Opala: 50 anos do carro mais querido da Chevrolet

Europeus na origem, norte-americanos no coração, o Opala e seus derivados marcaram a história da GM no Brasil

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação – Colaborações*

 

“Quer uma carona?”. A pergunta era feita a celebridades da década de 1960, como a atriz Tônia Carrero, o cantor Jair Rodrigues e o jogador de futebol Rivelino. “Não, obrigado. Meu carro vem aí”, era a resposta. Mas que carro seria esse?

A campanha publicitária criava expectativa por um importante lançamento, que marcaria a indústria brasileira de automóveis como poucos: o Chevrolet Opala. De sua estreia em novembro de 1968 — portanto, há praticamente 50 anos — ao encerramento em abril de 1992, seriam mais de 23 anos de produção na mesma geração, período no qual um milhão de unidades (entre sedã, cupê e a perua Caravan) foram fabricadas.

Instalada no País em 26 de janeiro de 1925, a Companhia Geral de Motores do Brasil S.A. — de razão social General Motors of Brazil, depois do Brasil — restringiu-se a montar e depois fabricar picapes, utilitários e caminhões até meados da década de 1960. Finalmente, a essa época era definida junto ao GEIA, o Grupo Executivo da Indústria Automobilística instaurado pelo governo de Juscelino Kubitschek, a produção do primeiro automóvel Chevrolet nacional.

 

Os antecessores europeus do Opala: o Opel Olympia Rekord de 1953 (foto maior) e embaixo, a partir da esquerda, as gerações P1 (1957), P2 (1960) e A (1963) do Rekord

 

As opções oscilavam entre os grandes carros da matriz norte-americana, como o Impala tão bem-sucedido em nossas terras, e os modelos mais leves e econômicos da subsidiária alemã Opel, alguns dos quais — Kadett, Olympia e Rekord — chegaram a ser importados em pequena quantidade. Pois foi entre o Kadett e o Rekord que a GMB mais hesitou, acabando por escolher o segundo.

 

 

O primeiro Rekord surgia da fábrica da Opel em Rüsselsheim, Alemanha, em 1953, como uma versão do Olympia, modelo médio de 4,24 metros de comprimento e motor 1,5-litro. O nome passava a ser usado isoladamente em 1955. Após dois anos surgia a geração P1, maior (4,43 metros) e com opção entre 1,5 e 1,7 litro. O Rekord P2, ainda mais amplo (4,51 metros), vinha em 1960 e três anos depois aparecia a geração A, de mesmo comprimento, com opção de motor seis-cilindros de 2,6 litros. Em 1965 o modelo B adicionava o quatro-cilindros de 1,9 litro.

O Rekord C era apresentado em agosto de 1966 com a carroceria que os brasileiros conhecem tão bem, embora diferente em faróis, lanternas e para-choques. Oferecia versões sedã e perua de duas e quatro portas (o sedã de duas portas tinha o mesmo perfil de teto do quatro-portas), além do cupê. Um modelo alongado em 20 centímetros entre eixos esteve disponível para táxi, no primeiro ano, e um conversível foi feito pela empresa Karl Deutsch, de Colônia. Havia ampla variedade de motores: 1,5-litro com potência de 58 cv, 1,7 de 60 ou 75 cv, 1,9 de 90 cv e seis-cilindros em linha de 2,2 litros e 95 cv.

 

O Rekord C de 1966 daria origem ao Opala; além do sedã (foto maior) e do cupê, ofereceu sedã de duas portas e perua de cinco; a Karl Deutsch fez um conversível

 

O cupê Sprint, com dois carburadores duplos no motor 1,9 e 106 cv, vinha em 1967. No mesmo ano aparecia o Commodore, mais luxuoso e com motores de seis cilindros (o mesmo 2,2 e um 2,5 com 115 ou 129 cv). Sua versão esportiva GS/E, com injeção eletrônica e 150 cv no motor 2,5, alcançava velocidade de 195 km/h. Também foi fabricado com um 2,8 de 145 cv. Essa geração ficou no mercado até dezembro de 1971, com produção total de 1,27 milhão de unidades, a mais alta de todas as séries do Rekord. O modelo seguinte (D) foi até 1977 e o último (E) até 1986, quando a Opel optou por trocar o nome por Omega.

