O triste fim dos frisos laterais

Eu-um-Carro-e-a-Cidade

O pior dos frisos de hoje não é estragar o estilo  moderno do seu carro: é estragar o desenho e não servir para nada

 

Enquanto minha esposa vai ao caixa eletrônico, coisa de dois ou três minutos, aguardo dentro do carro com o rádio ligado. Estamos no estacionamento de um posto de gasolina, daqueles que têm lojas de conveniência. Instantes depois, para ao meu lado um outro carro. Escuto o trrrrr do freio de mão sendo puxado e o estalar da fechadura ao abrir. O camarada abre a porta do passageiro ao meu lado e, então, ouço um dolorido bum! — a porta dele batendo na lateral da minha porta.

Sobe-me o sangue à cabeça. Daí, uma série de movimentos involuntários começa a ocorrer na sequência, todos eles indicativos da cólera crescente que vai tomando conta do ser. Os olhos fecham vagarosamente junto da contração da bochecha que forma aquele pé-de-galinha, vem uma respirada profunda, os lábios e os dentes pressionam-se cada vez mais forte, as mãos se fecham e os dedos começam a apertar. Você solta um grito “asno!” – para ser bem mais leve do que o palavrão real. O cara olha pra você, dá uma risadinha sem-graça de canto de boca. Eu saio do carro, irritado, analisando o desastre enquanto o cara não entende a despropositada reação, pensando “o cara acha que o carro está sangrando, ou o quê?”.

 

Ainda há modelos pensados para frisos, como Uno, Ecosport e o caso exagerado do Citroën Cactus, mas a grande maioria prioriza a estética a despeito da prática

 

Friso vendido pela Honda para o Fit atual: como aceitar a ridícula ponta na parte traseira?
Friso vendido pela Honda para o Fit atual: como aceitar a ridícula ponta na parte traseira?

Isso quando você acompanha o doloroso processo. Na imensa maioria das vezes, seu carro é esmurrado por esses cretinos sem que você esteja presente, no estacionamento do seu prédio, no supermercado, no banco, no shopping center. Todos esses malditos lugares têm vagas laterais que estão cada vez mais apertadas e são alvo de toupeiras habilitadas, que param o carro de qualquer jeito, tortos ou sem respeitar a faixa delimitante. Ou, do sinal dos tempos, esses mastodontes sobre rodas que atendem pelo nome de SUVs, que claramente não são feitos para ambientes urbanos.

Nada disso me incomoda tanto quando penso no triste ocaso dos frisos laterais, esse acessório polêmico, cuja função seria justamente a de proteger a lateral do carro dessas agressões. No mundo ideal, um friso seria um pedaço de plástico, borracha ou qualquer outro material absorvente de impactos que, colocado perfeitamente numa aresta, fosse capaz de proteger a carroceria de uma pequena batida não programada. Acontece que é raro que frisos, quando existam, estejam bem colocados. Isso porque colocá-los numa posição que realmente os torne eficazes tornaria um automóvel atual ridículo.

Não é de hoje que os frisos têm perdido importância prática. Nos carros de 10 ou 15 anos para cá, eles parecem claramente mal adaptados. Ainda há modelos contemporâneos que foram pensados para frisos desde o projeto, como o Fiat Uno, cujas portas têm espaços criados especialmente para tal, ou o Ford Ecosport, com uma moldura plástica na região inferior das portas, que é mais larga que a seção logo acima. Exemplo até exagerado foi o do Citroën Cactus, que até pouco tempo atrás tinha a porta recoberta de frisos com bolhas, os airbumps, de fábrica. A grande maioria dos veículos, no entanto, prioriza a estética a despeito da prática.

 

 

Desenhos indisciplinados

Nos carros das décadas de 1970 e 1980, quando predominava uma estética quadrada, era muito fácil encaixar frisos laterais. Aliados de uma filosofia mais utilitarista, os automóveis tinham volumes geométricos claros, bem limitados, e as chapas da carroceria recorriam a estampas lisas na maioria das vezes. Quando eram chapas vincadas, os vincos eram retos quase sempre paralelos ao chão. O resultado eram frisos que apenas ressaltavam formas que já estavam ali, como apliques feitos nos Chevrolets Monza e Chevette, nos antigos Volkswagen Gol e Santana, Fiat Uno e Tempra, Ford Escort e Del Rey. Os frisos e apliques laterais já eram parte do desenho desses carros.

