Doutrinai as criancinhas

Os carros para crianças têm marca, o que influencia
desde cedo os hábitos do consumidor do futuro

 

Por sorte, meu afilhado é mais um dos nossos. O miúdo tem apenas seis anos, mas com muito menos já arrastava a mamadeira vazia no sofá imitando um carro, reparava nas cores e roncos dos automóveis nas ruas e pouco se interessava por brinquedos que não fossem… carros. Talvez seja isso um pouco dessa nossa convenção social que separa carros para meninos e bonecas para meninas, condenando as bolas de futebol e os joguetes ao eterno segundo plano da infância dos “carrófilos”. Será que eu fui, como ele será em breve, vítima de uma bem estruturada indústria de doutrinação?

Assumo que sou, sim, uma vítima dessa doutrinação. Só fui reparar nisso depois de adulto, pensando no assunto, analisando meus gostos e meu hábito de consumo, e tenho como comprovar. A tenra infância é uma fase de construção de caráter, de personalidade, na qual os elementos com os quais convivemos ficam muito registrados no inconsciente. Tenho registros claros dos brinquedos que mais me agradavam, dos quais tinha mais ciúme e daqueles que desejei intensamente ter. Dos que desejei, guardo com perfeição a alegria efusiva de ganhá-los, tirá-los do pacote de presente e brincar até cansar, dormindo com o brinquedo ao lado na cama. E, também, a frustração daqueles que não pude ganhar, por motivos diversos.

A emoção é uma espécie de agulha que grava discos de maneira indelével no inconsciente. Mais que a razão, que rege apenas as pequenas decisões do dia a dia consciente, a emoção é uma força explosiva, uma energia potencial que emerge das formas mais variadas quando somos adultos. A minha convivência com aqueles brinquedos — carros, claro — moldaram a relação com minhas preferências de consumo hoje, 30 anos depois.

 

Empresas fazem réplicas de clássicos do automobilismo com a bênção do licenciamento de marcas, que visa a auxiliar no processo de construção da “aura” do produto

 

Na adolescência há aquela convulsão hormonal, a independência dos gostos floresce e os meninos acham que já sabem diferenciar de quais carros e marcas gostam e de quais não gostam. Eles acham que começam a exercitar independência nessa escolha, mas no fundo estão replicando modelos aos quais foram fortemente expostos durante sua infância.

Isso ocorreu claramente comigo, que sofro de uma rejeição crônica aos sedãs desde meus 10 ou 11 anos de idade. Nem mesmo os mais belos quatro-portas em produção hoje conseguem estimular em mim algum desejo claro de consumo. Vejamos: meu pai jamais teve um sedã. Jamais passei momentos em família a bordo de sedãs. Todos os meus carrinhos de brinquedo eram simpáticos hatches. Os que mais gostava eram um pequeno VW Polo de primeira geração e um Ford Escort, ambos na escala 1:64.

Itamaraty de bicicleta

Meu pai, que era meu guru para assuntos mecânicos, tinha adoração por dois VW Brasília que tivera, na sequência. Quando eu andava de bicicleta na rua, me imaginava sempre guiando um VW Gol GTi, daquele primeiro de 1989, quadradinho, ou um pequeno Fiat Spazio, cujas diminutas calotas sempre me agradaram… Vai entender.

Já Nagib, meu antigo amigo de rua, fingia com sua bicicleta estar ao volante de um Ford Del Rey — igual ao do pai, claro. Em seu imaginário, seu segundo carro era um Willys Itamaraty, imagine só. Fingia trocar as marchas na alavanca junto ao volante mexendo na alavanca do freio da bicicleta. Claro, seu pai tivera um Itamaraty e tinha especial predileção pelos sedãs. Comprou mais um Del Rey GLX depois, um Chevrolet Monza e vai saber quantos sedãs mais.

Quase todas as marcas de automóveis têm departamentos especiais de licenciamento de marcas, que liberam o uso de seus nomes e desenhos de carroceria na confecção de brinquedos que levam suas insígnias. Comprei infinitos modelos do tipo Hot Wheels — marca famosa de carros de brinquedo — a meu afilhado. Claro que ele sabe as marcas, nomes, subtipos e anos de fabricação de todos eles.

Empresas especializadas em modelismo, como Maisto, Burago e tantas outras, fazem réplicas de clássicos do automobilismo, sempre com a bênção do licenciamento de marcas. Esse licenciamento traz consigo a intenção de auxiliar no processo de construção do que chamamos de “aura” do produto, com sua consequente iconização. Há por trás um processo claro de influência das novas gerações de aficionados por carro.

A filial brasileira da Fiat está com uma linha especial de brinquedos com sua marca licenciada. Aproveitou a boa aceitação da nova geração do Uno, que muito bem trabalhou uma pretensa imagem de “brinquedo para adultos”, e lançou uma linha de coisas para crianças. Guardadas as proporções, pode ser que essas crianças não comprem Unos no futuro, assim, diretamente. Mas haverá influência na maneira como elas lidarão com seu afeto em relação à marca Fiat, ou lidarão com o Uno de suas infâncias como um ícone para si.

Meu afilhado, depois de assistir pela centésima vez o longa-metragem Carros, da Pixar, foi capaz de reconhecer que o personagem Luigi — um velho Fiat 500 da década de 1960 — estava de volta às ruas, em uma versão tipo “anos 2000”. Assustei-me com sua astúcia, enquanto, juntos, combinávamos a ida a uma loja de modelismo no próximo fim de semana, para tentar achar uma versão daquele VW Polo 1976, amarelinho, que eu tinha. Será que ainda acho?

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