 

A GM admite que o nome não estava definido quando Opala, um dos seis finalistas entre milhares de sugestões, foi revelado e ganhou rápida popularização

 

Meio Opel, meio Impala

O Opala começou a nascer em 23 de novembro de 1966, quando a GMB fez uma coletiva à imprensa no Clube Atlético Paulistano, na capital paulista, para anunciar o início do projeto 676. Exatos dois anos mais tarde ele era apresentado ao público na abertura do VI Salão do Automóvel, ainda no Pavilhão de Exposições do Ibirapuera, em 23 de novembro de 1968. O Opala aparecia sobre um palco giratório em um estande de 1.500 m². Em torno da novidade, espetáculos artísticos encenados a cada meia hora, o piloto inglês Stirling Moss e as misses Bahia, Brasília, Espírito Santo, Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima recepcionando os visitantes.

O nome Opala vem de uma pedra preciosa, incolor ao ser extraída do solo, mas que adquire múltiplos tons ao ser exposta à luz. Era também, ao que se comenta, a fusão entre Opel (do Rekord) e Impala, o carro da Chevrolet norte-americana que lhe cedia o motor de seis cilindros. A GM admite que o nome não estava definido quando esse, um dos seis finalistas entre milhares de sugestões, foi revelado por um jornalista. Sua rápida popularização levou à aprovação da escolha.

 

O Opala estreava no Salão do Automóvel de 1968 como primeiro automóvel da Chevrolet no Brasil; de início apenas o sedã de quatro portas estava disponível

 

O primeiro modelo era o sedã de quatro portas, em acabamentos básico (ou standard, como se dizia à época) e de Luxo. Suas linhas elegantes recorriam à solução da linha de cintura ondulada nos para-lamas traseiros, o chamado estilo “garrafa de Coca-Cola” no perfil lateral, em voga na época por sua adoção no Corvette 1968. Os faróis circulares (não ovalados, como os do Rekord) vinham incrustados em uma grade de muitos frisos horizontais cromados, com as luzes de direção abaixo do para-choque. O desenho frontal exclusivo do brasileiro era inspirado no do Chevy II norte-americano.

 

 

Na traseira do Luxo, uma faixa frisada com o nome Chevrolet ligava as pequenas lanternas retangulares nos extremos dos para-lamas. As luzes de ré também vinham sob o para-choque. Logo acima deste ficava a tampa do tanque de combustível. O nome Opala aparecia nas laterais traseiras, e a identificação do motor — 2500 ou 3800 —, nos para-lamas dianteiros. As calotas cromadas combinavam com os pneus de faixa branca.

Ambas as versões ofereciam seis lugares em dois bancos inteiriços, sem opção de bancos individuais; por isso, a alavanca da caixa de transmissão ficava na coluna de direção. No painel simples havia apenas os instrumentos essenciais, e o volante possuía uma barra para o comando da buzina. Entre as diferenças das versões estavam luzes de ré, tampa do tanque de combustível com chave e frisos, exclusivos do Luxo.

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No México

A combinação de carroceria da Opel alemã com mecânica da Chevrolet norte-americana não foi exclusiva do Opala brasileiro. Em 1967 a Opel apresentava no México o Fiera, um Rekord sedã ou cupê com o estilo original alemão, combinado ao motor de seis cilindros em linha e 3,8 litros, como o de nosso Opala, mas com 145 cv. Uma versão SS participou da linha, embora sem alterações no motor.

No ano seguinte a linha crescia com o cupê Olimpico, que usava motor de quatro cilindros, 2,5 litros e 90 cv, também similar ao do carro brasileiro e inexistente na Europa. O nome celebrava as Olimpíadas do México naquele ano e o visual sugeria certa esportividade, com tomada de ar preta no capô, faixas laterais e outras rodas. O sedã de duas portas da Opel, que não tivemos aqui, também foi oferecido aos mexicanos. Um Fiera de quatro portas foi fotografado por revista da época no Brasil, tendo sido importado pela GMB durante o desenvolvimento do Opala.

 

Na África do Sul

No mesmo ano em que recebíamos o Opala — 1968 —, a Chevrolet sul-africana lançava o Ranger, que unia as linhas do Rekord alemão, grade dianteira da Vauxhall inglesa e o motor de 2,5 litros do Chevy II, o mesmo do carro nacional. O modelo fabricado em Port Elizabeth oferecia sedã, cupê, esportivo SS e perua e também podia ter motores de 1,9 e 2,1 litros da Opel. Teve vida curta, porém: em 1973 dava lugar aos modelos Chevy 2500, 3800 e 4100, que usavam os motores de quatro e seis cilindros do Opala na carroceria mais moderna do Rekord D alemão.

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Bob Sharp, Francis Castaings, Ricardo Dias Sacco e Home-Page do Opala (www.opala.com) colaboraram com informações e material ilustrativo para o artigo anterior que serviu de base para este. A eles, nosso agradecimento.