Coisas que nem notamos mais que existem

Os carros evoluíram tanto em pequenas coisas, que só nos daríamos conta se elas desaparecessem

 

Num dia da semana passada garoou forte pelas bandas daqui. Estava com meu auto pela Marginal Tietê, reduto conhecido de caminhões, a uns 70 km/h. Bastou um segundo de desatenção. Olhei por uma fração ao céu, atraído por um bonito avião que se aproximava do Campo de Marte. Um segundo mesmo! Bastou para o caminhão da frente frear bruscamente e eu me assustar, socando o pé no pedal do meio. O carro respondeu com presteza, mesmo com o asfalto úmido, sujo e engordurado que encontramos nessas vias, mantendo a trajetória e me impedindo por poucos centímetros de meter os chifres na traseira da jamanta, detonar meu carro e quiçá me machucar.

Nem me subiu tanto o sangue assim — foi sério, mas corriqueiro, pensei. Muitos de nós pensamos assim, sem nos darmos conta de que as tecnologias passivas e ativas de proteção, presentes nos carros, já estão tão incorporadas aos hábitos dos novos motoristas que parecem nos privar perigosamente da mais elementar atenção e prudência. Neste caso específico, um módulo eletrônico antitravamento atuou modulando a pressão que apliquei ao pedal. Se estivesse guiando um carro anterior a 2014, seria muito grande a chance de não contar com os freios ABS, como é conhecida a sigla mercadológica da tecnologia. Só naquele ano a legislação obrigou fabricantes a dotarem seus carros com esses e outros melhoramentos de segurança.

 

Num passado mais distante os freios não tinham assistência a vácuo, de forma que você era responsável por frear uma tonelada com as forças do joelho

 

Antiga demonstração dos freios ABS na Mercedes: em um carro anterior a 2014, seria grande a chance de não contar com o sistema

Os freios antitravamento, as bolsas infláveis e outros tantos melhoramentos, dos mais técnicos e avançados aos supostamente mais tolos, estão por toda a parte dos automóveis de hoje e guiamos diariamente sem nos darmos conta do quanto ajudam. Só ficaríamos fulos da vida se magicamente desaparecessem, custando tempo, paciência e, nos casos mais graves, até vidas. Quanta gente se irrita nos dias de hoje porque tem que entregar a chave para o frentista abrir o tanque, se já inventaram o destravamento interno da portinhola?

Se apertássemos um mágico botão que fizesse sumir todo tipo de avanço, refinamento ou descoberta, seu carro de R$ 80 mil pareceria uma verdadeira charrete. Apertar a embreagem depois de uma hora de tráfego pesado o deixaria com lombalgia. Quem se lembra que os acionadores de hoje têm comando hidráulico? Num passado mais distante os freios não tinham assistência a vácuo, de forma que você era inteiramente responsável por frear uma tonelada com as forças do joelho. Ou poderia ficar imobilizado na estrada porque seu joelho era forte demais e acabou por estourar o cabo do acelerador — que, após trocado, traria consigo um mecânico aproveitando para ganhar um dinheiro desentupindo um giclê.

 

 

Ferrugem espontânea

Não custa rememorar, mas os carros de algumas décadas atrás enferrujavam espontaneamente depois de uns anos de uso. Isso mesmo. Um belo dia você acordava, olhava na borda do para-lama e via um ponto de ferrugem! Bom mesmo era ter que limpar as calhas (você ouviu bem: calhas) do carro caso você ficasse parado sob uma árvore. Os carros tinham telhados tal qual as casas, com calhas e platibandas. Quanto tempo o brasileiro odiou os carros com quatro portas, ou porque essas não travavam e destravavam a um só comando, ou porque causavam mais ruídos que apenas duas portas.

Carros antes da injeção eletrônica tinham sérios problemas de dirigibilidade a frio, sobretudo se fossem a álcool. Naqueles tempos usava-se o afogador para enriquecer a mistura ar-combustível e dar partida, voltando aos poucos o botão na medida em que o motor esquentasse e as engasgadas diminuíssem. Hoje, não importa com qual temperatura seu dia amanheça, tampouco qual combustível há no tanque, é só ligar e acelerar, assim como dar banho no carro sem medo de entrar água num dispositivo chamado distribuidor. Finado distribuidor…

 

Antes da injeção havia sérios problemas de dirigibilidade a frio, sobretudo com álcool, mas hoje não importa com qual temperatura seu dia amanheça

 

Décadas atrás, um belo dia você acordava, olhava na borda do para-lama e via um ponto de ferrugem

Aquele hábito tão comum hoje em dia de sentar-se ao volante e buscar a fivela do cinto com a mão direita era diferente. Os cintos, mesmo os de três pontos, não tinham retração. Aqueles montes de cintos de pano ficavam jogados em cima dos bancos ou com as fivelas jogadas no chão, na lateral do banco, naquele lugar maldito de se encaixar a mão com as portas fechadas. E se você tivesse que se lembrar de retornar a alavanca do pisca para a posição central, toda santa vez que fizesse curva ou mudasse de faixa, assim como ter que acionar o limpador manualmente todas as vezes que injetasse água para limpar o para-brisa?

Parece muito comum chegar perto do carro e apertar o botão para destravar as portas remotamente, mas até meados dos anos 90 carro nenhum tinha isso. Pior, o motorista andava portando um molho de três ou quatro diferentes chaves, para portas, porta-malas, partida e tanque de combustível. Não raro, enfiava as três erradas na porta antes de, finalmente, acertar a correta. Ah, e não reclame que seu carro de hoje tem um porta-malas pequeno. O “normal” dos projetos de tempos atrás era o estepe ficar de pé, à vista, bem no meio do lugar onde a mala da sua sogra poderia ser acomodada para a viagem.

Veja que você dirigir um carro hoje é uma tarefa que está muito, muito facilitada por diversos mimos que a gente nem percebe mais, pois viraram parte da paisagem. E não citarei aqueles que aparecem nos piores momentos, como o bloqueador de combustível em caso de colisão ou as barras laterais nas portas. Esses a gente tem mesmo é que esquecer e rezar para nunca precisar deles.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars