Teste de idade: você já passou dos 40 se lembra…

Editorial

 

Quem viveu os anos 80 sonhou com XR3, viu esportivos com motor de Fusca, acionou o afogador e vai recordar outros carros e fatos da época

 

Quem nunca recebeu — pelas redes sociais ou pelo velho e bom e-mail — uma mensagem do tipo “lembranças da infância”, repleta de brinquedos, produtos, programas de TV e acontecimentos que marcaram décadas passadas? Não raro, essas coletâneas apontam a idade mínima provável de quem identificar a maioria daqueles itens em suas memórias de quando criança e adolescente.

Não é diferente com o mundo do automóvel. Marcas, modelos, categorias e fatos que envolveram o mercado e o uso dos carros deixaram lembranças em que viveu ao menos 20 ou 30 anos do século passado. No caso deste editor, da safra de 1975, os anos 80 e o começo dos 90 são períodos especiais que ficaram registrados na memória — e o mesmo deve acontecer com muitos dos leitores.

Se esse é seu caso, divirta-se com as lembranças a seguir — e acrescente as suas no campo de comentários. Se sua experiência e bagagem histórica são ainda mais extensas, esse espaço também é seu. E se sua “data de fabricação” é bem mais recente, estou certo de que será interessante conhecer um pouco mais sobre o mundo do automóvel antes de você nascer.

Então, você já passou dos 40 anos se lembra…

• …que quase todos os carros tinham duas portas. Não, carro de quatro portas não era táxi: até para esse fim, em sua maioria, se usavam modelos de apenas duas.

• …automóveis de cores muito variadas nas ruas, quase nenhum prata (mas muitos brancos, assim como hoje).

 

Muitas peruas carregadas com famílias e suas bagagens nas estradas: utilitários eram usados apenas como ambulância e carro de polícia

 

• …revestimentos internos em marrom, bege, até mesmo azul e vinho (embora fossem raros), sempre em tecido.

• …o congelamento de preços do Plano Cruzado, em 1986, que fez desaparecer os carros novos das concessionárias. Eles reapareciam nas lojas independentes com um polpudo ágio.

• …carros usados com cotação de mercado acima do preço (ilusório) do modelo novo, no mesmo período.

• …que quase todo mundo usava álcool no carro — não porque o preço da bomba estivesse compensador, mas porque era o combustível obrigatório de cerca de 90% dos carros vendidos em meados dos anos 80.

• …a crise de abastecimento entre 1989 e 1990, que abalou em definitivo a confiança da população nos produtores de álcool. Dali em diante, o combustível só voltaria a ser usado em massa em carros novos quando viessem os motores flexíveis, em 2003.

• …Fuscas novinhos saindo das concessionárias — e não eram os da série “Itamar” dos anos 90 — ou sendo usados como carros de polícia.

• …Brasílias novinhos saindo das concessionárias (pensando bem, nesse caso você passou bastante dos 40).

• …muitas peruas carregadas com famílias e suas bagagens nas estradas nos fins de semana e nas férias.

• …que utilitários de passageiros, como o Chevrolet Veraneio, eram usados apenas como ambulância e “camburão” de polícia.

• …que, por outro lado, picapes eram transformadas em peruas e cabines-duplas para uso familiar, não raro com traseiras que imitavam sedãs e interiores de um gosto bastante controverso.

• …pelo menos duas opções de carros novos com motor dianteiro e tração traseira, um deles no segmento de entrada (Chevrolet Chevette).

• …viajar no compartimento de bagagem de peruas — e até o do Fusca —, acenando ou fazendo caretas para quem viesse no carro de trás.

• …que colecionava carrinhos de ferro Matchbox.

• …o sonho de ganhar de presente um carro de controle remoto Pegasus (um BMW M1, embora você não soubesse na época) ou Colossus da Estrela — desde que não fosse da mesma cor do de seu vizinho, o que causaria interferência entre os controles por usarem a mesma radiofrequência.

• …os pôsteres de Lamborghini Countach e Ferrari Testarossa na parede do quarto.

• …o uso prévio de afogador para dar partida a frio em seu primeiro carro (e talvez no segundo, no terceiro…).

• …que era preciso mandar limpar e regular o carburador de tempos em tempos (caso a recordação se estenda ao platinado, acrescente pelo menos 10 anos à idade provável).

• …que instalou em seu carro um toca-fitas Bosch ou Motoradio do tipo auto-reverso, que tocava continuamente os dois lados do cassete, em vez de expulsá-lo ao fim de cada lado.

• …que acrescentou no mês seguinte um equalizador Tojo no console central, com chaves deslizantes para ajustar dos sons mais graves aos mais agudos.

 

 

• …o desaparecimento no mercado — e depois nas ruas — dos grandes carros de motor V8 e origem norte-americana da Dodge (Dart, Charger) e da Ford (Maverick, Galaxie e Landau), heranças de um tempo de gasolina barata.

• …uma perua nacional com tração nas quatro rodas (Ford Belina).

