Fiat Strada: é, a previsão do tempo também falha…

Depois do sucesso de uma cabine dupla que muitos apostavam
que encalharia, a picape mineira vem com uma terceira porta

 

Um carro com três portas laterais não é novidade, por mais que a propaganda sul-coreana se fizesse de surpresa. Picapes com cabine dupla, tampouco — além das usuais de porte médio ou grande, existiram aqui mesmo adaptações nos anos 80 e 90 para duplicar a cabine de modelos compactos como Ford Pampa e Volkswagen Saveiro.

Mas essa inusitada Fiat parece mesmo gostar de se aventurar no mercado, sem medo do fracasso. A altivez é uma qualidade admirada pelo consumidor da atualidade — instável, cada vez menos preso a marcas e conceitos sólidos. Na era da tecnologia e da interação social, mais importa o frescor da novidade que a real utilidade do produto. Assim, a terceira porta da Strada de cabine dupla parece mais uma forma “Fiat” de enxergar o mercado que uma resposta da engenharia a uma necessidade do usuário de picapes, sobre a qual nenhuma outra marca havia pensado antes.

 

A concorrência demora a extrapolar as cercas da engenharia e entender o consumidor de uma maneira mais profunda, comportamental

 

Esse é um ingrediente que tempera o sucesso da marca no Brasil: sua capacidade de criar tendências, sem que o mercado tenha que implorar por algo novo. Foi assim com os aventureiros urbanos. Foi assim com a cabine estendida em uma picape compacta. Idem com a cabine dupla e, agora, com essa terceira porta.

Os verdadeiros usuários de picapes, em seu sentido estrito, viram na cabine dupla um empecilho tremendo. Uma caçamba menor sacrificaria demais a capacidade de carga e impediria levar ali uma moto. Mas a pergunta no ar é: a Strada precisa ser, o tempo todo, um veículo feito para o usuário estrito de picapes? Aí reside o segredo de seu êxito e, talvez, um motivo pelo qual as demais não deslancham: a concorrência demora a extrapolar as cercas da engenharia e entender o consumidor de uma maneira mais profunda, comportamental.

Esse raciocínio, da picape voltada ao lazer e à imagem pessoal, começou a tomar forma antes mesmo de seu nascimento em 1998. Até então, variações do conceito de picape — com suspensão mais alta, pneus de uso misto ou decoração ao estilo fora de estrada — em geral se resumiam a séries especiais, adesivadas e com nomes juvenis. Com a Saveiro sentada no trono havia tempos, a Fiat arriscou e apresentou a Strada já com maior altura de rodagem, solução que havia obtido aceitação em sua antecessora Fiorino Pickup. O pacote Adventure surgiria pouco depois para acentuar seu jeito de briga.

 

 

Espacinho maroto

Não demorou e a Fiat veio com a incomum cabine estendida — na modesta opinião deste colunista, o melhor compromisso entre versatilidade e trabalho. Um espacinho maroto atrás dos bancos, bom para colocar a bagagem eventual, que sacoleja, suja demais e fica sujeita aos amigos do alheio se guardada na caçamba. Pouco sabemos se o uso do veículo era mesmo aquele, mas o discurso da publicidade sugeria que o mesmo carro que se usa para o trabalho na semana poderia seguir para o lazer nos fins de semana. Ótima sacada.

Desde então, ninguém mais foi capaz de segurar a gradual consolidação da picapinha que, além de boa de briga, tem uma sorte danada. Diz a lenda que vencedor tem de contar também com boa dose de sorte, não é? A antiga líder alemã nada fez para mexer em sua representante, que ficou defasada até ganhar uma nova geração em 2009 — essa, sim, com cabine estendida, copiando o sucesso da concorrente. Pelos números, mesmo trazendo um projeto mais atual, a Saveiro não foi capaz de alterar o desempenho da Strada no mercado.

O que dizer das outras? A Chevrolet conseguiu a proeza de substituir a primeira Montana por um modelo inferior, enquanto a Ford se manteve inerte durante mais de uma década, satisfeita com a última posição de vendas para sua Courier. Última? Não: falta a Peugeot, que se arriscou com sua Hoggar e mal conseguiu engatar a primeira.

 

A antiga líder nada fez para se mexer e ficou defasada até ganhar uma nova geração — com cabine estendida, copiando o sucesso da concorrente

 

Daí veio a cabine dupla. Em um julgamento racional, muitos especialistas previram baixa aceitação do modelo, em função da perda da versatilidade que citei acima. Ora, nem a cabine se equivalia em conforto à de um Palio, nem a caçamba era digna de um utilitário. Quem se interessaria por um carro que não faz nada direito?

E quem disse que a opinião especializada é capaz de prever a aceitação de um produto? O que ocorreu foi justamente o contrário e os números de venda não deixam mentir. Tamanha foi a receptividade que a marca viu a oportunidade de aprimorar o produto e acrescentar uma porta. Sim, as previsões fracassaram — assim como alguns disseram que aventureiros sem tração nas quatro rodas afundariam, que sedãs com motor 1,0-litro não teriam compradores, que esportivos de fachada como o Hyundai Veloster encalhariam. Enfim, a meteorologia também erra.

Mesmo com uma previsão de céu claro e sol no horizonte, não há descanso, nem para um modelo que pode ser considerado “vaca leiteira” no jargão do marketing — aquele produto maduro, que já tem público, que anda sozinho e do qual você apenas administra os ganhos. Não há mais o que mudar, não há o que acrescentar, só mesmo uma reformulação total mudaria os rumos da Strada. No entanto, se a concorrência não se demonstra apta a tirar a picape da liderança, a antiga plataforma ainda dá conta do recado e se mostra versátil a permitir ajustes, pequenas reformas de estilo e — quem imaginaria — até uma inusitada terceira porta.

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