Cuidado com os carros estraga-prazeres

Se for seduzido pela beleza, não deixe de dar uma volta para não ser vítima do anticlímax automotivo

 

Assim como em um começo de namoro, onde as aparências agem como um fator crítico de aproximação do pretendente, não há como negar que um carro de desenho instigante, moderno, em voga, exerça atração parecida no potencial comprador. Mantendo a analogia, nem a mais linda mulher mantém as aparências quando convidada para um papo mais cabeça que não se sustenta. Guardadas as proporções e o gosto de cada um, fato é que um carro bonito, mas ruim, decepciona demais. É um verdadeiro estraga-prazeres. E um carro pode te levar ao anticlímax por diversos motivos, seduzindo o motorista como um Don Juan com seu olhar matador, seu papinho mole ou um conjunto de músculos e, na hora “H”, não conseguir levantar nem mesmo um saco de feijão do chão.

Veja o caso do Jeep Renegade. Dono de um estilo muito autêntico em uma escola conhecida e cheia de história para contar, o SUV traz tintim por tintim tudo que um bom aventureiro de cidade tem que ter: desenho, equipamentos, um belo conjunto de imponentes rodas, acabamento bem-feito pelo preço, uma telona no painel e aquela aparência de robustez. O camarada se seduz, compra a versão boa de preço e… o carro não anda. O Renegade com motor flexível de 1,75 litro decepciona ao ser acelerado. Gordo, do alto de sua tonelada e meia de peso, o Jeep exige um milagre que o velho motor E-Torq não é capaz de entregar, tornando-o um SUV apático e beberrão.

 

O Renegade decepciona ao ser acelerado: do alto de sua tonelada e meia de peso, exige o que o motor E-Torq não é capaz de entregar, tornando-o apático e beberrão

 

O jurássico motor de Corcel, o único que a Ford tinha disponível, jogava uma ducha fria nas pretensões esportivas do XR3

Voltando um pouco no tempo, penso no Chevrolet Vectra de terceira geração, aquele lançado em 2005. Desenho derivado do Opel Astra alemão, lindas rodas de 17 polegadas (na época quase ninguém usava essa medida), motorzão de 2,4 litros na versão Elite. Houve tanto alarde antes do lançamento, que a decepção ao dirigir foi inevitável: o desempenho não estava à altura e o consumo fazia lembrar o antepassado Diplomata. Bem diferente do avanço no mercado que o segundo Vectra havia representado nove anos antes.

E do primeiro Ford Escort XR3, quem se lembra? Causou um frisson com seu projeto mundial ainda recente, as tecnologias de construção à frente de seu tempo, o estilo de vanguarda. A versão esportiva, moda na época, era muito transada — lindas rodas de alumínio, teto solar, saias e aerofólio, painel completo com aquele conta-giros girado que apontava para cima em alta rotação. No interior, padronagem de tecidos “nível Ford”, o que não era pouco nos idos de 80, naquele veludo de toque macio, com lindas costuras azuladas. Um volante incrivelmente pequeno e esportivo.

Uau! Com o perdão do palavreado, “um tesão”! Tá bom, vou levar. Paguei, emplaquei. Quando vou acelerar na porta da concessionária, cadê a emoção? Um jurássico motor de 1,6 litro, o único que a Ford tinha disponível, apelidado de CHT era o culpado. Herdado do Corcel, mal passava dos 80 cv. Jogava uma ducha fria nas pretensões esportivas da mítica sigla XR. Foi ganhar alguma emoção só quando pegou emprestado um 1,8 da Volkswagen, em 1989.

 

 

“Não paguei por isso”

De volta aos dias de hoje, veja o Renault Captur. Seu porte é muito atraente, mesmo com uma leve desproporção no balanço traseiro. Os traços são fluidos, o diamante ostentado com orgulho na grade à frente, bonitas rodas de 17 pol em um conjunto realmente chamativo. Mas nada supera o teto em cor diferente: na minha modesta opinião, nenhum carro conseguiu tamanho charme em duas cores, graças ao perfeito arremate do teto com a pequena janela-espia traseira. Sim, ele seduz.

Você abre a porta usando a chave presencial. Então olha para aquele rádio de… Logan? Ei, espere aí. Esses comandos do ar-condicionado são do Logan também? Várias peças em comum com os irmãos pobrezinhos? E como explicar essa profusão de plástico áspero? Paciência, ao menos deve ser muito prazeroso de guiar! Coloco a transmissão CVT em Drive e acelero. Sinto a modéstia do motor de 1,6 litro, a alma de Duster, o volante que não gosta de irregularidades. Não paguei por isso! O vendedor tenta sugerir a versão de 2,0 litros com caixa automática de… quatro marchas. Não, obrigado, os anos 90 já passaram.

 

Associado à imagem da Hyundai por aqui, o Veloster causou muita agitação até começarem a pipocar os relatos de que, na verdade, o carro era um embuste

 

A aparência do Renault Captur seduz, mas aquele rádio de Logan e a profusão de plástico áspero…

Mas, das lendas do anticlímax, nada talvez supere o Hyundai Veloster, o instigante cupê trazido para o Brasil no começo da década. A propaganda — especialidade do importador Caoa — provocava, perguntando quem já havia visto um esportivo de três portas, em alusão ao inusitado desenho que acrescenta uma porta do lado direito. Perfil baixo e esguio, esportivo. Associado à imagem da marca por aqui, em constante crescimento à época, causou muita agitação.

Até começarem a pipocar os relatos de que, na verdade, o carro era um embuste. Nada de injeção direta, nem dos anunciados 140 cv. O motor era um convencional 1,6 com injeção no coletor e meros 128 cv, o que pode ser bom para um HB20, mas um estraga-prazeres para um esportivo de mais de 1.300 kg. A importadora responde até hoje ações na justiça dos compradores que se sentiram lesados pela propaganda enganosa, pois queriam acelerar o que lhes foi prometido, mas pareciam estar com um paraquedas aberto logo atrás.

O que não faltam hoje são opções bonitinhas, bonitas e bonitonas. Mas carro não se faz só de beleza. Fato é que nada substitui uma volta no quarteirão — melhor ainda, um dia inteiro com um carro alugado — para garantir que a aparência não fará o comprador perder a razão quando for fazer a TED.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars