Romeno e indiano não precisam ser feios ou ruins

Somos justos quando associamos a nacionalidade (no
caso, da marca ou do automóvel) a uma ironia pejorativa?


O caro leitor do Best Cars certamente tem lido diversos textos desde o lançamento dos Renaults Logan, Sandero e Duster com a expressão “carro romeno” em uma referência claramente pejorativa. Muitos têm apontado o mesmo dedo à Toyota, referindo-se ao Etios como “carro indiano”. Nos anos 90, aqueles esquisitos e tão arredondados carros da Hyundai e da Kia sofriam xenofobia com gritos de “é coreano!”.

Essas questões étnico-automotivas chamaram-me atenção, em especial, em relação à nova geração do Logan, que tive a grata surpresa de experimentar. Se foram os romenos da Dacia que o desenharam, esses romenos são mesmo bons de braço. Cá entre nós, estou mais para o pragmatismo dos traços romenos que para a esquisitice de alguns Renaults legitimamente franceses. Quem se lembra dos estranhíssimos Avantime e Vel Satis? Será que os brasileiros aceitariam sem torcer o nariz aquela coluna traseira quadrada e vincada do Mégane hatch da geração passada? Mesmo o Clio que ainda vendem no Brasil foi vítima de muito preconceito por seu desenho traseiro pouco habitual à época.

 

Depois de assumir a marca romena, a Renault
fez da Dacia uma referência em subsidiária
de carros para mercados em desenvolvimento

 

Embora os detratores acusem a Renault brasileira de ser uma Dacia das Américas (e não estão errados, pelo menos no que se refere ao setor de carros compactos), criando a tese de que os Dacias seriam carros de qualidade inferior, tenho me convencido desde o lançamento do primeiro Logan de que a Renault tomou um caminho correto.

Desde que os franceses assumiram o controle do fabricante romeno, em 1999, viu-se uma troca tão positiva de valor entre duas marcas como raramente acontece. A Dacia minguava com seus defasados carros no leste europeu; a Renault esculpia obras de arte que não estavam assim tão valorizadas pelos críticos de loja, enquanto os acionistas pressionavam. O resultado foi perfeito: a Renault fez da Dacia uma referência mundial em subsidiária de carros para mercados em desenvolvimento, enquanto pôde concentrar-se em pensar o futuro da locomoção de vanguarda, sem medo de perder penetração em mercados estratégicos recém-aquecidos como América Latina, Índia, África e leste europeu.

O sucesso das derivações da plataforma de Logan, Sandero e Duster é tal, que a concorrência passou a tratar com mais seriedade o desenvolvimento de submarcas focadas em segmentos inferiores da escala. No mesmo grupo, a Nissan já buscou no passado a marca Datsun — usada em seus modelos de exportação até o começo dos anos 80 — para denominar os projetos de baixo custo, como o pequeno Go.

 

 

Prontos para nosso chão

A questão é que, no Brasil, há um contrassenso em razão da forma como a marca Renault se consolidou. Ficou inevitável a comparação entre os veículos que ela oferece em outros países e os Dacias que ela vende aqui. Ao menos em parte da Europa, Renault é Renault e Dacia é Dacia. No Brasil, como a maioria das pessoas não tem ideia do que seja Dacia, todos saem com o losango da Renault. Quando a imprensa especializada denuncia a verdadeira origem dos projetos, todo mundo pensa que andamos em carros de escala inferior, o que não é verdade.

Os Dacias são pensados para encarar condições de rodagem e manutenção mais severas, bem adequadas à nossa realidade. Isso é um fato. São necessários grande energia e investimento para adaptar ao Brasil os carros pensados para a Europa e, num planejamento de negócios global, a escolha por modelos planejados para a mesma realidade é determinante. Se o preço que se paga por isso é um carro bom, resistente, mas feio, ao menos os romenos corrigiram o último adjetivo na segunda geração do Logan.

 

O Etios é bom, mas todos aguardam uma
segunda geração menos feia por fora e por dentro,
que virá para os indianos, também

 

A Toyota seguiu a mesma trilha com o indiano Etios, seguramente mais preparado para nossas terras que os demais modelos da prateleira da marca japonesa. E o caminho de aprendizado será o mesmo. O carro é bom, mas todos aguardam ansiosamente uma segunda geração menos feia por fora e por dentro — e esteja certo de que ela virá para os indianos, também.

Somos pródigos em importar carros e preconceitos juntos. Ao menos os romenos, indianos e (por que não?) chineses vêm demonstrando com grande perseverança sua capacidade de aprender e desenvolver carros bem pensados às realidades em que vivemos. A nós fica a lição. Se quisermos carros de concepção mais refinada, precisamos melhorar a condição de nossas vias e, sobretudo, a de nossos bolsos — porque carro barato, bom e ainda por cima bonito é uma equação muito, muito difícil de fechar.

 

Após três anos debatendo temas sobre o universo das marcas e dos automóveis no Best Cars, esta é minha última coluna Marcas & Mercado,  da qual me despeço enquanto preciso focar esforços em outro projeto profissional. Quero agradecer pelo tempo valioso em que discutimos, crescemos e aprendemos juntos no melhor e mais completo site de automóveis do País. Continuarei por aqui, agora como leitor, e prometo retornar em breve. Um caloroso abraço.

Kleber

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