, inspirada em modelos europeus como o Granada, conferindo sofisticação. A grade de frisos verticais, que procurava associação com o Landau e modelos norte-americanos da marca, destoava um pouco do conjunto. Sobre os para-lamas dianteiros vinham pequenos repetidores das luzes de direção. Havia duas versões de acabamento: Ouro, mais luxuosa, e básica, que ficou conhecida como Prata. Na primeira as rodas eram de alumínio.

O Del Rey marcou época pelos itens de conforto: controles elétricos de vidros e travas (os primeiros em carro nacional) com botões de vidros concentrados na porta do motorista e individuais em cada uma das demais portas, ar-condicionado integrado ao painel, teto solar. Os bancos usavam revestimento de bom padrão, disponível nas cores preta, marrom e bege, e até a cobertura atrás do banco traseiro vinha acarpetada.

Outra primazia estava nos cintos dianteiros retráteis de três pontos, dotados de sistema de pêndulo: a faixa não pressionava o corpo em uso normal, mas se travava em emergências como frenagens intensas. O painel contava com instrumentação abundante, a mais completa do País, que incluía conta-giros, manômetro de óleo e voltímetro. Junto ao teto vinham um relógio digital de dígitos azuis com cronômetro e duas luzes direcionais de leitura em tom azulado, com outras duas para o banco traseiro.

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Os especiais

Ford Corcel Bino
Corcel Bino
Ford Corcel Bino

O Corcel ainda era novidade em 1970 quando a Bino Veículos, de São Paulo, SP, passou a oferecer preparações mecânicas. O conjunto com dupla carburação e escapamento Kadron permitia ganho apreciável em potência e desempenho, sendo complementado com rodas de alumínio, console central com instrumentos adicionais e volante pequeno, “tipo Fórmula 1”. Mais tarde eram adotados comando de válvulas “bravo” e coletor de admissão especial.

Durante o período de importações de veículos proibidas, entre 1976 e 1990, a indústria nacional de transformações prosperou. Eram pequenas empresas — muitas vezes ligadas a grandes concessionárias — que criavam modelos esportivos, conversíveis, picapes de cabine dupla e outras propostas diferenciadas a partir dos automóveis vendidos em massa.

Ford Corcel SR Hatch
Corcel II SR Hatch
Ford Corcel SR Hatch

No caso da linha Corcel II, um dos primeiros trabalhos foi o Corcel Hatch, apresentado em 1980 pela concessionária Souza Ramos, de São Paulo, SP, com desenho do conhecido Anísio Campos (autor, entre outros, dos esportivos GT Malzoni e Puma GT e do pequeno Dacon 828). A traseira adotava uma ampla e inclinada terceira porta de plástico e fibra de vidro, acompanhada de vidros laterais bem maiores, para-choques plásticos na cor da carroceria e frente com uma “máscara” preta e quatro faróis retangulares. Rodas de alumínio, teto solar corrediço de lona, ar-condicionado e bancos de couro eram acrescentados para o toque exclusivo.

Outra concessionária paulistana, a Santo Amaro, fez em 1982 um conversível a partir do Del Rey duas-portas, com capota de lona e acessórios que lhe garantiam exclusividade. O trabalho era oferecido também para o Corcel.

Del Rey SR Executivo
Del Rey SR Executivo
Belina Sulamericana
Belina Sulamericana

Transformação com foco no conforto era o Del Rey Executivo, uma limusine com alongamento em 35 centímetros entre as portas dianteiras e as traseiras, a fim de oferecer o amplo espaço interno que faltava ao carro original. Era feita pela Souza Ramos, que aplicava ainda para-choques envolventes de plástico, máscara dianteira com quatro faróis, pintura especial e bancos de couro. Esse tipo de adaptação foi aplicado na época por diferentes empresas também aos Chevrolets Monza e Opala e ao VW Passat, de certa forma para compensar a ausência de carros grandes no mercado desde a extinção das linhas Dodge (1981) e Galaxie/Landau (1983).

A Belina, por sua vez, tornava-se uma ambulância com a conversão efetuada pela Sulamericana, fábrica de carrocerias especiais. Apesar da limitação de altura, era provavelmente mais confortável ao rodar que as ambulâncias feitas hoje sobre picapes.

Pampa Duo Engerauto
Pampa Duo Engerauto
Engerauto Topazzio
Engerauto Topazzio

Para a Pampa, a empresa Rodão, também de São Paulo, fabricava acessórios para uso fora de estrada — ou meramente para um estilo “aventureiro” — de bom gosto, como proteção frontal (“quebra-mato”), estrutura de caçamba com faróis auxiliares, rodas de alumínio mais largas e faixas decorativas.

No fim dos anos 80, as transformações da Pampa chegaram a versões de cabine dupla, como a Engerauto Duo, e até a um esportivo. O Topazzio, outra criação de Anísio Campos, consistia em extensa remodelação de estilo e instalação de uma cobertura rígida de caçamba, que podia ter forma de bolha: o comprador escolhia entre o ar de cupê e o uso do compartimento de carga. Chamava muito a atenção.

Fotos: José Geraldo Fonseca (Bino) e Auto Esporte (Corcel SR)

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