Dezoito anos: o Best Cars alcança a maioridade

Editorial

 

Em uma mídia na qual o tempo passa muito rápido, surpreende ver que bebês nascidos no mesmo ano do site hoje estão ao volante

 

Dizem que cada ano de vida dos cães corresponde, de maneira aproximada, a sete dos seres humanos. Assim, aquele cachorrinho de cinco anos já seria um homem de 35, enquanto um de 10 anos seria um senhor de 70 se humano fosse. Não se sabe de correlação semelhante para a “vida” na internet, mas não seria exagero estimar algo como cinco anos no “mundo real” para cada ano no virtual.

Assim, um portal como o UOL — lançado em 1996 — desfruta hoje de solidez e reputação equivalentes às de um jornal quase centenário fora da grande rede. A enciclopédia colaborativa Wikipédia, iniciada em janeiro de 2001, comemoraria em breve 75 anos se estivesse no papel em vez de atrelada a servidores — de fato, parece tão integrada a nosso cotidiano quanto a Barsa que nossos pais tinham na estante da sala e que surgiu há 51 anos. E foi em 2004 que a Google lançou a rede social desenvolvida por Orkut Büyükkökten, mas os jovens devem vê-la como algo tão distante quanto algo de meio século atrás. Parece mesmo que na internet o tempo passa muito mais rápido.

Pois nosso Best Cars, inaugurado em 22 de outubro de 1997 como Best Cars Web Site, está completando 18 anos — dentro da correspondência de um para cinco, é como se estivesse apagando 90 velinhas a caminho do centenário. De fato, surpreende imaginar que muitos jovens nascidos no ano do surgimento do site já estejam dirigindo por aí, com sua habilitação ainda fresca. E que vários novos motoristas do início dessa história tenham hoje tanto tempo de experiência ao volante quando tinham de idade naquele ano.

 

No Salão de 1998, distribuí aos assessores disquetes com um conteúdo demonstrativo do site que podia ser visualizado sem uso da rede

 

Manter por 18 anos um site especializado, que começou quando a internet era desconhecida por grande parte das pessoas, requer um bocado de persistência. Embora já existisse um grande site dedicado a automóveis (o Webmotors) desde o ano anterior, ele era voltado ao comércio de veículos e não ao conteúdo editorial. Já a proposta do Best Cars, desde a primeira edição, foi trazer informação — para orientar sua decisão de compra e contribuir para o uso e a manutenção adequados do carro — e entretenimento sobre o fascinante mundo do automóvel.

Como muitos já sabem, o site começou como uma página pessoal — a que hoje se chamaria de blog — hospedado no servidor Geocities, mais tarde absorvido e encerrado pelo Yahoo. No início, ao lado de artigos sobre carros luxuosos e potentes esportivos, havia matérias técnicas e de serviço que eu desenvolvia para a revista Autoesporte, mas não demorou para o conteúdo exclusivo do site superar em muito o que era aproveitado daquele trabalho.

Foi um tempo de desbravamento — não só para conquistar um espaço na imprensa voltada ao automóvel, mas até para apresentar às pessoas uma forma de mídia ainda desconhecida.

Pode parecer mentira hoje, mas na época muitas empresas não ofereciam acesso à internet nos escritórios, mesmo aqueles de assessoria de imprensa dos fabricantes e importadores, sendo necessário que os assessores consultassem o site de casa. No Salão do Automóvel de 1998, em São Paulo, distribuí a eles disquetes de 3,5 polegadas (os mais jovens, por favor, consultem um dicionário) com um conteúdo demonstrativo que podia ser visualizado sem uso da rede, ali mesmo no evento se desejassem.

Do projeto pessoal para a pequena equipe foi um pulo. A internet era descoberta a cada dia por pessoas de todo o Brasil, muitas delas cheias de conhecimento e paixão pelo assunto, que gostariam de compartilhá-los com outros de mesmo interesse. Vários colaboradores foram responsáveis por abrir novas seções no site, como Iran Cartaxo com o Consultório de Preparação — um dos serviços de maior êxito naquela fase — e Francis Castaings com as histórias de Carros do Passado, e vieram colunistas para assuntos variados. Seria impossível relacionar todos aqui.

