Nomes de carros e sua pronúncia nem sempre fácil

Editorial

Do DKW ao Mobi, passando por Omega e vários franceses, muitos automóveis desafiaram a leitura dos brasileiros

 

Volkswagen “ap” ou “upe”? Fiat “móbi” ou “môbi”? Renault “dúster oroche” ou “dâster oroque”? Os aficionados por automóveis talvez nunca tenham tido essas dúvidas, mas elas acontecem com o público geral, sobretudo entre os que não dominam outro idioma. E questões de pronúncia como as citadas envolvem o mundo dos carros há mais tempo do que se imagina.

A palavra globalização ainda não havia entrado em uso comum em 1950, quando chegou ao Brasil a primeira unidade do Volkswagen alemão. A pronúncia no idioma original, algo como “folcsváguen”, foi divulgada de forma consistente por aqui e assim se fala até hoje, mesmo que o som de “f” da inicial se tenha perdido para a maioria das pessoas. Outros exemplos são Honda (“ronda”, não “onda”), Peugeot (“pejô”), Renault (“renô”) e o Hyundai Azera (“azira”), que todos sabem pronunciar por causa do bom trabalho de publicidade.

 

Por não haver acentuação na palavra estrangeira, muitos leem Variant, Classic, Caravan, Maverick e Topic como se fossem em português

 

Ômega ou omega? Para ensinar a pronúncia, a GM chegou a usar acento em 1992
Ômega ou omega? Para ensinar a pronúncia, a GM chegou a usar acento em 1992

Ainda em alemão, o “w” também pode ser lido como “v”, o que leva a dizer ”beemevê” para BMW e “decavê” para a extinta DKW. As antigas gerações de brasileiros seguiam bastante essa forma, a ponto de ter surgido o apelido “dechavê” (deixa ver) para os primeiros modelos DKW nacionais, cujas portas dianteiras abertas para trás faziam a alegria dos rapazes quando uma moça de saia desembarcava de um deles… Mas o “w” de BMW está generalizado hoje.

Há casos em que, por não haver acentuação na palavra estrangeira, muitos a leem como em português: Volkswagen Variant (o certo é “váriant”, não “variante”), Chevrolet Classic (“cléssic”) e Caravan (“cáravan”), Ford Escort (“éscort”) e Maverick (“máveric”), Asia Topic (“tópic”, não “topique”), Subaru (às vezes lida como “subarú” no começo da marca no Brasil). Também seria mais fácil acertar Mobi como “móbi” (não “môbi”) se houvesse acentuação…

Peculiar foi a situação de dois modelos da Opel alemã lançados aqui pela Chevrolet, o Omega e o Calibra (cupê derivado do Vectra). A letra grega é ômega em português, mas em alemão a sílaba forte é mesmo a segunda. Quando o carro apareceu aqui, em 1992, estava consagrada a pronúncia “omega” para uma marca de relógios. A GM parece não ter gostado da associação e o anunciou com tônica na letra inicial, tendo até mesmo acentuado o nome (Ômega) no primeiro material fornecido à imprensa para ajudar na difusão correta. No caso do Calibra houve quem dissesse “cálibra”, até mesmo na diretoria da empresa, até que prevalecesse a tônica no “li” vigente na Europa.

 

 

Um acento que não vale — ou vários

Em alguns casos o acento de outro idioma é que parece confundir as pessoas. É fechada a pronúncia do Fiat Doblò (“doblô”). Para os Renaults de nomes franceses Mégane e Scénic cabe desprezar o acento agudo, que naquela língua não estabelece a sílaba tônica nem a pronúncia aberta do “e” como em português. Igualmente, deve-se falar da moto Ténéré da Yamaha como “tenerê”, apesar da profusão de acentos agudos do nome de uma região do deserto do Sahara. Como prova de que a divulgação evita esse tipo de dúvida está a suíça Nestlé, que todos sabem ler com “ê” no fim.

 

Todos pronunciam bem Renegade e Sportage, mas a lógica do “a” como “ei” não vale para a Peugeot Escapade por motivos óbvios

 

Era isso que o funcionário da Citroën aguardava, e não um suposto Jean Pierre
Era isso que o funcionário da Citroën aguardava, e não um suposto Jean Pierre

O francês tem outras curiosidades, como enfatizar a última sílaba da palavra, mesmo sem acentos: Renault “cliô”, “twingô” e “logân” (aqui ficou “lôgan”), Citroën “berlangô” (aqui Berlingo, como é grafado) e assim por diante. Fluence seria lido “fliance” se não o aportuguesassem entre nós. Há ainda a pronúncia do “x”: Citroën Xsara é simplesmente “csara”, não “xis-sara”, como se chegou a ouvir aqui sobre o antecessor do C4. E não me esqueço de quando um funcionário da mesma marca disse estar à espera de um “jampérre”, que para mim seria algum Jean Pierre, nunca um furgão Jumper…

A letra “a” é causa frequente de problemas. Ninguém tem dúvidas ao ler Blazer como “blêiser”, mas a Chevrolet insiste em falar “tráquer” para o utilitário esporte desde que sua geração anterior surgiu por aqui, em 2001. Seria um receio de que “tréquer” lembrasse treco? Outros nomes ingleses que todos pronunciam bem são Renegade e Sportage, mas a lógica do “a” como “ei” não vale para Escapade, a versão de aventuras das peruas Peugeot 206 e 207: a fábrica pregava o som de “a”, mesmo, por motivos óbvios.

E a lista vai longe. Por mais que a publicidade venha mencionando Hyundai de forma parecida com “rândei”, a maioria das pessoas ainda fala “riundai”. Um de seus modelos, o Tucson, é nome de cidade norte-americana e deveria ser lido como “tíussan”, omitindo o “c” que todos pronunciamos. A chinesa Chery fica como em inglês (não muito diferente de “chéri”), mas houve quem destacasse o “ri” como em francês. E o Volkswagen Jetta, embora seja “ieta” em idiomas como o italiano, ficou mesmo iniciado em “j” para os brasileiros. Por que dificultar, não é?

• Atualização: removido o Lamborghini Murciélago, nome espanhol cuja pronúncia correta é a mesma que se fosse em português (tônica no “é”).

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