Os carros e a internet quando o Best Cars nasceu

O mercado, os hábitos ao volante e o uso da rede eram outros no lançamento deste site, em outubro de 1997

 

Você se lembra de 1997? Alguns que me leem nem eram nascidos nesse ano; outros o terão como apenas um trecho de uma longa vida. Vários como eu, porém, voltarão mentalmente 21 anos no tempo — para 22 de outubro de 1997, data de inauguração do Best Cars — e recordarão um mundo bem diferente para quem gosta de automóveis.

O cenário nas ruas já contava com ampla variedade de marcas, reflexo da abertura do mercado às importações sete anos antes. Contudo, quase tudo que circulava sem trazer um emblema das “quatro grandes” — Chevrolet, Fiat, Ford e Volkswagen — vinha de fora: a Honda estava inaugurando por aqueles dias a produção do Civic nacional e ainda não havia fabricação local de Citroën, Mitsubishi, Nissan, Peugeot, Renault, automóveis Toyota (só o jipe Bandeirante) ou Mercedes-Benz (só fazia ônibus e caminhões). Mesmo entre as marcas tradicionais, fábricas hoje consagradas como a da General Motors em Gravataí (RS), a da Ford em Camaçari (BA) e a da Volkswagen em São José dos Pinhais (PR) ainda estavam por ser erguidas.

 

Entre os carros de 1997 havia sucessos que nos deixaram faz tempo, como Vectra e Parati, e outros que despertavam suspiros nas ruas, como Omega e Tempra

 

Já em fase final de produção, o Chevrolet Omega nacional era cobiçado em 1997, quando surgiu o Best Cars

O carro mais vendido havia 10 anos era o Gol, que não perdeu seu posto há tanto tempo assim. Por outro lado, entre os modelos de maior sucesso em 1997 há alguns que nos deixaram faz tempo, como o Chevrolet Vectra (6º no ano e líder entre os médios) e a VW Parati (8ª colocada, o que uma perua não mais consegue há anos). Outros vendiam menos, como o Chevrolet Omega nacional e o Fiat Tempra, mas despertavam suspiros nas ruas. Em 18º aparecia um utilitário esporte: o Chevrolet Blazer, construído dentro dos padrões da época, com chassi da picape S10 e eixo traseiro rígido. Só nos anos seguintes teríamos lançamentos de SUVs de conceito moderno, mais próximos de automóveis, como Honda CR-V e Toyota RAV4.

Antes que os utilitários tomassem conta das ruas, porém, outra categoria se tornaria febre nos anos 2000: a das espaçosas e funcionais minivans compactas, com Chevrolet Meriva e Zafira, Citroën Xsara Picasso, Fiat Idea e a pioneira Renault Scénic. Curioso é que na época houve, até entre nós, quem criticasse esse conceito por abrir mão de vantagens das peruas em estabilidade, aerodinâmica e visibilidade (minivans sempre tiveram grandes pontos cegos pelas colunas dianteiras). Dentro da máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar, hoje analisamos os SUVs e temos certa saudade das minivans.

Havia outras diferenças nos carros de 1997 que chamariam atenção de quem dirige um modelo de hoje. Abastecer automóveis, em regra, só com gasolina (havia poucas opções a álcool): o primeiro motor flexível em combustível só viria em 2003 no Gol. Acelerar uma picape média com motor a diesel era certeza de decepção: a faixa de potência em modelos da Chevrolet, Nissan, Mitsubishi e Toyota era de 90 a 100 cv, metade do que elas produzem hoje — por outro lado, havia opções a gasolina com 160 a 180 cv, como S10 e Ford Ranger, antes que o custo do combustível as inviabilizasse. No painel, a fonte de mídia variava entre fita-cassete e CD e a tela do rádio se limitava a mostrar a emissora ou a faixa de áudio — só o número, pois levaria anos para surgir a leitura de arquivos MP3.

 

 

Telefone ocupado

Mais que o mercado de automóveis, a vida era diferente para quem queria se informar sobre eles em 22 de outubro de 1997. A internet existia no Brasil havia pouco tempo e só alcançava um milhão de usuários — algo como seis brasileiros a cada 1.000, pois nossa população era então de 167 milhões de pessoas. O acesso à rede significava, para a maioria, um exercício de paciência: as conexões eram lentas e instáveis, deixavam ocupada a linha telefônica e tinham pagamento por tempo de uso. O portal UOL só tinha um ano e a empresa Google fora fundada no mês anterior. Redes sociais? Além do comunicador instantâneo ICQ, ainda novidade, havia salas de bate-papo.

Para ler sobre carros em português na internet, há 21 anos, era preciso recorrer a poucos sites das revistas e páginas pessoais — dos atuais grandes sites do setor, apenas o Webmotors já existia, mas dedicado a classificados e com escasso conteúdo. E então nasceu o Best Cars.

 

Fabricantes e importadores perceberam que, naquela iniciante mídia, havia uma proposta apta a avaliar com seriedade, isenção e qualidade seus automóveis

 

Uma foto marcante: F50, o supercarro de 50 anos da Ferrari, em destaque no Best Cars em seu primeiro dia

Quem visse no primeiro dia aquela página no servidor Geocities, com uma foto do Ferrari F50 em destaque, talvez não a diferenciasse do trabalho de outros jovens que colocavam suas paixões na nova — e já fascinante — rede mundial de computadores. Um olhar atento, porém, indicaria elementos diferenciais: conteúdo mais aprofundado e técnico, respeito ao idioma, características das revistas como o Editorial.

Esses atributos chamaram a atenção de internautas, alguns dos quais logo compunham uma equipe para ampliar o leque de assuntos e seções. Atraíram também o portal UOL, que iniciava uma duradoura parceria em maio de 1999, dois anos antes de ter sua própria seção Carros. E convenceram fabricantes e importadores de que, naquela iniciante mídia, havia uma proposta apta a avaliar e divulgar com seriedade, isenção e qualidade seus automóveis. Os convites para lançamentos logo começaram e, em setembro de 1998, um Ford Mondeo era o primeiro carro avaliado no Brasil por um site sem ligação com revistas.

De lá para cá, como se diz, é história. Veio uma avalanche de sites, blogs, depois canais de Youtube, e a internet se tornou a base para a maior parte do que se lê, assiste, consome e debate sobre carros. Mudou todo o ambiente ao redor, mas o Best Cars continua o mesmo: feito por uma pequena equipe de aficionados pelo assunto, com profundidade de conteúdo, respeito ao idioma e dedicação a você, que nos acompanha e recomenda.

Ao caro leitor e à cara leitora, aos muitos que já passaram por esta equipe, aos fabricantes e importadores, aos anunciantes e parceiros e em especial a Deus, que comanda o volante de todos nós lá do alto, meus agradecimentos. Ao Best Cars, parabéns pelos 21 anos. E que venham muitos aniversários!

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