A coisa começou a complicar na década de 1990, quando a moda das curvas começou a tomar conta das coisas. Os carros passaram a ser muito arredondados e os frisos tradicionais, que eram barras retangulares, se tornaram um tanto desequilibrados. O Chevrolet Corsa de 1994 já tinha frisos laterais de formato irregular e arredondado, que pareciam não ter espaço nas portas. Piorava a situação a ausência de gabarito por parte do fabricante, o que fazia com que cada concessionária instalasse os apliques onde bem entendesse. O resultado era um friso que não fazia sua função prática de proteção, por estar colocado num local distante da aresta de contato.

Mas o problema crítico daquela época foi mesmo no primeiro Ford Ka, precursor dos desenhos vincados irregulares, indisciplinados e oblíquos. A porta do modelo inicial tinha um desenho na parte inferior que, junto da chapa lateral do para-lamas traseiro, formava um vinco ascendente irregular não paralelo ao chão. Os instaladores das concessionárias colavam o friso de qualquer jeito, óbvio. Uns estavam paralelos ao chão: de lado, ficavam desarmônicos e ofuscavam a beleza modernosa do carrinho. Os mais antenados tentavam colocar as borrachas seguindo o vinco, o que levava a um resultado simplesmente ridículo.

 

Esses artistas acham que suas obras são feitas para se admirar numa garagem, não para serem picotadas pouco a pouco num estacionamento de banco

 

Para que repetir no friso o nome que já está na tampa traseira? No Ecosport, modelo e versão ficavam sobrepostos
Para que repetir no friso o nome que já está na tampa traseira? No Ecosport, modelo e versão ficavam sobrepostos

É notório que os carros atuais não são mais pensados para frisos nas portas. Veja como é entrecortada a lateral do Honda Fit: é muita aresta, corte, afundamento. Todos oblíquos. É impossível colocar um friso reto ali, o que não justifica aplicar um modelo ridículo com a ponta traseira entortada para cima. E os Mercedes, com aqueles vincos que entortam as chapas daqui e dali, dando para o desenho do carro o que eles chamam de “atitude”?

Esses carros de hoje, que mais parecem obras de arte esculpidas por computadores, não guardam mesmo espaço para os anacrônicos frisos, adaptados a carrocerias com formato de caixa. Esses artistas acham que suas obras são feitas para se admirar numa garagem, não para serem picotadas pouco a pouco num estacionamento de banco. Já imaginou a cara do Michelângelo se a administração da Galleria Uffizi, de Florença, decidisse colocar uns frisos no Davi “para proteger”?

Com o atual desenho dos carros, parece que a única função dos frisos (além de enriquecer o departamento de acessórios das concessionárias) é congestionar a aparência, seja pela peça em si, seja pela desnecessária repetição do nome do modelo, que em geral já está na tampa traseira. A coisa chega ao ponto de se terem dois nomes um sobre o outro — o do modelo no friso e o da versão logo acima —, como a Ford fez oficialmente no Ecosport Freestyle de primeira geração.

Difícil é achar o equilíbrio entre o mercado paralelo, que insiste em produzir atrocidades, e a breguice que alguns donos parecem ter. São tantos frisos, apliques, logotipos e adereços nos mais bizarros locais que um dia colocarão o extintor no lado de fora, como no Brasília dos Mamonas Assassinas. Não posso julgá-los, pois me irritam as batidinhas nas laterais. Mas vamos combinar uma coisa? Se for para deixar seu carro ridículo, pelo menos faça um teste e veja se o friso que vai deixar seu carro parecido com o cantor Falcão o protegerá contra as pancadinhas. E se está colocado de forma a impedir que sua porta picote a minha quando estiver sacando uma grana no caixa eletrônico.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars