Com algumas dicas, é mais fácil achar o bom mecânico

Editorial

 

Encontrar o “médico da família” para o carro requer cuidados,
mas compensa pela confiança no serviço e pelos menores custos

 

Como encontrar uma boa oficina mecânica: eis um grande desafio para o motorista, sobretudo o proprietário de um carro já com alguns anos de uso, que já teve expirado o prazo de garantia — ou mesmo aquele que resolve abrir mão dessa cobertura para se livrar das onerosas revisões em concessionária. Não existe uma receita exata para achar o “médico da família” do automóvel, mas sim elementos que, em conjunto, podem indicar que se esteja no caminho certo.

Mecânica é cada dia mais um assunto complexo, tanto pelos avanços tecnológicos da indústria quanto pela diversidade de marcas e modelos no mercado de hoje, incomparável à de 25 ou 30 anos atrás. Por isso, antes de mais nada, desista de encontrar um “especialista em tudo”: o melhor é saber procurar bons profissionais em diferentes áreas e chegar a um mecânico de confiança para as tarefas mais gerais — e que poderá orientar sobre oficinas para serviços especializados.

A primeira dica não poderia ser outra: busque referências. Converse com amigos, familiares, com aquele taxista conhecido (motoristas de praça, como se dizia antigamente, costumam escolher bem quem cuida de sua ferramenta de trabalho, tanto pela qualidade quanto pelo custo). Além da sugestão em si, o profissional que sabe ter sido indicado por um bom cliente terá especial empenho em atender a quem veio pela recomendação.

 

Feito o serviço, dedique algum tempo à retirada
do carro: rodando, verifique se o defeito
foi sanado ou se o comportamento melhorou

 

E quando não há referências? Bem, agora é por sua conta. Ao chegar à oficina, observe o local. Esqueça o ideal de uma assepsia de sala cirúrgica. Mais importante, além de um padrão razoável de limpeza, é que a oficina seja organizada: ferramentas em um painel em vez de jogadas aos cantos, sala de espera limpa e com relativo conforto, nada de peças velhas pelo chão. Usar capas para não sujar o banco do motorista e o volante é um cuidado desejável.

Ao ser recebido, analise os procedimentos. O ideal é o recepcionista (que pode ser o próprio mecânico em estabelecimentos menores) questionar com detalhes o que o levou até lá: qual o serviço desejado, se determinado ruído ou falha ocorre em condições específicas. Nesse último caso, é bom sinal quando ele leva o cliente para uma volta prévia no carro a fim de entender melhor os sintomas apontados. Evite fazer pedidos genéricos como “quero uma revisão” ou “dê uma geral na suspensão”, que levam facilmente o orçamento às alturas.

Outras boas práticas do recepcionista são verificar as condições do veículo (nível de combustível, quilometragem, eventuais riscos e danos), anotando-os em documento que fica com o cliente, e consultar sua preferência para compra de peças — se originais em concessionária ou as do mercado paralelo, por exemplo. Um orçamento detalhado é importante, mas cabe lembrar que alguns serviços podem envolver maior complexidade ou a troca de mais peças do que se previa. Nessa condição, o correto é a oficina contatar o cliente antes de acrescentar algo ao orçamento.

Uma vez feito o serviço, dedique algum tempo à retirada do carro, evitando a tentação de fazê-lo em 15 minutos do horário de almoço ou após um cansativo expediente e com a oficina por fechar. Rodando, verifique se o defeito foi sanado ou se o comportamento do automóvel melhorou como esperado: se algo não saiu como previsto, informe-lhes sem demora, mesmo que seja preciso marcar o retorno em outra data.

Oferecer a devolução das peças substituídas é um bom procedimento da oficina, que demonstra transparência: além de (supostamente) comprovar a troca, permite que você confira com outro especialista se havia real necessidade do serviço. No entanto, exigir essa devolução não garante a confiabilidade do serviço em uma oficina mal intencionada, que não terá dificuldade em fornecer uma peça igual ou parecida àquela que, na verdade, permanece em seu carro…

 

 

“Empurrão” de serviços

Essa questão me leva a um ponto bastante importante: substituições desnecessárias. É uma prática especialmente comum em centros automotivos, onde se fazem serviços mais rápidos com o cliente aguardando. Muitas vezes, itens como pneus e serviços como alinhamento e balanceamento são oferecidos a preços convidativos para atrair a presa — digo, o consumidor —, que então acaba levando o “empurrão” de serviços.

A manobra é tão frequente que já existem padrões para ela, o que facilita reconhecê-la. Caso típico é condenar molas, amortecedores, buchas ou pivôs durante um alinhamento. O cliente então pede para ver e o predador — digo, prestador de serviços — força o componente, como ao pressionar uma bucha com alavanca, de modo a mostrar uma folga que seria excessiva. Em geral, se o consumidor não demonstra conhecer o assunto, recebe o “conselho” de que o problema, urgente, representa risco à segurança. Outras ameaças, como a de que a garantia dos pneus será invalidada se o item não for trocado, concorrem para ganhar o serviço desnecessário.

 

Se seu bom senso sugerir que pode se
tratar de golpe, recuse a troca: sempre será
possível ouvir uma segunda opinião

 

Como nem todo mundo conhece mecânica, e mesmo os que conhecem podem não ter segurança para avaliar a necessidade ou não de troca de uma peça, a solução é ter cautela. Valha-se de referências, como já abordamos. Procure manter um controle da manutenção feita ao carro para saber se, de fato, aquele componente não é novo demais para precisar de substituição. E desconfie: se seu bom senso sugerir que pode se tratar de golpe, recuse a troca. Sempre será possível ouvir uma segunda opinião e fazer o serviço se for mesmo preciso.

Semanas atrás, um amigo comentou que a esposa, ao levar o Classic 2010 a centro automotivo para troca de amortecedores, foi orientada a — e, por inexperiência, aceitou — substituir também as molas de um carro com 60 mil km rodados. Molas são itens de longa vida, que não raro superam 200 mil km funcionando tão bem quanto novas. Quando eu soube que um cunhado levaria seu Astra 2009 com quilometragem semelhante para trocar pneus, orientei-o de modo genérico sobre serviços “empurrados” e mencionei o caso do Classic.

Não é que, em outra loja, lhe foi sugerida a mesma troca de molas? Imagino o que estão gastando de palha de aço por aí para deixar molas velhas com jeito de novas…

Mesmo que a sugestão de serviço seja honesta, fazê-lo de imediato pode implicar despesa adicional. Aconteceu comigo em uma loja de pneus, que apontou as pastilhas de freio traseiras já perto do limite do uso. Perguntei marca e preço: com um fabricante menos renomado ficariam em R$ 220 (não havia as originais), mantendo os discos, que estavam bons. Preferi pesquisar mais e encontrei as pastilhas da mesma marca em loja de autopeças, por R$ 50, e outras mais conhecidas por R$ 100. Escolhi a segunda e meu mecânico fez a troca por R$ 40. Ou seja, eu teria gasto 144% a mais na primeira loja (R$ 220 contra R$ 90) usando a marca mais barata.

Uma última recomendação: quando encontrar uma oficina que valha a pena, procure desenvolver uma relação habitual. Mesmo que haja motivo para usar outro estabelecimento — proximidade de casa ou do trabalho, serviço de levar e trazer, conexão de internet na sala de espera —, analise se compensa abrir mão da confiança no profissional que o atendeu bem até agora. Acima de tudo, tome cuidado com promoções que possam fazer o barato sair caro.

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