Equipamentos: confusão de série

Para obter a impressão de muito por pouco, a definição de
itens de série e opcionais induz o consumidor a erro

 

Dois ditos populares sempre devem ser lembrados na hora em que você for comparar carros antes da compra. Primeiro: não existe almoço grátis. Segundo: se não puder explicar, confunda.

Há uma certa euforia (falsa e prejudicial, como toda euforia é) com esses recentes lançamentos de compactos. Hyundai HB20 e Toyota Etios estão deixando em dúvida aqueles compradores tradicionais, que optariam por modelos mais consolidados, com mais tempo de mercado. Recebi muitos questionamentos de amigos que ficaram positivamente impressionados, em especial, com o Hyundai. Além das tradicionais perguntas “o carro é bom?” e “não é importado, não?”, percebi uma confusão recorrente em um ponto crítico: preço versus equipamentos.

Em linhas gerais, tanto Etios quanto HB20 estão sendo comentados no boca a boca como carros com muitos equipamentos de série a um preço bastante competitivo quando comparados aos equivalentes estabelecidos, como Gol, Palio, Sandero ou Fiesta. Parte dessas confusões vem em razão de conceitos preestabelecidos, como “carro nacional popular é sempre ‘pelado’ e carros orientais são sempre completos”, motivados pela crença que esses carros ainda são importados ou de que tais marcas jamais ofereceriam carros “pelados”, já que oferecem produtos recheados nos segmentos nos quais atuaram até hoje. Também acham que os chineses estão causando uma reviravolta, o que é falso — ainda.

Aí é que a informação deve ser uma poderosa aliada. A publicidade confunde, e o faz de propósito. Um bom exemplo é a Nissan. Sua bandeira de campanha é “agora todo mundo pode ter um carro japonês”. Quê? Como pode uma marca que há tempos é de propriedade de franceses, com tecnologia e estilo globais, levemente inclinados a agradar ao público norte-americano, e que produz no México parte dos modelos que vende aqui (com motor Renault brasileiro no caso do March de 1,0 litro) falar em carro “japonês”?

 

O campo óbvio de significação do consumidor era agregar valor de luxo à segurança, mas estamos a pouco mais de um ano da exigência aos fabricantes de equipar todos os carros com ABS e bolsas infláveis

 

Se não for com o intuito deliberado de confundir, me diga o que é. Quem não sabe dessa verdade compra um Versa ou um March achando que leva para casa um legítimo carro de “faróis puxados”. Esse é um exemplo do uso do mito da nacionalidade para induzir ao erro. Já os casos de Etios e HB20 têm a ver com um período muito peculiar por que o mercado brasileiro de automóveis está passando: a transição para a obrigatoriedade de itens de segurança, como bolsas infláveis e freios antitravamento (ABS).

Os fabricantes aproveitarão ao máximo esse período de transição até a completa obrigatoriedade (em 2014) para, usando mitos de mercado e conceitos ultrapassados, confundir a percepção do comprador. Todos os segmentos de mercado são sujeitos a mitos, que conduzem os consumidores a convergirem aos interesses de quem compra e vende carros. A causa disso é nosso passado recente de carros que ofereciam itens de segurança atrelados ao luxo.

Logo, o campo óbvio de significação do consumidor era agregar valor de luxo à segurança. Algo como bolsas infláveis + ABS = luxo = preço alto. Estamos a pouco mais de um ano da exigência aos fabricantes de equipar todos os carros com esse mínimo de equipamentos de segurança ativa e passiva (até lá vigora uma obrigatoriedade parcial), equiparando o produto daqui com o que já é oferecido como padrão há, no mínimo, uma década e meia no exterior. Em função disso, os mais recentes lançamentos já trazem, ao menos, as tais bolsas infláveis de série.

 

 

Duas bolsas sobre rodas

Ao ver a propaganda que oferece o Etios a R$ 30 mil (ora, não venha me falar em R$ 29.990…) com as bolsas como item-padrão, o sujeito acostumado ao mercado nacional pensa se tratar de um automóvel diferenciado, que traz mais por menos, que vem estipular um novo padrão de concorrência, e tal. Até notar que o Etios básico é apenas um par de bolsas infláveis sobre rodas, nada mais. Nem mesmo itens de segurança elementares como limpador e desembaçador do vidro traseiro ele traz: para tê-los deve-se optar pela versão X, R$ 3,5 mil mais cara. Ao equipá-lo com o mínimo de conforto (e com freios ABS), o valor do carro supera R$ 36 mil. Ou seja: nada de diferente.

O HB20 também confunde. É verdade que vem de série com ar-condicionado e direção assistida, mas também é verdade que ao preço de entrada (R$ 32 mil) cobrado ele não traz controle elétrico dos vidros e travas. O fato: qual o consumidor que comprará uma versão com ar e direção e vai girar manivelas para fechar os vidros? Isso, claro, o obriga a migrar para uma versão superior se não quiser recorrer a uma adaptação de concessionária, menos confiável que a instalação de fábrica. Ao equipar a versão de 1,0 litro com o mínimo de segurança e conforto — de verdade, não só na propaganda —, o carro bate em R$ 38 mil. Ou seja: mais do mesmo.

 

O HB20 vem de série com ar-condicionado e direção assistida, mas não traz controle elétrico dos vidros e travas. Qual o consumidor que comprará uma versão com ar e direção e vai girar manivelas para fechar os vidros?

 

O sedã Chevrolet Cobalt, quando foi lançado, também vangloriava-se do preço: R$ 38 mil com ar-condicionado e direção assistida. Os apressados que, na empolgação, abandonaram a ideia do Logan topo de linha e, antes de fechar negócio, visitaram uma concessionária Chevrolet logo repararam que essa versão “básica, mas completa” não tinha controle elétrico dos vidros. Quer acrescentá-los de fábrica? Sem problemas. Compre uma versão R$ 3,5 mil mais cara e leve goela abaixo itens que você poderia não desejar.

Não há almoço grátis. Também não há freios ABS, tampouco bolsas infláveis ou ar-condicionado grátis. O que há é uma lei da física e outra do mercado. Física: dois corpos materiais não ocupam o mesmo lugar no espaço. Traduzindo na lei do mercado: sobe equipamento, sobe o preço. Ou você acha que estão mesmo abrindo mão do lucro oferecendo mais por menos? Nunca. Isso contraria a mais antiga e básica das leis. Para que um ganhe, outro tem que perder. Adivinhe quem.

Fale com o colunista Coluna anterior