Carros e cores, uma escolha além dos belos reflexos

Enquanto os automóveis se tornam mais parecidos, as marcas trabalham na pintura como fator de diferenciação

 

Cor é uma característica que não se ignora — das mais importantes, talvez. Tem gente que compra carro fechando os olhos para qualquer outro atributo, hipnotizado por uma cor de lançamento escolhida pelo fabricante. Eu mesmo vivi experiência assim. O leitor deve se lembrar do lançamento da atual geração do Fiat Uno, em 2010. Fui abduzido por aquele tom verde-abacate exclusivo da versão Way, chamado artisticamente de verde Box, pelas formas quadradas do brinquedo sobre rodas.

Uns escolhem para que sejam vistos, outros escolhem para que desapareçam da vista, em busca de discrição. Uns veem questões práticas, como absorção de calor ou visibilidade no trânsito, outros pensam em revenda. Fato é que muitos fatores são levados em conta quando a questão é a cor que vai pintar o auto que alguém adquire. À medida em que carros se tornam produtos cada vez mais iguais em segmentos abarrotados de opções, as marcas pesquisam novos fatores de diferenciação para manter aquecido o interesse do consumidor. As cores e as tecnologias de pintura têm sido muito demandadas por isso.

 

No lançamento do C4 Cactus, a Citroën apontou que na pré-reserva cerca de 35% do volume solicitado tinha como opcional a pintura em duas cores

 

O colunista foi abduzido pelo Uno verde-abacate, tom exclusivo da versão Way

As pinturas do tipo biton não são exatamente uma novidade. Alguns carros no passado traziam essa opção, como a Kombi, cuja opção de pintura em dois tons foi alegremente apelidada como “saia-e-blusa”. Na época a divisão de tons era feita à meia altura da carroceria, pouco abaixo da base dos vidros. Nos carros mais recentes, apenas veículos diferenciados em posicionamento traziam opções biton, como o Mini e os DS. A massificação das opções biton ocorre no momento em que os SUVs ganham espaço fortemente no mercado. Renault Captur, Nissan Kicks, Citroën C4 Cactus e os Jeeps Renegade e Compass são algumas opções nacionais que oferecem pintura em dois tons, em geral com apenas o teto e parte das colunas no tom superior.

São arranjos simpáticos, que combinam bem com esse formato de carroceria. Na ocasião do lançamento do Cactus, a Citroën apontava que na pré-reserva cerca de 35% do volume solicitado tinha como opcional a pintura biton — o que poderia até impactar na oferta, devido ao tempo maior que o auto fica na linha de montagem para o acabamento da pintura. Veremos quanto tempo levarão para que saturem as ruas e deixem de ser algo diferente.

 

 

Conexões com a realidade

Um dos fabricantes globais de tintas automotivas, em sua pesquisa anual de tendências, apontou quais as cores que estarão nos novos carros de agora aos próximos cinco anos. A fornecedora desenvolveu 65 tonalidades diferentes e segmentou os resultados por continente, em razão de peculiaridades e preferências regionais. Na opinião da fabricante, os tons escuros, os cinzas e azuis são o ponto focal da coleção de tintas por “remeterem a mais conexões com os elementos da realidade”.

Seja lá o que isso queira dizer, sabemos bem: as marcas de carro escolherão dois ou três tons de cinza, um bom prata, um preto e um branco e pronto. Aquele verde, azul ou vermelho legal pra caramba ficará em linha por dois ou três meses, na ocasião do lançamento, e logo vai embora.

 

Opções metálicas não têm custos mais altos de pintura, ou seja, como são cores mais desejadas e valorizadas na revenda, os fabricantes cobram mais por elas

 

A pintura em dois tons ganha espaço no Brasil, sobretudo em SUVs, caso do Renault Captur

Em relação à tecnologia, ano a ano novas cargas minerais, evoluções de processo e tecnologias de revestimento aprimoram as demais exigências técnicas que as pinturas têm, que vão bem além das estéticas, passando pela proteção da lataria, absorção de calor até a diminuição na geração de resíduos ambientalmente nocivos. De fato, a pintura é algo que exige além do que vemos nos belos reflexos da luz do sol.

Injusto é, na minha opinião, que paguemos preços diferenciados por cores no momento da escolha e compra do carro zero-quilômetro. Pouco tempo atrás cobrava-se mais para pinturas metálicas e perolizadas, alegando que havia algo mais ali em termos de produção. Depois de pesquisar, descobri que as opções metálicas não têm custos mais altos de pintura, ou seja, a cobrança é na linha da demanda. Como são cores mais desejadas e valorizadas na revenda, cobra-se mais. Com a ascensão meteórica do branco na preferência, todas as marcas passaram a cobrar algo mais por essa prosaica opção, provando a máxima que diz “cobra quem pode, paga quem não tem juízo”.

E você, caro leitor? Já foi hipnotizado por algum modelo pintado em cor de nome inesquecível, como aquele Chevrolet Corsa amarelo Piquet, um Fiat 500 branco Gioioso ou mesmo o Ford Fiesta mexicano verde Iporanga?