Filme no para-brisa, modismo perigoso

Enxergar bem ao volante é preceito básico, mas o que se
tem visto é o abuso em película escurecedora no vidro frontal

 

Confesso, sou implicante. É minha natureza, não há como negar, e certamente tem algo (ou tudo) a ver com minha bagagem genética. Pai implicante, tia muitíssimo implicante… Quase uma tradição de família. Coisas tolas, fatos sérios, não importa; quem tem o dom para implicar, implica. E agora dei para implicar com esse povo que coloca película escurecedora no para-brisa e, pior, daquela preta, das piores, proibidíssima.

Outro dia peguei uma carona num Celta “filmado”. O dia estava lindo, deliciosamente tropical. Lá dentro me senti em janeiro na Sibéria, parecia noite. Mal conhecendo o dono do carro, consegui conter minha língua e me abstive de qualquer comentário. Coisa que, para um implicante em estágio terminal como eu, é algo raro.

 

Se eu, que enxergo bem, não conseguia ver direito o que acontecia à minha frente, o que dizer do motorista que ainda usava óculos de grau?

 

Certamente a idade nos deixa mesmo ranzinzas. Não sei se é pelo fato de que, já vividos, vemos as besteiras que se cometem por conta de outras besteiras — como modismo, por exemplo. Sim, modismo: se fosse por motivo de segurança, como se justifica a maioria dos que aplicam essa película nos vidros, não precisava exagerar no teor de escuridão. Se fosse para deixar o sol e o calor do lado de fora, idem. Então, o filme pretão é só pelo visual.

O Celta “dark side of the moon” não me saiu da cabeça. Nos poucos minutos que passei dentro dele não me dei paz: se eu, que enxergo bem, não conseguia ver direito o que acontecia à minha frente, o que dizer do motorista que, vejam vocês, ainda usava óculos de grau?

Meu vizinho, o seu Valter, foi alvo de uma tentativa de assalto quando chegava de um restaurante em uma noite de sábado. Estranhou quando percebeu um carro estacionado na frente de sua casa, “de vidro preto”, disse ele. Mesmo assim, bateu o dedo no controle remoto do portão e, nessa hora, saíram “os mano” do carro filmadão, arma na mão. Seu Valter entregou tudo: carro, carteira, relógio, celular. Mas o bandido-motorista se atrapalhou e deu falta do pedal da embreagem. Para supremo azar da bandidagem, a polícia apareceu e prendeu todo mundo.

 

 

Príncipe das Trevas

Imaginando que um raio até pode cair no mesmo lugar (outro assalto…), mas que tanta sorte (a polícia chegar na hora “H”) não é todo dia que acontece, seu Valter resolveu prestigiar a valorosa corporação que o salvou, a Polícia Militar, e contratou PMs de folga para ficarem plantados das oito da noite até seis da manhã diante de sua casa, dentro de seus carros particulares. E adivinhe? Todos os carros dos PMs são 100% “filmados” estilo Príncipe das Trevas, como o Celta em que andei, como o carro dos bandidos.

É compreensível: eles ficam no carro a madrugada toda e não querem que ninguém que passe na rua saiba que há alguém no carro, mas… e a lei?

A lei, ora a lei: ela diz que película, no para-brisa, praticamente não pode ser aplicada. A transmissão luminosa exigida para esse vidro — 75% — está muito próxima da oferecida pelo próprio vidro verde que todo carro tem hoje. Se sobrar alguma margem para escurecimento, não passa de 5%, e é claro que ninguém se daria ao trabalho de aplicar uma película tão clara. Portanto, os valorosos policiais se permitem uma, digamos, “licença poética”, infringindo uma lei para zelar pelo cumprimento de outra, garantir que seu Valter não seja incomodado. Que paradoxo!

 

A transmissão luminosa exigida para esse vidro — 75% — está muito próxima da oferecida pelo próprio vidro verde, e ninguém se daria ao trabalho de aplicar uma película tão clara

 

A permissão autoconcedida por esses policiais é, na verdade, estendida a todos, e é a realidade de nossas ruas: basta um mínimo de observação, ficar plantado em uma grande avenida ou, como fiz outro dia, em uma passarela sobre uma avenida movimentada de São Paulo, para ver a impressionante quantidade de carros que tem o tal filme negro no para-brisa.

Sou implicante, já confessei, e de linhagem pura, com pedigree. Mas preferências, ranzinzices e maus-humores bem à parte, dirigir automóvel é coisa séria, e enxergar bem ao volante é preceito básico. Se eu, de carona no tal Celta em um lindo dia de sol, enxergava malíssimo, o que aconteceria naquele Chevroletinho de noite? Ou de noite com chuva? Ou de noite com chuva e neblina? Vai “por instrumentos”? Tipo “dirigido por mim, guiado por Deus”?

Imagino que, com tanta barbaridade acontecendo, fiscalizar as películas aplicadas aos vidros de automóveis — algo que era complexo até a invenção de um aparelhinho que mede a transmissão luminosa dos vidros — não seja uma prioridade. Pois o implicante aqui acha que sim, é prioridade, e das grandes. Com a visibilidade ao volante, me desculpem, não se brinca sob nenhum pretexto.

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