A qualidade do trabalho levou o site a ser considerado por fabricantes e importadores, tanto no convite para eventos de lançamento quanto na cessão de carros para avaliação — o primeiro foi um Ford Mondeo em 1998. No mesmo ano eram lançados o Teste do Leitor, pioneiro entre as pesquisas de opinião sobre carros na internet brasileira, e a Eleição dos Melhores Carros, que logo se consagrou como uma das mais respeitadas do gênero.

 

 

Em maio de 1999 estreávamos no portal UOL por seu programa de parcerias, precedendo em dois anos a criação do próprio canal Carros. Então veio a grande bolha da internet na virada do milênio, quando as empresas “ponto com” — quem se lembra dessa expressão? — receberam investimentos polpudos de olhos no crescimento exponencial da rede. Quando a bolha estourou, muitas não resistiram ao amadurecimento do mercado e ao processo de seleção pelos internautas.

No mercado editorial sobre automóveis também se viu uma bolha, quando numerosos sites e blogs passaram a demandar espaço junto às assessorias. Mais de uma vez ouvi de fabricantes que não haviam convidado ninguém da internet para um evento, pois havia candidatos demais e critérios de menos para selecionar. Em nossa área, como na rede em geral, o tempo encarregou-se de mostrar quais eram as propostas mais qualificadas. Junto aos leitores sempre mantivemos um público fiel e crescente, mesmo com as incontáveis opções de informação de qualidade hoje disponíveis na rede.

 

Três elementos

Acredito que o Best Cars só tenha chegado até aqui por seguir uma diretriz, uma linha editorial, que foi ao encontro do que buscavam tanto os aficionados por automóveis quanto os interessados em informação isenta e de qualidade para balizar sua escolha de um novo carro.

 

Não endossamos as estratégias de marketing que tentam chegar a você: se anunciam “nova geração”, analisamos se não é apenas cirurgia plástica

 

O que compõe essa linha? Basicamente, três elementos:

Profundidade. Seja para orientar sua decisão de compra, seja para levar entretenimento, entendemos que você mereça muito mais que o básico. Não nos satisfazemos com a informação — em geral cada vez mais rasa — divulgada pelos fabricantes e importadores. Cada avaliação ou comparativo envolve análises minuciosas dos carros, consultas às assessorias de imprensa, pesquisas em fontes internacionais em busca de dados mais detalhados.

Rigor com a informação. Não endossamos as estratégias de marketing que tentam chegar a você por meio da imprensa. Quando uma marca anuncia “nova geração”, analisamos se o carro foi realmente reprojetado ou se passou por mera cirurgia plástica. Não usamos termos e expressões como montadora para fabricante, bloco para motor (o bloco é apenas parte do motor), 300 cilindradas (são cm³ de cilindrada), cupê de quatro portas (cupê só pode ter duas laterais), barra de torção para eixo de torção (são coisas distintas) ou motor 1.0, pois no português a casa decimal vem após vírgula e não ponto, como no inglês.

Respeito ao idioma. Há tempos li jornalistas de uma revista opinarem que “caranga socada” fosse uma forma apropriada, moderna, de descrever um carro com suspensão rebaixada — alegavam que a linguagem da imprensa deveria acompanhar os padrões coloquiais das novas gerações. Não os leio há anos, mas imagino a que ponto deve ter chegado sua forma de escrever em busca da aceitação pelos jovens, os mesmos que continuam a ler e apreciar este site.

E assim chegamos ao décimo oitavo aniversário, momento no qual quero — mais que comemorar — agradecer: à equipe Best Cars, empenhada em fazer um trabalho de alta qualidade, e a você, leitor ou leitora, razão da existência desse trabalho e que nos prestigia com sua visita, participação e recomendação.

Vamos juntos, acelerando a caminho do “centenário virtual”!

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