• …que havia numerosos construtores de carros esportivos (Puma, Miura, Adamo, Farus e mais uma longa lista) e de réplicas (como as de MG, Cobra, Mercedes “Pagoda”, Jaguar XK 120) com mecânicas simples como a do Fusca e a do Chevrolet Opala seis-cilindros.

• …o Salão do Automóvel de São Paulo em 1986, apenas com carros importados, solução encontrada pela organização depois que a associação de fabricantes (Anfavea) decidiu não participar.

• …a criação da Autolatina, no mesmo ano, associando Ford e Volkswagen no Brasil e na Argentina para reduzir custos.

• …o que foi o Passat Iraque (eu conto: um lote do modelo da VW destinado à exportação ao Oriente Médio que acabou sendo desovado para o mercado interno em 1986, com quatro portas e a opção de revestimento vinho).

 

O sonho de ter um Ford Escort XR3 Conversível, nosso primeiro modelo aberto de uma grande fábrica desde o fim do VW Karmann Ghia

 

• …Nelson Piquet e Ayrton Senna vencendo Grandes Prêmio de Fórmula 1 um após o outro, erguendo com orgulho a bandeira do Brasil.

• …o sonho de ter um Ford Escort XR3 Conversível da primeira geração (1985), nosso primeiro modelo aberto de uma grande fábrica desde o fim do VW Karmann Ghia nos anos 60.

• …um carro médio (Chevrolet Monza) liderando o mercado brasileiro por três anos, de 1984 a 1986.

• …a briga palmo a palmo entre o Monza e o VW Santana como carros médios mais desejados do País, com requintes como bancos aveludados, toca-fitas digitais e, de 1990 em diante, injeção eletrônica.

• …a boa impressão com o acabamento interno do Ford Del Rey, seu completo quadro de seis instrumentos e o relógio digital junto ao teto.

• …a raridade de ver na rua um Alfa Romeo 2300 novinho, o mais caro carro nacional por vários anos, que saiu de linha em 1986.

• …o surgimento do motor Elko, projeto alemão que rodava com óleo de cozinha usado ou qualquer outro combustível com grande eficiência.

• …as infinitas reestilizações e maquiagens aplicadas a modelos projetados nos anos 60 e 70, como Chevette e Opala, Fiat 147, Corcel/Del Rey e Passat, para mantê-los atraentes em um mercado fechado às importações e com apenas quatro marcas.

• …infindáveis “séries especiais” e “carros do mês”, em geral sem mais que alguns adesivos e “supercalotas personalizadas”, para animar as vendas e/ou desovar acessórios que ninguém queria (expediente ainda bem vivo entre nós, sobretudo em tempos de crise).

• …o lançamento do Gurgel BR-800, primeiro carro 100% brasileiro, pela fábrica mais conhecida por seus jipes, precedido por uma campanha para arrecadar fundos com interessados na compra do carrinho.

• …que o Chevrolet Kadett estreou em abril de 1989 como primeiro novo carro brasileiro em três anos, desde a Fiat Elba (a perua do Uno): em todo esse período recebemos apenas reformas visuais.

• …Kadett GS, Escort XR3 e VW Gol GTI — três sonhos de consumo da adolescência — em comparativos de revistas para saber qual conseguia acelerar de 0 a 100 km/h em menos de 10 segundos.

• …ficar reparando no Ford Verona e no VW Apollo, nas ruas, à procura da meia dúzia de detalhes diferentes entre os primeiros “carros clonados” da indústria nacional.

• …a surpresa com o lançamento do Fiat Uno Mille, em agosto de 1990: poderia dar certo um carro com motor de apenas 1.000 cm³?

• …a euforia da liberação das importações de carros, no mesmo ano, apesar do altíssimo Imposto de Importação de 85%.

• …o espanto com a tecnologia dos BMWs, Mercedes, Alfas e até carros mundanos de países desenvolvidos, como o Honda Accord, se comparados aos produtos nacionais de então.

• …o quanto as rodas de 15 polegadas com pneus de série 50 — importados, claro — deixavam os carros com aspecto esportivo por sua proporção ao volume da carroceria.

• …a entrada em massa de toca-fitas e — suprema inovação! — toca-CDs Pioneer, que condenaram às gavetas os Boschs e Motoradios.

• …que mandou aplicar película escura nos vidros de seu carro, mas ainda era proibido e logo um policial o fez retirar em plena rua para não apreender o carro (mas foi reinstalada no dia seguinte).

• …a troca das placas de licença amarelas, com duas letras, pelas de cor cinza com três letras, iniciada em 1991.

• …o vazio deixado pelo fim de produção do Opala, em abril de 1992.

• …a sensação causada por seu sucessor Omega ao ser apresentado em julho seguinte, em particular na versão CD de 3,0 litros, mesmo se tratando de um carro alemão produzido desde 1986.

• …a Kombi chegando às ruas em grande quantidade, praticamente sem concorrência direta — bom, não é preciso ter mais de uns cinco anos para se lembrar disso…

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