Ferrari 456 GT, o lado confortável do cavalo empinado

Belo desenho, interior sofisticado e mais de 300 km/h em um dos mais velozes grã-turismo da história da marca

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação

 

Os Ferraris nasceram para competição — era essa a proposta do 125 S de 1947, que lançou a marca do cavalo empinado há 70 anos —, mas desde os primeiros anos a empresa de Maranello notabilizou-se também por modelos de turismo com certa dose de requinte e conforto, como os pioneiros 166, 195 e 212 Inter iniciados em 1949. O papel de Ferrari confortável foi desempenhado na década de 1960 pelo 250 GTE e o 330 GT de 2+2 lugares, passou nos anos 70 à série de 365 GT/4, 400 e 412 e chegava, no Salão de Paris em setembro de 1992, ao 456 GT após três anos sem um 2+2 de motor V12.

O estúdio italiano Pininfarina, tradicional parceiro da marca, desenhou dessa vez uma carroceria de alumínio suave e arredondada como demandavam os novos tempos. O 456 combinava faróis escamoteáveis — no que seria o último carro da empresa —, saídas de ar marcantes nas laterais e lanternas traseiras ovaladas que sugeriam quatro circulares. De alguns ângulos percebia-se a inspiração no clássico 365 GTB/4 “Daytona” de 1968. O para-choque traseiro incluía um defletor móvel, que em alta velocidade assumia posição favorável a maior sustentação negativa.

 

Pininfarina deu ao 456 GT os últimos faróis escamoteáveis da Ferrari, saídas de ar marcantes e certa inspiração no “Daytona”; porta-malas recebia malas sob medida

 

Mesmo com o perfil de teto menos esportivo que em outros Ferraris, necessário para acomodar dois passageiros atrás, o 456 GT ostentava um belo conjunto. Media 4,73 metros de comprimento, 1,92 m de largura, apenas 1,30 m de altura e 2,60 m de distância entre eixos. Elementos tradicionais de Maranello também estavam à mostra no interior, como o desenho de painel (com cinco instrumentos adicionais na área central) e volante e a grelha cromada que definia o percurso da alavanca de transmissão em cada marcha. O elevado console estendia-se até o apoio de braço traseiro, como se dividisse a cabine em duas, e alojava o rádio/toca-CDs com a face quase horizontal.

 

O 456 GT, dotado de motor V12 de 442 cv, acelerava de 0 a 100 km/h em 5,2 segundos e alcançava 302 km/h, então a maior velocidade para um carro de série com quatro lugares

 

Era bom o efeito visual dos bancos com revestimento em couro de alta qualidade da inglesa Connolly, a mesma dos Rolls-Royces. Os dianteiros contavam com ajuste elétrico, que os movia à frente para acesso à parte de trás, e a ancoragem superior dos cintos, para que este não representasse obstáculo aos passageiros rumo à traseira. Detalhe incomum era o difusor de ar na parte final de cada porta para refrigerar o ambiente posterior. De início não havia bolsas infláveis frontais, adotadas em 1996, o que exigiu redesenho do volante de três para quatro raios. O porta-malas acomodava um conjunto de malas sob medida.

O chassi tubular de aço do grande Ferrari recebia um motor V12 de nova geração de 5,5 litros — exatos 5.474 cm³ ou 456 cm³ por cilindro, origem da denominação do carro, como foi comum por muito tempo na marca. Até o ângulo de 65° entre as bancadas era diferente do antigo V12 de 60° — houve também o de 12 cilindros opostos da série Berlinetta Boxer. Com duplo comando por bancada, quatro válvulas por cilindro, injeção e lubrificação por cárter seco, ele produzia potência de 442 cv e torque de 56 m.kgf, valores respeitáveis para seu tempo: apenas o F40 (478 cv) havia sido mais potente na história pregressa da marca.

 

Interior usava couro Connolly, ajustes elétricos e painel completo; portas levavam ar aos passageiros de trás; guia metálica indicava posição das marchas

 

Inédita em um Ferrari era a caixa manual de seis marchas em transeixo na traseira (junto ao diferencial, como no 275 GTB e no “Daytona”), o que contribuía para a ótima distribuição de peso com 51% à frente. Embora pesasse 1.790 kg com o tanque de 110 litros abastecido, o 456 GT andava muito bem: acelerava de 0 a 100 km/h em 5,2 segundos e alcançava 302 km/h, então a maior velocidade para um carro de série com quatro lugares. As suspensões independentes usavam braços sobrepostos, amortecedores com controle eletrônico e três programas de ajuste e, no caso da traseira, nivelamento automático. As rodas de 17 pol tinham pneus 255/45 à frente e 285/40 atrás. Constavam do conjunto controle eletrônico de tração e da assistência da direção (Servotronic) e freios a disco ventilados nas quatro rodas.

