Viva o martelinho de ouro!

Um artesão da lataria ressuscitou meu carro da UTI após uma tempestade de granizo

 

Isso faz uns cinco anos. Estava guiando meu automóvel pela rodovia Carvalho Pinto, voltando da região paulista do Vale do Paraíba, uma quinta-feira. Era fevereiro, aquele período do ano quando o calor forma nuvens carregadíssimas depois das três da tarde. Quando me dei conta, já tinha adentrado uma área de tempestade a 120 km/h e as gotas de água, de calibre muito maior que o habitual, se chocavam furiosamente contra a carroceria e os vidros, criando aquele ensurdecedor rugido.

Quando suspeitei que as coisas que despencavam do céu não eram gotas e sim pedras, já era tarde demais. Eu tinha sido fustigado por uma rajada de granizo. Em instantes percebia-se no asfalto o acúmulo de trilhas de gelo ao longo da pista e nos gramados lindeiros. Parei o carro no primeiro lugar seguro que avistei, para mitigar os danos, mas sem esperanças que a chuva de meteoros não tivesse detonado irremediavelmente meu carrinho.

 

Um dono de carro, quando enfrenta algo assim, reage em fases: a negação, o desespero, até alcançar a fase de indiferença — “Pelo menos o carro continua andando”

 

Quando suspeitei que as coisas que despencavam do céu não eram gotas e sim pedras, já era tarde demais

Dito e feito. Agarrei o rosário que levo na carteira, pensando que se o tal Moisés abriu um mar com um cajado, Deus pudesse desamassar meu carro até eu ter coragem para ver o estrago… Avancei até um posto logo adiante e desci rezando e de olhos fechados, com medo de ver o que tinha ocorrido. Abri devagarzinho o olho direito, ainda espremido, para fingir que não via direito, mas logo ficou bem claro a destruição. Todo o capô, teto e aquela região dos “ombros” nas portas, mais horizontais, estavam com inúmeros amassados, de pequeno a médio porte. O capô estava claramente mais detonado, com uma aparência similar à de uma casca de mexerica poncã.

Um dono de carro, quando enfrenta algo assim, reage em fases. Primeiramente, a negação. “Não, não. Tá tudo bem. A lataria foi feita para resistir, os caras pensam nisso na hora de projetar. Eu vou seguir adiante na tempestade e, quando descer, estará tudo inteiro. É bom que esse gelo vai dar até uma polida na pintura!”. A segunda fase é o desespero. Ao olhar o bem precioso naquele estado, solta um berro “Granizo filho da ****! Meu carro nunca mais vai ficar igual! Destruiu minha vida!”. Depois, passa à fase de indiferença. “Nem ligo. Pelo menos estou bem e o carro continua andando. Dane-se a aparência…”. Não dorme mais, só sonha com a lataria furada. Quando vai pegar o carro na garagem, olha pro chão até abrir a porta e entrar.

 

 

Por que tinha que estar ali?

Fiquei assim, variando entre essas fases uns dois meses, até ter estabilidade emocional para procurar como resolver aquilo. Pensava em todos os males possíveis, como um carro inteiro remendado de massa plástica, até a troca total de toda a lata, com solda e repintura. Morria por dentro de ódio. “Por que tinha que estar ali bem naquela hora? Por que não voltei pela Dutra em vez da Carvalho Pinto? Por que não parei para um cafezinho 15 minutos antes?”.

Aí, um amigo falou para eu pesquisar um martelinho. Sabia que os caras tinham técnicas que desamassavam aquelas encostadinhas leves, sem danos à pintura. Mas aquele caso seria como transformar um Suflair num Diamante Negro, e sem derreter o chocolate. Impossível. Estava tão dramático emocionalmente que já cogitava vender o carro para o desmanche, tão assustadora estava a aparência.

 

Respirei fundo, fui para casa já pensando em como absorver os R$ 20 mil de prejuízo na revenda, mas depois de dois dias quase chorei de alegria

 

Fui ao doutor. Mostrei o carro, ele rodeou, olhou na luz, no escuro, passou a mão sobre o capô. Apertou os olhos, com o queixo próximo à superfície pintada. Fez gestos, torceu o beiço. “Tranquilo, deixa ele aí e pode pegar depois de amanhã”. Achei que ele estivesse brincando. “Como depois de amanhã? Você vai remendar e pintar o carro todo em um dia útil?”, argui eu, com medo de levar pra casa um pastel de feira em forma de automóvel, tamanho volume de massa. “Nada disso. Eu desamassarei os buracos um a um”, disse.

Desconfiei. No bar ao lado busquei referências. “O cara é bom. Já deixou um Civic, que tomou uma chuva de granizo, lisinho, lisinho. Vi com meus próprios olhos”, disse o balconista. Respirei fundo, fui para casa já pensando em como absorver os R$ 20 mil de prejuízo na revenda. Depois de dois dias retornei. Quase chorei de alegria. O caboclo tinha desamassado dois mil buracos! O carro parecia novo de novo e para ele aquilo era tão trivial, que me senti envergonhado por ter essa mentalidade de funileiro das antigas. Santo martelinho! Essa foi a semana em que eu quase morri de desgosto e ressuscitei pelas mãos de um habilidoso artesão da lata.

Só mesmo um carro para nos fazer ir do inferno ao céu, em tão pouco tempo. Agradeci por não estar em um conversível, pois não sei se já inventaram martelinho de osso.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars

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