Economia de palito vai além do mero custo

Não é apenas para baratear a produção: a faca que corta certos equipamentos dos carros tem outros objetivos

 

Você já se perguntou, certamente: quanto custa um espelhinho de 5 por 3 centímetros? Centavos? Então, que custa colocar espelho em todos os para-sóis de todos os carros, desde os mais básicos? Já queimou seu dedo ao pegar a vareta que sustenta o capô do motor com o carro quente? Deus do céu, custaria quantos centavos um mísero anel de borracha para envolver um pequenino pedaço da vareta?

A gente costuma se referir a essas bobagens — ao menos em nosso ponto de vista — como economia de palito, em referência ao custo simbólico quase nulo de um palito de dentes, desses que o restaurante lhe dá na mesa. Tem muito carro que fica irritante nas economias de palito, e há marcas especializadas em eliminar itens bobos estrategicamente, com o claro objetivo de irritar. Saiba você que, às vezes, a economia é de palito mesmo. Outras tantas, é proposital para que você gaste uma grana a mais, abandone o palito e compre uma bela escova de dentes elétrica, muito mais cara e com uma boa margem.

 

O Palio Fire custava menos, mas era necessário que parecesse custar menos — senão, o cliente não compra a versão superior gastando mais

 

Dá para imaginar que colocar míseros controles laterais nos difusores de ar do Palio Fire de outrora impactaria o Ebitda da Fiat? Aquilo não custa 10 centavos, feito num plástico que dói de tão tosco. Acredite: não era economia de palito. Havia versões do Palio, Siena, Strada e Weekend que usavam painel semelhante. A versão Fire custava menos, mas era necessário que parecesse custar menos. Senão, o cliente não compra a versão imediatamente superior gastando uns trocados a mais. Foca no racional, amigo: é tudo uma questão de percepção.

Abra qualquer porta de passageiro do VW Polo e o indicador mostrará as três abertas… se não pagar por opcionais

É tão difícil assim para a Volkswagen programar a central de áudio mais simples do Polo para mostrar o logotipo das rádios ou exibir a capa do álbum, em vez de mostrar um péssimo quadrado cinza com um ponto de interrogação? Custaria quanto essa alteração de software? Garanto que pouco, muito pouco. Mas, quando o cliente vê uma central mais completa e cara, chamada de Discover Media, que exibe tudo isso linda e placidamente, instalada apenas na versão de topo, pensa: queria tanto! Não é economia de palito — é questão de forçar você a migrar para um gasto bem maior. Ou abstrair e deixar de se irritar ao ver a tela incompleta no painel.

Ainda no Polo, algumas versões trazem um estranho alerta visual de portas mal fechadas. Ao abrir qualquer uma das portas de passageiros, as três aparecem abertas no indicador do painel, cabendo a você adivinhar se foi a esposa, o filho ou a sogra que não fechou direito. Mas, se comprar um pacote de opcionais, leva junto o indicador como deveria ser, com cada porta em separado.

Nos Chevrolets Onix e Prisma, optar pela versão Joy não significa abrir mão só do visual mais charmoso dos modelos superiores — até o controle elétrico de vidros é diferente, com botões no console central. A GM pode argumentar que fez economia do segundo botão do vidro do passageiro (seria preciso ter um em cada porta dianteira), mas sabemos que essas diferenças ajudam a motivar a escolha de uma versão mais cara.

Mesmo em um carro de bom padrão, como o Volkswagen Golf, vemos economias de palito. Até pouco tempo atrás, a versão de entrada Comfortline não tinha comandos de áudio e do computador de bordo no volante. Sim, um carro de mais de R$ 90 mil, caso você desejasse se rebelar e pedir o básico naquele preço que aparece no anúncio, tinha volante de Fox sem nenhum botãozinho. Quer os botões para o painel ficar bonitão? Compre opcionais que elevam o preço em R$ 5 mil. Economia de palito? Não… esperteza, mesmo.

 

 

Segurança também é afetada

O Toyota Etios, um projeto básico que durante muito tempo foi superprecificado pela japonesa, não traz alto-falantes nas portas traseiras. Não estou brincando — isso inclui a versão de topo, pretensamente chamada de Platinum. Sim, é economia de palito, especialmente quando se leva em conta o preço do carro. E o que dizer das portas que não se travam ao rodar?

E dos discos de freio sólidos, como no Fiat Argo com motor de 1,0 litro? Custaria quanto a mais usar o tipo ventilado, que afasta o risco de perda de eficiência no uso frequente? Alguns reais, facilmente repassáveis ao preço final. Neste caso, a economia de palito afeta a segurança, assim como cintos dianteiros sem ajuste de altura do ponto superior do Citroën C4 Cactus, que podem deixar a faixa diagonal em posição inadequada para um ocupante mais baixo ou mais alto. O mesmo Cactus não tem luzes na parte traseira da cabine — um carro que chega a R$ 100 mil!

 

O Toyota Etios não traz alto-falantes nas portas traseiras, o que inclui a versão de topo, pretensamente chamada de Platinum: pura economia de palito

 

Fiat Argo: discos de freio sólidos reduzem custos, mas também a eficiência no uso prolongado

Se é assim com carros desse valor, imagine o que acontece no andar debaixo com os modelos de menor preço do mercado. Quer chorar? Descubra que a versão básica do Renault Kwid não traz retrovisor interno com função dia/noite. Sabe aquela alavanca mísera que a gente pressiona e o espelho inclina-se um pouco, para jogar para cima a reflexão do farol alto de trás? Pois é: no Kwid, só pagando pela versão Zen. Quanto custa isso? Economia de palito, claro.

Décadas atrás todos se perguntavam se custava tanto assim instalar um retrovisor do lado direito. Hoje nos perguntamos quanto custa um cinto ou um encosto de cabeça para o passageiro do meio no banco de trás. O tempo passa, as economias de palito continuam.

Perceba que há exemplos de diferentes origens. Alguns são, de verdade, economias de palito relacionadas a ganhos de escala, números que moram nas planilhas da equipe financeira e que têm alguma justificativa. Outros têm a ver com posicionamento de produto, concorrência e outros detalhes de marketing. E alguns podem estar relacionados a projeto, como aquele controle elétrico de vidros que não muda de lugar de jeito nenhum. Certas alterações, mesmo que possíveis, não compensariam em função do ciclo de vida esperado para o produto.

Algumas economias de palito irritam e fazem o sangue subir de raiva. Deve ser por isso que muitas marcas economizam no ponteiro e deixam de lado o medidor de temperatura no painel…

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars