Crise de identidade

Falta personalidade às frentes dos carros: estaria a
busca da unidade visual pasteurizando demais o estilo?

 

O que mais me encantava nos carros, desde criança, eram os detalhes de estilo. Gostava do som do motor, claro, mas me atraía mais a insígnia da marca e do modelo aplicados ao capô e à tampa do porta-malas, o desenho inspirado das rodas e calotas, os volantes de quatro raios que pareciam um convite a deslizar sob as mãos… Nada, porém, mais me hipnotizava que o desenho da dianteira.

A frente é uma parte do automóvel que transmite muita simbologia. A humanidade sempre se locomoveu usando animais domados, cavalos, mulas, e o automóvel em que andamos hoje, surgido no fim do século 19, foi um tipo de metamorfose evolutiva desses animais que domávamos. Seja coincidência ou não, o modelo de carro que temos hoje aproxima-se muito da estética animal, com faróis lembrando dois olhos, a grade dianteira remetendo a uma boca e as portas funcionando como grandes asas.

O bom estilo explora bem isso, imprimindo personalidade marcante aos automóveis. Os olhos felinos dos Peugeots, a divertida aparência de cartum oriental do Chery QQ, a imensa boca gritante do novo EcoSport, os bigodes do Fiat 500. A dianteira é o rosto desse animal que domamos e montamos no dia a dia. Por isso a pasteurização que algumas marcas promovem em suas linhas me incomoda tanto.

Não sou contra a unificação de elementos de estilo. Faz bem à identidade da marca. Posiciona-a bem na mente do consumidor. Traz uma boa coesão na linguagem visual, facilita a comunicação com o comprador. Quando bem usada, uma linguagem visual única traz valor aos carros mais baratos da tabela.

 

Olho para os novos carros nas ruas: apenas uma legião de representantes de uma linha visual com a mesma aparência fazendo seu papel de transportar, assim, sem emoção

 

O Chevrolet Prisma herdou elementos visuais do irmão mais caro à época, o Vectra. Trouxe requinte a um carro nascido sem requinte. Mas não houve cópia, apenas uma inspiração justificada. O Volkswagen Tiguan inspirou a dianteira da primeira versão do VW Gol na atual geração, de 2008. Mas não houve cópia: havia elementos inspirados, como os faróis, os filetes da grade. O Gol manteve sua personalidade; o Tiguan, também.

Os carros da BMW há décadas têm uma unicidade de estilo no desenho dianteiro, com os quatro faróis a grade dupla que a empresa diz inspirada em um par de rins — mas há detalhes que conseguem manter individualidade entre os projetos, apesar de unidade de família. O “bigodinho” que retornou na onda saudosista da Fiat agora parece nascer em várias dianteiras, do novo Palio ao Punto remodelado até ao mais recente 500L europeu. Elementos repetidos, mas seus donos têm as personalidades preservadas.

Olhar despersonalizado

O que me chateia é reprodução sem critério de uma dianteira insossa, como a da atual geração dos Volkswagens. Depois que Fox, Jetta e Passat já ficaram tão semelhantes quando vistos de frente, o lançamento dos novos Gol e Voyage me passa a sensação que todos os VW estão com seus olhares despersonalizados.

Não sou contra a unidade visual, em absoluto. Adorava o “rosto” do Peugeot 206 e também gostava do 307. Eram parecidos, inspirados em uma mesma linhagem de família, mas tinham personalidades distintas. Diferenças em proporções, detalhes em grades, tomadas de ar. Que diferença há entre o Gol e o Fox, agora? É o carro pragmatizado. Roubaram-me a emoção de olhar nos olhos do “animal” e saber seu temperamento.

E isso não acontece só em marcas generalistas, de grande volume de produção. Um dos braços de prestígio do grupo Volkswagen, a Audi, tem exagerado na semelhança de formas na dianteira de seus últimos modelos. Até a Porsche, que errou no passado ao usar faróis iguais no 911 e no Boxster do fim dos anos 90 e depois se redimiu, voltou a pecar: o Panamera é parecido demais com o 911 de frente, mais que o necessário para ser identificado com o mítico esportivo.

A uniformização visual traz identidade. Em troca, lhe oferece uma emoção anestesiada. Olhe um carro e conheça toda a linha. Hatch, perua, sedã: sim, são carros com personalidades diferentes. No ritmo atual, todos entram numa estranha mistura, com as dianteiras copiadas entre si. Fico triste em olhar para os novos carros nas ruas e não sentir mais nada, apenas uma legião de representantes de uma linha visual com a mesma aparência fazendo seu papel de transportar, assim, sem emoção.

Vivemos numa era sombria no Brasil, com uma enxurrada de racionalidades aberrantes como Logans, Cobalts, Agiles, Spins, Versas e Etios que, de tão esquisitos, já parecem chegar atrasados duas décadas à festa. Nesse cenário, parece que a VW perde uma valiosa oportunidade de usar o estilo como poderosa ferramenta de diferenciação. Sinto que a Hyundai vá ocupar, em breve, todo esse espaço destinado à popularização do bom desenho em automóveis. Vivemos a ditadura do estilo bem feito direcionado ao mundo desenvolvido e à escravidão dos produtos “para emergentes”, da filosofia do “feio, mas funcional”.

Lembro quanta personalidade tinha o belo sedã Logus, apesar de nascido da costela do Ford Escort. Ficaria feliz, novamente, em poder andar pelas ruas com meu carro e, pelo retrovisor, ter diferentes emoções sabendo diferenciar que o carro atrás pode ser um Gol, um Fox, um Jetta, apenas pelo brilho de seus olhos. Nem parece a mesma marca que já lançou um carro com a música “Quando a luz dos olhos teus…”.

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