Quando a forma e a função do carro entram em conflito

Editorial

Sedãs com teto de cupê, estepe externo e outras soluções pela aparência deixam o automóvel menos prático

 

Todo mundo gosta de um carro bonito, certo? Mesmo que neguem em pesquisas, nas quais destacam economia de combustível ou relação custo-benefício, muitos devem ter na aparência do automóvel o principal fator de decisão de compra. Basta ver a frequência com que o estilo é citado como ponto positivo pelos donos participantes do Teste do Leitor — foi o atributo mais mencionado para Chevrolet Onix e Prisma, Ford Ecosport e Hyundai HB20, analisados no Guia de Compra.

Até que ponto você aceitaria perder em conveniência e facilidade de uso para ter um carro mais bonito ou, pelo menos, que corresponda mais em aparência ao que você busca nele? Essa é outra questão, mas para grande parte do público a resposta parece ser… o quanto for necessário! E há bons exemplos para comprovar.

 

Com a busca por estilo aerodinâmico, a visibilidade tem sido comprometida pelas colunas dianteiras muito inclinadas — e cada vez mais espessas para segurança

 

No Honda Civic, o perfil esportivo do teto prejudica acesso e espaço dos passageiros
No Honda Civic, o perfil esportivo do teto prejudica acesso e espaço dos passageiros

Lembra-se do formato tradicional de sedãs, com o vidro traseiro não muito inclinado e um recorte mais quadrado para as janelas das portas de trás? Havia um motivo para esse desenho: obter uma linha de teto que beneficiasse o espaço para cabeça de quem viaja atrás e, em paralelo, um vão de acesso confortável àquele banco, sem maior risco de bater a cabeça ou necessidade de se abaixar tanto.

Então alguns fabricantes saíram com o “sedã acupezado”, ou seja, com perfil de teto similar ao de um cupê em busca de estilo mais esportivo. Embora seja fácil atribuir a tendência ao Mercedes-Benz CLS de 2004, modelos anteriores (caso do Audi A6 de 1996 e do Volvo S60 de 2000) apontavam essa solução. Hoje o “sedã-cupê” é regra em quase todo fabricante, até em segmentos de entrada, como o Chevrolet Prisma e o VW Virtus que está a caminho. Se a carroceria for alta, o sacrifício ao conforto e ao acesso dos passageiros é menor. Com teto baixo, como no novo Honda Civic, o quadro se agrava.

Na parte dianteira da cabine também se vê um efeito negativo da busca por estilo: a visibilidade comprometida pelas colunas muito inclinadas, impostas por um para-brisa mais distante da vertical. É verdade que existe o componente da aerodinâmica (melhor fluxo de ar pelo vidro inclinado), mas esse fator não tem sido prioritário no desenho de 20 anos para cá, a ponto de vários carros atuais terem Cx pior que o de antecessores da década de 1990. Para complicar, as colunas estão cada vez mais espessas a fim de absorver melhor a energia em colisões. Não vai demorar o dia em que precisaremos de câmeras, com telas nas colunas, para enxergar o que há por trás delas.

 

 

Estribos e estepes

Parte dos inconvenientes à função pela prioridade à forma ocorrem em utilitários esporte e versões “aventureiras”. Para não entrar na questão da altura de rodagem e dos bancos, que pode dificultar o acesso — afinal, sentar-se alto é o que muitos buscam nesses carros —, existem detalhes de desenho que prejudicam sua função. Bom exemplo são os estribos laterais, mesmo aqueles incorporados ao estilo e sem função de degrau, como os do Renault Duster: pela saliência da peça em relação à cabine, é comum sujar-se a barra da calça ao descer. Em projetos mais recentes, sem tanta intenção de parecer um jipe, vê-se melhor solução em que a porta encobre a soleira e a mantém limpa, como no Captur da mesma marca e no Toyota RAV4.

E o estepe preso à tampa traseira? Se a tampa for articulada na lateral, como no Ford Ecosport, o pneu representa apenas consumo de espaço (poderia ter carroceria mais longa com o mesmo comprimento total) e risco de danificar o carro de trás em manobras (reduzido com os sensores e câmeras tão comuns hoje). Ruim é a própria tampa: abri-la requer mais espaço livre atrás do que no tipo articulado em cima. Curiosamente, embora a Ford tenha abolido o estepe externo no Ecosport para a Europa e os Estados Unidos, a tampa manteve seu padrão.

 

Cromados e tons brilhantes em itens de acabamento interno são incompatíveis com o Sol: brilham aos olhos do motorista e causam reflexo nos retrovisores

 

Citroën Aircross: estepe externo em suporte que precisa ser basculado para se abrir a tampa
Citroën Aircross: estepe externo em suporte que precisa ser basculado para se abrir a tampa

Desastrosa mesmo é a solução de estepe em suporte que precisa ser deslocado para abertura da tampa para cima, como na Chevrolet Spin Activ, Citroën Aircross, Fiat Idea e Doblò Adventure e VW Crossfox. Quem criou essa aberração (talvez a Kia com o Sportage de 1993) deveria ser condenado a acionar sua solução 1.000 vezes por dia por 10 anos. Além de impor uma sequência de ações que em geral precisam de ambas as mãos, o suporte desloca-se muito para a lateral. Com o carro estacionado em paralelo à calçada, é comum o pneu exceder sua largura e representar risco a veículos e ciclistas que passarem ao lado.

Infelizmente, não é só do lado externo que se veem conflitos entre a forma e a função: também no interior dos carros. Veja-se o caso da aplicação maciça de cromados e pintura em preto brilhante em itens de acabamento, que é incompatível com um elemento da natureza chamado Sol. No Fiat Argo os difusores de ar cromados brilham aos olhos e causam reflexo nos retrovisores externos. No Toyota Corolla, a moldura da caixa de transmissão reluz tanto que foi o ponto negativo mais apontado por seus donos no Teste do Leitor.

Outro caso — que abordamos aqui, mas vale mencionar de novo — é a profusão de telas sensíveis ao toque. Controles de ventilação por telas estão tornando-se comuns e cada vez mais funções, antes com botões físicos, migram para essa forma de acionamento. Os fabricantes precisam entender que carros não são telefones celulares. Rodam sobre pisos desnivelados, nos quais é difícil acertar o comando tátil, e o motorista tem adiante a mais importante das telas, da qual cada desvio de atenção acarreta riscos: o para-brisa.

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