Diesel com menos enxofre: motor antigo pode usar?

Motores a diesel antigos, com bombas injetoras mecânicas, podem usar diesel S-10 sem sofrerem desgaste prematuro? Esse diesel tem lubricidade semelhante ao comum? A formação de depósitos no bico injetor e a contaminação do óleo lubrificante são menores com o S-10? Aditivos como STP trazem algum benefício, como limpeza dos bicos? BC é um excelente site.

Victor Junqueira – Rondonópolis, MT

 

Para informar o leitor que não tenha acompanhando a evolução do diesel no Brasil, S-10 significa que o combustível tem apenas 10 ppm (partes por milhão) de enxofre ou 10 mg/kg de combustível. No passado tínhamos 1.800 ppm de enxofre, o que causava emissões de sua resultante pós-queima no meio ambiente (depois foi adotado o S-50, com 50 ppm). Por um lado, o enxofre até aumenta a lubricidade do combustível, protegendo partes móveis do motor, como os injetores. Contudo, essa vantagem é perdida caso haja contaminação com água, que forma H2SO3 e H2SO4, ácidos que corroem metais. Além disso, durante a queima do combustível há grande geração de H2O em vapor que, ao reagir com o enxofre presente, formará também os ácidos citados.

Motores a dieselO HSO4 é extremamente nocivo: produz coriza, irritação na garganta e nos olhos e até afeta os pulmões de forma irreversível. Em 1952, em Londres, cerca de 4 mil pessoas morreram em poucos dias devido à alta emissão de dióxido de enxofre (SO2), decorrente da queima do carvão nas casas e nas indústrias na região. Em geral esses gases ficam dispersos nas camadas mais elevadas na atmosfera, mas na época houve o fenômeno meteorológico conhecido como inversão térmica, responsável por um resfriamento súbito da atmosfera, o que impediu a dispersão dos gases. Hoje, Londres tem uma atmosfera bem menos contaminada.

Além dos problemas à saúde humana, o H2SO4 aumenta a acidez de solos e rios e afeta todo o ecossistema. Ou seja, só há um jeito de reduzir esse problema: eliminar ao máximo possível o enxofre presente no combustível.

Voltando aos motores, empiricamente, o maior teor de enxofre no combustível aumenta as emissões de particulados (a fumaça preta dos motores a diesel) e a carbonização do motor. Em motores modernos, também pode aumentar as chances de entupir o filtro de partículas e o catalisador do sistema de escapamento.

 

 

Motores antigos com controle eletrônico de injeção podem, sim, usar o diesel S-10. Mas alguns cuidados devem ser tomados, como a limpeza total do tanque de combustível antes do abastecimento. Como esse novo diesel se contamina muito rápido e facilmente, aumentam o acúmulo de água e a produção de borra, sendo recomendada a assepsia prévia do tanque e de sua linha. Não use água nessa limpeza, pelas características higroscópicas (capacidade de atrair água) do produto. Além disso, toda a linha de injeção de combustível no tanque deve ser limpa, incluindo a troca dos filtros.

Quanto à lubricidade, apesar de o enxofre ajudar na lubrificação, sua ausência não seria grande problema. Mas pode ser que o novo combustível carregue borra presente no tanque, acumulada pelo uso do combustível antigo, e traga problemas para injetores. Dificilmente haveria algum problema ao óleo lubrificante. Quanto a aditivos de limpeza de injetores, como o da marca STP, fica difícil opinarmos sem testes científicos confiáveis. De modo geral, o que vale a pena usar, os fabricantes de carros usam e recomendam.

Texto: Felipe Hoffmann – Fotos: divulgação