O perigo é outro

Enquanto a fiscalização de poucas infrações segue firme,
riscos bem mais sérios a nossa segurança passam sem rigor

 

O telejornal me faz saber que em uma inspeção feita em um lote de encomendas chegado dos Estados Unidos ao aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro, mais conhecido por Galeão, foram encontradas 11 armas de grosso calibre, dessas que — isso me incomoda desde criança — são de “uso privativo das forças armadas”. Pois se não fossem armadas, que forças seriam?

Bobagens semânticas à parte, logo pensei que, se pegaram 11, outra dúzia deve ter passado na boa, e por dia. Desde quando isso acontece? Semanas, meses, anos, décadas? Talvez. A Receita Federal declarou que essa “pode ser” uma nova rota de contrabando, que o truque consistia em declarar as armas como “brinquedos” ou “material esportivo” e que a safadeza só foi descoberta quando as encomendas passaram pelo raio-X do aeroporto.

Não disseram, mas pode ser que esse contrabando só tenha sido descoberto porque, em busca de melhores salários, a turma da Receita anda fazendo a tal operação-padrão, a mesma dos colegas da Polícia Federal que vem causando filas quilométricas de gente precisando embarcar nos aeroportos, onde se precisa mostrar os passaportes página por página…

 

É incomodo verificar que toda essa tecnologia para nos vigiar mire em apenas algumas poucas infrações: velocidade e desrespeito ao semáforo e, em São Paulo, ao rodízio

 

Desde que as torres gêmeas foram derrubadas pela Al Qaeda, paga-se um grande “mico” para entrar e sair de um avião: mostrar passaporte, passar no detetor de metais, revista manual, pertences pessoais no raio-X, tirar cinto, tirar o sapato… Um constrangimento horrível em nome da segurança. É difícil imaginar que, enquanto 100% dos humanos são perscrutados ao entrar em um voo, a carga não seja. Mas pior é constatar que não haja investimento decente em tecnologia para verificar 100% do que entra no País sem que isso redunde em atraso monstruoso.

Andando por nossas ruas e estradas somos constantemente vigiados. Seja pela câmera da portaria do prédio, seja pela que controla o trânsito, seja por aquelas associadas aos radares de velocidade ou semáforos, está bem difícil passar incógnito nas grandes (ou nem tanto) cidades brasileiras.

Guerra santa

Como cidadãos dependentes de veículos para nos locomover, pagamos um alto preço sob forma de impostos, taxas e multas — quem consegue não levar nenhuma? — para exercer o direito de conduzir um carro, moto ou qualquer outra coisa motorizada sobre rodas. O maciço investimento do poder público para conter o desrespeito às leis de trânsito é algo que parece não ter limite, uma prioridade absoluta nos orçamentos, embasada na verdadeira guerra santa contra infrações.

Está em curso uma cruzada contra infratores como eu e você que, vacilões, passamos na lombada eletrônica a 45 km/h quando o limite era de 40 km/h ou, quando na estrada, não percebemos que de 110 km/h o limite passou repentinamente para 80 km/h em questão de poucos metros. E, se reclamamos, ouvimos candidamente que havia placas indicando tudo isso.

É incomodo verificar que toda essa tecnologia para nos vigiar ao volante ou ao guidão mire basicamente em apenas algumas poucas infrações: velocidade e desrespeito ao semáforo e, em São Paulo, ao rodízio. Ultrapassar pela direita na estrada: há dispositivo eletrônico para coibir isso? E se plantar na faixa da esquerda e não dar passagem nem a pau? Quem leva multa por causa disso? Trocou de faixa sem o devido cuidado nem dar sinal? Isso mata muito motociclista, mas não rende multa.

Volto ao contrabando: na mesma notícia que informava que 11 das inevitáveis milhares de armas que chegam (e saem) do aeroporto do Galeão, de Cumbica ou de qualquer porto ou posto de fronteira brasileiro rumo às mãos da bandidagem, sou informado que um homem, armado com um fuzil de grosso calibre (uso privativo… dele, claro!) foi visto na margem da Linha Vermelha, via que dá acesso ao aeroporto carioca.

Estava a 300 metros de um posto policial e parecia tranquilo, apontando seu “brinquedo” (ou seria um “material esportivo”?) para a pista, onde muitos dos cidadãos que ali passam serão, ao entrar ou sair dos aviões, revirados de cabo a rabo. Ah, e certamente serão multados se na Linha Vermelha ultrapassarem o limite de velocidade. Seria aquele homem o dono da mercadoria aprendida? Acho que não, mas certamente seria um bom candidato a consumidor final de tais artigos.

Dotar nossas ruas e estradas de dispositivos de alta tecnologia para assegurar respeito as leis é algo lícito. Todavia, o descompasso entre onde e como é mais importante aplicar tal tecnologia para salvaguardar o cidadão me parece evidente nesse episódio. Ao constatar um suposto foco distorcido do poder público, muito direcionado em punir infratores e desaparelhado para punir criminosos, se confirma a teoria que vê na arrecadação fácil e na ausência de inteligência no planejamento da segurança nacional um dos grandes males desse nosso tempo.

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