Já vão tarde: equipamentos que não deixarão saudades

Editorial

Alavancas, chave e até retrovisores tendem a desaparecer dos carros, mas há alguns itens que resistem

 

Fui avaliar esta semana o novo BMW Série 5, que publicaremos na segunda-feira, conforme embargo do importador. Ao abrir a tampa do porta-malas, um susto: uma enorme caixa plástica armazena um estepe de tamanho integral, com roda de alumínio e pneu de 19 polegadas na versão 540i, conjunto que deve custar metade de um Fiat Mobi. O curioso é que o carro, como é praxe na marca há alguns anos, usa pneus aptos a rodar vazios. O alojamento, que pode ser removido para restabelecer a capacidade original de 530 litros de bagagem (com ele são apenas 390), foi adotado no Brasil atendendo a pedidos de consumidores.

O automóvel tem mesmo alguns itens fadados a desaparecer… e outros que resistem em seu lugar, mesmo com todo o avanço da tecnologia.

No caso do estepe, a explicação é compreensível: impactos severos podem avariar mesmo os pneus do tipo roda-vazio ou as rodas, com risco de deixar o motorista na rodovia sem alternativa para resolver a questão a chamar o guincho e rebocar o carro. Além disso, quando furados, esses pneus precisam ser substituídos — há quem fale sobre repará-los, mas os fabricantes não recomendam. Até que isso possa ser feito, impõem-se limitações de uso quanto a distância e velocidade. Imagine o dono do 540i, ao constatar um furo a 500 quilômetros de uma loja que possa repor o pneu, tendo de viajar por horas em boas rodovias a 80 km/h. Valeu ou não o transtorno de ter carregado um enorme estepe?

 

Impactos severos podem avariar mesmo os pneus do tipo roda-vazio ou as rodas, com risco de deixar o motorista na rodovia, distante de um local para resolver a questão

 

No Vectra hatch, a primeira aplicação de fábrica de navegador... preso ao para-brisa
No Vectra hatch, a primeira aplicação de fábrica de navegador… preso ao para-brisa

Outro item que parece caminhar para a extinção, mas encontra certa resistência, é o navegador por GPS. Foi uma carreira breve no Brasil, pois só em 2006 caiu sua anacrônica proibição, justificada pela emissão de imagens ao motorista — uma daquelas leis-jabuticaba, assim como a que nos obrigou a comprar extintores de incêndio entre 1970 e 2015. De início caríssimo (cerca de R$ 2 mil em valores da época), o navegador portátil apareceu em carro de série no Chevrolet Vectra hatch, em 2007, e deu lugar a aparelhos integrados ao painel.

O problema é que o advento do Waze, o popular navegador interativo para telefone celular adquirido em 2013 pela Google, tornou rapidamente obsoleto o aparelho de GPS dos automóveis. Seja pelo cálculo de rota que leva em conta a fluidez do trânsito, seja pela rapidez com que os mapas são atualizados, seja pela facilidade de avisar e ser avisado sobre acidentes ou outras ocorrências, o aplicativo fez o navegador de painel parecer tão arcaico quanto um mapa de papel. Eu mesmo, há anos, só uso o aparelho dos carros em teste pelo tempo necessário para avaliar sua operação.

A Volkswagen seguiu essa direção com o Up 2018, que abandona o aparelho Maps & More acoplado ao painel em favor de aplicativo para celular. O navegador dos automóveis, entretanto, tem seu espaço assegurado longe dos grandes centros, em regiões com precária cobertura de celular ou nas quais o fator trânsito não é relevante. Sem falar que uma tela de 7 ou 8 pol no painel é mais cômoda de ler e operar que a do telefone.

 

 

Chave no bolso, trocas no volante

Um item que sempre acompanhou o automóvel parece destinado não a desaparecer, mas a ser cada vez menos manuseado: a chave. Até meados dos anos 90 era preciso inseri-la na fechadura para abrir as portas, o que o controle remoto dispensou. Mais tarde veio a chave presencial, na qual um sensor autoriza o destravamento das portas e a partida do motor, podendo o item ser mantido no bolso ou na bolsa. Hoje, nem mesmo apertar o botão da tampa do porta-malas é necessário em vários carros: basta passar o pé sob o para-choque para a tampa se erguer.

Para muitos, operar a alavanca de transmissão manual e o pedal de embreagem também é coisa do passado — parece inevitável o crescimento das caixas automáticas e automatizadas, à medida que o trânsito se agrava no mundo todo. Mas até a alavanca da automática vem caindo em desuso.

 

Monitores da pressão dos pneus trazem conveniência, economia — em combustível e na durabilidade — e segurança, pois muitos motoristas demoram a perceber a perda de ar

 

A Lane Watch da Honda vem montada junto ao retrovisor, mas poderia substituí-lo
A Lane Watch da Honda vem montada junto ao retrovisor, mas poderia substituí-lo

Marcas como Ferrari e Maserati (e a Fiat com Uno e Mobi) usam apenas botões no console e comandos no volante para mudanças de marcha, enquanto outras (Jaguar, Land Rover, a Ford no Fusion) adotaram um controle giratório para a seleção de posições. Pequenas alavancas na coluna de direção, como as usadas pela Mercedes-Benz e a Citroën (na C4 Picasso), também atendem ao objetivo de liberar espaço no console central. Afinal, se todo o acionamento é eletrônico, nada exige que se mantenha a alavanca seletora tradicional.

O mesmo aplica-se ao freio de estacionamento, que tem recebido comando elétrico em diversos modelos. Além de eliminar a alavanca que consome espaço, a solução facilita bastante o uso, que em geral se torna automático: o freio aciona-se ao colocar a transmissão em P e libera-se ao passar para D e acelerar (em alguns carros, apenas se o cinto de segurança estiver atado). O recurso permite ainda a conveniente retenção automática ou Auto Hold, que dispensa manter o pé no pedal de freio durante as paradas do trânsito.

Do lado de fora do carro, os espelhos retrovisores têm demorado a dar lugar a pequenas câmeras por uma questão de legislação — o Japão, enfim, deu o sinal verde para sua despedida no ano passado. A julgar pelo sistema Lane Watch de câmera direita da Honda, aplicado no Brasil ao Civic Touring, não sentiremos saudades: suas imagens são mostradas mais perto de nosso campo visual, no centro do painel, e a cobertura é muito mais ampla que em um espelho.

Por fim, uma extinção a caminho não para um equipamento do carro, mas para uma tarefa: verificar no posto a pressão dos pneus. Motivada pela legislação norte-americana, a adoção de monitores dessa pressão (mesmo em carros não vendidos lá, como a Fiat Toro 2,4) tem trazido conveniência, economia — em combustível e na durabilidade dos pneus — e segurança, pois muitos motoristas demoram a perceber que um pneu está perdendo ar por furo.

Em se tratando de certos itens e tarefas, não há o que duvidar: já vão tarde.

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