Preços inflacionados: carros que não valem o que custam

Editorial

 

Qual a lógica em pagar valor de Audi em um Honda ou Hyundai, R$ 101 mil em um Corolla ou R$ 82 mil em uma Space Cross?

 

Um dos grandes problemas da economia brasileira hoje, como se sabe, é a inflação. O mal que tanto prejudicou as finanças da população até 1994, e que parecia sepultado, voltou a incomodar nos últimos tempos com a tendência a escapar da meta estabelecida pelo governo federal (não, esta meta ainda não foi deixada de lado pela desprestigiada “rainha”).

Fatores econômicos não são pauta para este site — a menos que relacionados a automóveis. Embora seja inevitável a alta dos preços dos carros, que reflete aumentos de custos diversos (como energia elétrica), a desvalorização do real (com impacto sobre componentes importados ou veículos inteiros) e o próprio repasse da inflação, tem-se percebido que alguns fabricantes foram com mais sede ao pote que outros, causando distorções de valores que chamam a atenção. A seguir, 10 exemplos.

Fiat 500: o “Cinquecento” mexicano chegou ao Brasil em 2011 com bom conteúdo para um carro pequeno por R$ 40 mil na versão Cult. De lá para cá o preço de entrada passou para R$ 56.900, o que tirou muito de seu apelo em custo-benefício — e o charme do estilo nostálgico já não tem o mesmo valor de então. Mas o pior nesse quesito é a versão Cabrio com o mesmo motor Fire (o veterano oito-válvulas de 88 cv da linha Palio) e câmbio automatizado Dualogic, que sai a R$ 67.900 com apenas duas bolsas infláveis e um sistema de áudio dos tempos em que telas do painel só mostravam a emissora de rádio.

 

Agora o Hyundai i30 começa em R$ 86 mil sem oferecer conteúdo à altura — nem mesmo controle de estabilidade ou bolsas infláveis laterais

 

Honda CR-V: os japoneses conquistaram boa aceitação com esse utilitário esporte, por seu conforto e a reputação da marca, apesar do desempenho um tanto limitado. Bem equipado para seu preço o CR-V nunca foi, como mostrava a espartana versão LX, sem controle eletrônico de estabilidade e só com bolsas infláveis frontais, mas ao lançar a linha reestilizada a Honda foi longe: R$ 134.900 pelo EXL é caro demais para um modelo sem qualquer requinte técnico, que usa o subdimensionado motor de 155 cv do Civic, câmbio automático de cinco marchas e no qual se aciona o freio de estacionamento com um pedal. Detalhe: importado do México, ele está isento do Imposto de Importação de 35% que onera, por exemplo, o Audi Q3 de R$ 127.190.

Hyundai i30: na geração anterior lançada aqui em 2009 o i30 fez boa fama, pois era um hatch médio moderno, de bom desempenho (2,0 litros, 145 cv) e preços atraentes em uma categoria que andava desatualizada — a Volkswagen ainda vendia o Golf lançado em 1998. A mudança de modelo atualizou seu visual e trouxe o câmbio automático de seis marchas, mas reduziu o motor para 1,6 (128 cv), levou embora a suspensão traseira multibraço e fez o preço disparar. Embora o 1,8 de 150 cv lhe tenha devolvido fôlego, a importadora Caoa perdeu o juízo e agora o i30 custa entre R$ 86 mil e R$ 106 mil, conforme o pacote de equipamentos, sem oferecer conteúdo à altura — a opção inicial nem mesmo tem controle de estabilidade ou bolsas infláveis laterais.

Hyundai IX35: a escalada de preço da Honda com o CR-V parece ter inspirado a Hyundai Caoa, que fabrica aqui mesmo o IX35. Ao mesmo tempo em que mercados externos recebem seu sucessor sob o nome Tucson, o modelo 2016 nacional ganha mudanças que nada lhe acrescentam e perde equipamentos de série, que podem ser “devolvidos” mediante o pagamento de R$ 10 mil adicionais. Pelos R$ 110 mil, porém, ainda se leva um utilitário esporte sem controle de estabilidade — restrito ao último catálogo, de salgados R$ 123 mil. Mais uma vez, preço de Audi Q3 para um carro tecnicamente muito mais simples e sem Imposto de Importação.

 

 

Kia Soul: caso semelhante ao do i30, embora o modelo anterior não tenha provocado grandes filas na porta das concessionárias Kia. Sob justificativa de aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para carros de importadores sem fábrica (ou promessa de erguer uma) no Brasil, o preço do Soul disparou na troca de geração e hoje ele custa R$ 84.900 (já foi mais caro) em um pacote modesto, sem teto solar ou controle de estabilidade e com motor 1,6 de apenas 128 cv.

Mercedes-Benz A250: na primeira geração, produzida no Brasil, o Classe A tinha bons argumentos e um preço alto demais para um carro de seu porte — vendeu em seis anos o que a Mercedes almejava vender em um. O modelo atual, o terceiro, é certamente mais atraente e esportivo, mas fica difícil justificar R$ 169.900 pela versão superior (abaixo da esportiva A45 AMG) com motor de 2,0 litros diante, por exemplo, dos R$ 137.190 do Audi A3 Sportback Ambition 1,8.

 

Ao preço de R$ 101.590 o Toyota Corolla Altis já deveria dirigir sozinho, mas não aciona sequer o limpador de para-brisa quando chove

 

Mini Paceman: quer ver o Soul parecer barato? Com proposta até semelhante em termos de produto, mas muito diferente em imagem de marca e conteúdo de série, o grupo BMW oferece um hatch de três portas com ar robusto, motor 1,6 turbo de 184 cv, tração integral e pacote interessante de equipamentos. O problema é o preço: R$ 169.950, dinheiro demais para o carro que ele é.

Smart Fortwo: na Europa o pequeno Smart é um carrinho charmoso, prático para as grandes cidades e relativamente acessível. Aqui ele se mostra limitado em termos de conforto — a suspensão sofre com o piso brasileiro, o câmbio automatizado decepciona —, mas um tanto folgado em relação a preço. A versão turbo, que obtém modestos 84 cv do motor de 1,0 litro (menos que um Ford Ka aspirado, embora com vantagem em torque), começa em R$ 72.900, mais que alguns bons carros médios. Se ao menos pagasse só metade do valor no estacionamento…

Toyota Corolla: assim como a Honda, a Toyota estabeleceu uma boa reputação por aqui quanto à qualidade dos carros e da assistência técnica. É claro que ela cobra por isso, e cobra bem: o Corolla Altis, com um motor simples de 2,0 litros (nada de refinamentos como turbo e injeção direta), já custa R$ 101.590 e continua a não ter controle de estabilidade. Com um preço desses já deveria dirigir sozinho, mas não aciona sequer o limpador de para-brisa quando chove.

Volkswagen Space Cross: a VW não tem um utilitário esporte compacto na faixa de preço de Ford Ecosport ou Honda HR-V; contudo, talvez nem precise. Com projeto que vem do simples Fox de 12 anos atrás, estilo já retocado duas vezes, bancos revestidos de imitação de couro, motor 1,6 de 120 cv e câmbio automatizado monoembreagem, a perua “aventureira” Space Cross com opcionais leva no para-brisa uma etiqueta de R$ 82.713. Como já observou um leitor do Best Cars, se tivesse motor turbo e câmbio de dupla embreagem DSG, é provável que ela custasse mais que uma Golf Variant completa.

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