Na avaliação da revista inglesa Autocar o 456 GT foi considerado “mais refinado, confortável e bem mais sofisticado que qualquer carro já feito em Maranello”. A compatriota Car comparou-o ao Aston Martin Vantage: “O Ferrari tem melhor comportamento dinâmico, com uma delicadeza — ou refinamento — no modo como atende aos desejos do motorista. É firme, controlável, e o conforto ao rodar não é comprometido. Apesar do desempenho espetacular do Vantage, o 456 GT é um carro superior”.

Com motor V12 de 442 cv, o Ferrari usava transeixo na traseira e controle eletrônico da direção e dos amortecedores; em 1996 vinha caixa automática

 

O 456 havia surgido sem opção de transmissão automática, que seus antecessores ofereciam. O recurso tão apreciado em mercados como Estados Unidos, Inglaterra e Japão era lançado em 1996 na versão GTA, com uma caixa de quatro marchas — padrão na época — com controle eletrônico e adaptação ao modo de dirigir. O peso aumentava 100 kg e o desempenho reduzia-se, mas pouco: máxima de 298 km/h e 0-100 em 5,5 segundos.

 

 

A Motor Trend, nos EUA, descreveu o 456 GTA: “A pleno acelerador, a troca de marcha é precisa o bastante para cantar os pneus na mudança para segunda. Acima de 4.000 rpm, o grito intoxicante das 48 válvulas e dos 12 dutos de escapamento é melhor que qualquer coisa que Mozart tenha feito”. O teste da Road & Track considerou que a versão “cumpre seu papel, mas sem a sensibilidade mecânica direta de uma caixa manual de Ferrari. É um companheiro de viagem tranquilo, civilizado, com muita potência à disposição, que permite viajar rápido com pouca demanda ao motorista”.

Foram produzidas 1.548 unidades entre as duas versões até 1998, quando a Ferrari apresentava sua evolução: o 456 M (de modificatta, modificado). Trazia novos para-choques, outra posição dos faróis de neblina e capô dianteiro de plástico reforçado com fibra de carbono, então um material incomum, para redução de peso. O defletor traseiro passava a ser fixo. O interior ganhava novos bancos, controle automático do ar-condicionado, rádio reposicionado, volante de três raios com bolsa inflável e painel com menos instrumentos. Controle de tração e freios antitravamento (ABS) vinham modernizados.

 

Para-choques, bancos, volante e instrumentos redesenhados estavam entre as novidades do 456 M em 1998; freios ABS e controle de tração eram aprimorados

 

A Motor Trend contou como era dirigir o 456 M: “Plantamos o pedal e iluminamos os Pirellis 285 por uns 22 metros. Um gigantesco grunhido de quatro cames em direção à faixa vermelha. A seleção perfeita de relações de transmissão coloca você na melhor parte da curva de potência, com cada mudança, e oferece a emoção vertiginosa de acionar o controle de tração a 160 km/h. Dirija-o comportado e ele será tão refinado como um verdadeiro GT deve ser. Com a nova cor prata Grigio Ingrid (feita para o Ferrari 375 Mille Miglia de Ingrid Bergman, 1954), o exclusivo 456 M representa uma ótima maneira de queimar um quarto de milhão de dólares”.

A edição especial 456 Bicolore Scaglietti, em 2002, oferecia o programa de personalização Carrozzeria Scaglietti com pintura em dois tons, acabamento interno diferenciado ao gosto do cliente, suspensão recalibrada e freios Brembo. O carro de Michael Schumacher foi exposto como demonstração do programa, que teria sido aplicado a menos de 20 unidades.

 

A Pininfarina fez o 456 com quatro portas, roadster e perua para clientes muito especiais; o conversível vermelho foi criação da R. Straman (foto: Ferraris Online)

 

Também raros são os carros convertidos para clientes muito especiais. O príncipe Jefri Bolkiah de Brunei, famoso por sua coleção bilionária de supercarros, comprou seis 456 GT Venice, uma elegante shooting brake desenhada e construída pela própria Pininfarina. Pelo menos quatro sedãs de quatro portas e dois conversíveis Venice, estes com traseira diferenciada, teriam sido feitos pela mesma empresa para Bolkiah. A californiana R. Straman também fez sua adaptação  em três 456 para um modelo aberto, um dos quais comprado pelo ex-boxeador Mike Tyson.

Depois de 3.289 exemplares das quatro opções, o 456 saía de produção em 2003. No ano seguinte estreava seu sucessor 612 Scaglietti, sofisticado e potente (540 cv no motor V12 de 5,75 litros), mas talvez menos harmonioso em seu estilo. Depois do Ferrari Four ou FF, o atual representante da marca nesse segmento é o GTC4 Lusso, lançado em 2016 com motor V12 de 6,3 litros (690 cv) e também disponível com o V8 biturbo de 3,9 litros (610 cv), que dá continuidade à charmosa tradição dos grã-turismos da Ferrari.

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