Eletrificação — e a combustão fica no passado

Rumamos rapidamente à extinção dos motores a combustível, ao preço inestimável do fim de 150 anos de cultura

 

Parece que a eletrificação é mesmo um caminho sem retorno. Ao menos é o que se sente ao analisar as tendências ou percorrer as fontes do ramo pela internet afora. Já chegamos aos estertores da era do petróleo — concluímos — e a indústria automobilística é a mais pressionada para liderar essa transformação, mesmo não sendo aquela que mais responsabilidade tem na cadeia das emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Acredite você ou não, no Brasil as emissões de gases provenientes dos arrotos e flatos dos bois e vacas no pasto correspondem a 18,4% das emissões de GEE, enquanto o transporte corresponde a 13,8% do total, de acordo com dados da Way Carbon. Você faz mais mal ao planeta comendo seu bife do que dirigindo seu bólido, veja só. Claro que essa conta é diferente nos países mais desenvolvidos, cuja matriz energética é diferente e a frota de carros é proporcionalmente maior.

 

Na China os elétricos vão com vento em popa, graças a incentivos governamentais — um alívio para cidades irrespiráveis como Pequim

 

Elétricos como o Mercedes-Benz EQC representarão uma parcela cada vez maior do mercado

Ainda assim, carros elétricos representarão uma parcela cada vez maior do mercado, conforme variadas análises e projeções de mercado. Muitos dos fabricantes têm anunciado planos realmente ambiciosos, preocupados com os constantes danos de imagem que a má gestão do legado ambiental de seus produtos vem deixando. O grupo Volkswagen tem perdido bilhões de euros desde que veio à tona o escândalo das emissões dos motores Diesel, sem contar o dano no valor das marcas como VW e Audi.

O grupo PSA foi um dos mais recentes a anunciar que cada um de seus próximos lançamentos, de 2019 em diante, terá versões híbridas ou elétricas. Na China, um dos maiores e mais problemáticos mercados, os elétricos estão indo com vento em popa, graças a muitos incentivos governamentais e ganhos de escala — um alívio para cidades irrespiráveis, como Pequim. Afinal, mesmo que produzir eletricidade possa resultar em poluição em muitos casos, o principal objetivo é retirar emissões dos grandes centros.

 

 

Mudanças de ciclo

O triste, para aficionados como nós, é ver que a palavra “carro” venha sendo cada vez mais sinônimo de problema.

Particularmente não vejo problemas com a eletrificação. Todas as grandes mudanças de ciclo são envolvidas em certo clima de incerteza ou apocalipse, e nesta não será diferente. Se colocaremos na tomada ou pararemos no posto para abastecer com gasolina, álcool, hidrogênio ou ar comprimido é o que menos importa. O que me entristece de certa maneira é pensar que o automóvel não seja mais tão prático ou atrativo como já foi, enquanto produto e objeto de desejo.

A grande contradição do momento na era do automóvel é vender carros que não conseguem se mover nas cidades apinhadas. Ou seja: o que os indivíduos mais desejam agora é mobilidade, não carros. Pensando com a cabeça de marqueteiro, o carro em si é um meio, e não o fim. Se você pudesse entrevistar pessoas na segunda metade do século 19 e perguntasse a elas o que desejavam quando o assunto era mobilidade, provavelmente diriam que seus sonhos eram cavalos mais rápidos.

 

O que me entristece é pensar que o automóvel não seja mais tão prático ou atrativo como já foi, enquanto produto e objeto de desejo

 

O mundo se espantou ao ver pequenos motores a combustão movendo carruagens, e demorou um bom tempo para confiar que aquilo não explodiria ou quebraria no meio da estrada. O que quero dizer é estamos testemunhando um momento crítico, no qual as ideias parecem não avançar além do formato monobloco com quatro rodas e motor.

Estamos presos em um modelo mental industrial que está sendo fortemente questionado. Isso significa que todo nosso objeto de paixão, estudo e desejo será dizimado ou se transformará profundamente. Não sei se me apaixonarei por alguma cápsula individual que voe. Onde vai parar o estilo dos faróis, dos para-lamas? As lindas rodas de alumínio serão animais em extinção? Como sobreviverei sem um belo volante multifuncional de couro?

Não sei se o caminho brasileiro será eletrificar diretamente — talvez passe por um meio-termo híbrido, talvez usando álcool ou biodiesel como armazenador intermediário de energia. Mas parece inevitável que a propulsão direta deixe de usar motores a combustão. Toda a sensação que provém deles, o torque não linear dos propulsores desse tipo, a vibração, o ruído típico, tudo desaparecerá. Ficarão o zunido de enceradeira e uma imensa sensação de vazio, causada pela dizimação de 150 anos de cultura automobilística.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars