O dia em que furtaram meu carro

Eu-um-Carro-e-a-Cidade

Aquele momento que todo dono de carro teme, aconteceu — e não foi nada bom

 

Faz 20 anos que sou proprietário de automóvel. Sempre com seguro, óbvio. No entanto, jamais achei que um dia fosse usar a apólice para cobrir furto ou roubo, porque me via ileso às mazelas do mundo, acreditando que meu anjo da guarda é mais poderoso e que usufruo daquela proteção sobrenatural de que os demais mortais carecem. Parava o carro apenas em estacionamentos e, quando na rua, em locais meticulosamente escolhidos. Até parece que faz diferença.

Um seguro é importante muito além do furto ou roubo. Um automóvel tem múltiplas utilidades, como vêm nos demonstrando os terroristas mundo afora. É uma verdadeira arma: pode ser usado para matar, voluntária e involuntariamente. Estar na rua todos os dias pilotando uma tonelada de metal a 60 km/h parece inócuo, mas basta saber um pouco de física que logo entenderá por que é importante ter um seguro contra terceiros ou que cubra sua responsabilidade civil ao volante.

 

Dei uma volta no quarteirão, rodei mais uma. E nada. Levaram meu carro! Sobrei com a chave na mão, sem pai nem mãe no meio da rua

 

Automóvel é algo sujeito a todo tipo de furto que se possa ter notícia
Automóvel é algo sujeito a todo tipo de furto que se possa ter notícia

Até que um dia, meu pior pesadelo tornou-se realidade, do alto de um bônus “10” da seguradora. Parei o carro numa rua conhecida, tranquila e bem movimentada do bairro do Ipiranga, na capital paulista, logo pela manhã, para um compromisso. Pouco antes do almoço, me despedi e fui para o local onde o carro fora estacionado. E tinha nada no lugar. Zero. Vazio. Rosca.

Não foi imediata a conclusão de que havia algo errado. Procurei mais, andei, vi o outro lado da rua, pensei ter confundido o local do estacionamento. Dei uma volta no quarteirão, rodei mais uma. E nada. Levaram meu carro! Sobrei com a chave na mão. Devo ter ficado paralisado por uns cinco minutos, sem pai nem mãe no meio da rua.

Antes de odiar o ladravaz que levou meu carro, olhei para minha mão, mirei a chave e pensei: “Ei, esse carro tem imobilizador eletrônico”. Imobilizador que, certa feita, me deixou na mão se negando a permitir a partida do automóvel por um defeito na leitura do elemento magnético da chave. Então é assim? Ele impede o dono de ligar o carro, mas não o ladrão?! Maldita tecnologia inútil.

 

 

Chaves codificadas

Nunca ouvi falar que algum carro foi impedido de ser levado pela ação exemplar do tal imobilizador. Acho mesmo que a grande função do dito cujo é encarecer as cópias das tais chaves codificadas e deixá-lo em apuros na revenda, quando o comprador pedir “cadê o cartão do código?” e você fizer cara de quem sujou a fralda.

Automóvel é algo sujeito a todo tipo de furto que se possa ter notícia. É um bem que dá medo só de ter, primeiramente porque nos custa os olhos da cara. Depois, tudo ali é comercializável, dos parafusos aos sensores mais sofisticados; dos pneus aos bancos, tudo, tudo. Os fabricantes evoluíram em alguns pontos para dificultar a vida dos gatunos, mas outros pontos parecem negligenciados, como o exemplo da partida do motor.

 

Décadas atrás, os homens saiam elegantes do automóvel levando a tiracolo o paletó, a capanga e um belo toca-fitas Roadstar, Motoradio ou Blaupunkt pela alça

 

Você podia chegar na rua e ver seu carro sobre cavaletes, caso um canalha tenha roubado suas lindas rodas de alumínio — aconteceu certa vez até com o Mercedes AMG de Bernie Ecclestone, então chefão da Fórmula 1. Os parafusos antifurto de hoje, com segredos bem-feitos, parecem ter resolvido. Estepes, item dos mais cobiçados ultimamente, podem ser bloqueados com travas ou correntes específicas. Os rádios, quem não se lembra? Quão comum era chegar e chorar com o vidro estilhaçado por algum bandidinho que levou embora seu toca-fitas.

Décadas atrás, quando os rádios não eram integrados ao painel, os homens saiam elegantes de seus automóveis levando a tiracolo o paletó, a capanga e um belo Roadstar, Motoradio ou Blaupunkt, pela alça. Aí, a indústria inventou que bastava destacar a frente do rádio que estava tudo resolvido. Então a bandidagem criou o “mercado de frentes”. A questão parece ter-se resolvido quando os rádios passaram a se integrar completamente ao painel, de modo que é mais fácil rebocar o carro a levar o rádio, ao menos que se ande com uma britadeira pneumática para assaltos.

Alarmes e imobilizadores não parecem exercer intimidação alguma. Não é possível que ainda não se tenha chegado a uma tecnologia capaz de impedir que um pilantra ande com seu carro sem sua autorização. Não importa quantos botões, códigos, ímãs e cartões se invente, sempre tem um moleque que enfia as mãos por baixo do painel, puxa dois fios e pumba — liga seu motor e cai fora.

Boa mesmo era aquela trava, parecida com uma bengala, que bloqueava volante e pedal do freio, hein? Devia ter comprado uma dessas e economizado uns bons trocados esses anos todos. Ao menos parece que a seguradora me reembolsará. Se somar 20 anos de seguro, terá dado o preço do reembolso. Afinal, o que nesse país não custa pelo menos duas vezes o que vale?

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars