Calotas como sinais do desprestígio

Pobre do carro que não merece ganhar, em algum momento, nem mesmo um jogo de calotas novas

 

O maior sinal de desprestígio que um carro pode carregar, ao longo de sua vida produtiva, é não merecer nem ao menos calotas novas. É de chorar no cantinho da concessionária. Não dá a mínima motivação comprar um carro zero que se parece com um usado há pelo menos cinco, seis anos.

A Chevrolet foi motivo de piada por anos, durante a crise financeira e de criatividade pela qual passou nos anos 2000. A então nova geração do Corsa, lançada em 2002, talvez tenha sido o último lançamento relevante daquela década que entraria para a história como a mais estranha da marca no País. Nem trarei para o assunto o Agile… E o Corsa ali, tentando viver. Ao longo de seus longos 10 anos de sobrevida, não ganhou jamais uma calota nova. Aquela tampa plástica de 14 polegadas, em formato de estrela com cinco pontas, aguentou da primeira à última versão. Pobre desprestigiado automóvel.

 

Até o Mille tinha mais prestígio que a segunda geração do Palio: todo ano ganhava um pano novo na porta, uma calotinha nova, um adesivo aqui, uma versão especial acolá

 

No Ka SE Plus 2019, as calotas que já foram do Fiesta S: quanto custaria fabricar novas?

A segunda geração do Fiat Palio, de 2012, sofreu de semelhante desespero. Da hora que chegou na loja até a derradeira unidade, nadica de nada foi mexido. Nenhuma calotinha, nada. Sofria de uma inveja danada do Uno e claramente não havia espaço para ele na linha. Muito carro parecido disputando espaço — Mille, Uno, Palio Fire e novo Palio. E lá finou-se jovem, o coitadinho, tamanha falta de vontade da mamãe Fiat.

Logo ela, soberba quando o assunto é retoques em calotas, frisos, adesivos e para-choques. A última versão, chamada Attractive, não era nada atrativa com suas rodinhas mixurucas, finas, que mal preenchiam o buraco da carroceria. O Mille — veja bem, o Mille! — tinha mais prestígio que a segunda geração do Palio. Todo ano ganhava um pano novo na porta, uma calotinha nova, um adesivo aqui, uma versão especial acolá. Teve até edição de despedida, a Grazie Mille.

Quando vi que a Ford decidiu recauchutar as calotas de 15 pol do falecido Fiesta S na versão SE Plus do Ka 2019, pensei: esse está sem moral! Já nasceu pegando emprestadas as rodas de alumínio do Fiesta SE, para sua versão SEL, e agora até as calotas. Pô, Ford! Custaria tanto assim desenhar umas calotas e rodas novas? Por que deixar o menino eternamente na sombra do irmão mais velho?

 

 

Rodas de Santana

No auge do fogo dos carros com motor de 1,0 litro, em 1993, a Volkswagen meteu um motor Ford CHT retrabalhado no Gol de primeira geração e o chamou de Gol 1000. O banco traseiro inteiriço não merecia nem divisões na costura — mais parecia que o motorista levava duas tábuas de passar roupa atrás. As rodas? Recauchutadas, claro.

Para dar uma falsa sensação de exclusividade, pegaram as rodas de aço dos primeiros Santanas, de 1984, que estiveram escondidas por calotas todos aqueles anos. Sem pudor, colocaram a proverbial tampinha preta, aquela que lembra um copinho, para tapar o parafuso do cubo da roda. Como o aro do Gol era mais estreito que o do emprego original, a roda ficava exposta e facilmente raspava no meio-fio. Não era um carro desprestigiado: era desqualificado, mesmo.

 

Quando a marca mexe demais em um carro, porém, também pode ser sinal de problemas — ou de falta de dinheiro para produtos melhores no curto prazo

 

No Kwid, cada versão tem sua calota e a do Intense (foto) imita muito bem uma roda de alumínio

Quero deixar minha menção honrosa ao Renault Kwid. Esse, sim, está com prestígio! Não só tem uma calota diferente para cada versão, como a da versão Intense imita uma roda de alumínio perfeitamente. Um caso emblemático de desenho a favor da economia.

Quando a marca mexe demais em um carro, porém, também pode ser sinal de problemas — ou de falta de dinheiro para produtos melhores no curto prazo. Veja o Gol. Nos últimos três anos, trocou de frente, traseira, calotas e rodas mais de uma vez. Excesso de prestígio? Duvido: o gato subiu mesmo foi no telhado. O Uno teve uma grade dianteira, em 2004, que não chegou a durar um ano e meio. Prestígio? Não acho. Duas tentativas de reanimar idosos precisando de substituição.

Exceto nos casos onde há mesmo um erro, como naquela grade anormalmente feia do Mille 2004, o equilíbrio ideal seria, ao menos, um jogo novo de calotas e um bigodinho a cada três ou quatro anos. Já que alguns carros no Brasil vivem décadas do mesmo jeito, isso ao menos representaria um alento disfarçado de novidade.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars