Carro usado: o “pulo para o zero” e o custo de trocar

Editorial

 

Ao contrário do que muitos pensam, quanto mais tempo se fica
com um automóvel, mais fácil se torna a mudança dele para um novo

 

Encontrei há alguns dias meu amigo Jefferson, com quem não falava havia alguns meses. Casado, dois filhos, ele mencionou a intenção de trocar em breve seu Peugeot 207, comprado novo em 2013 em um financiamento ainda por terminar. “Não vejo a hora de concluir o carnê”, comentou, “para dá-lo em troca de um carro zero”. A família tem outro carro, um Uno, para uso da esposa.

Perguntei se o 207 estava incomodando pela frequência ou o custo de manutenção ou se tinha alguma característica que o desagradasse, o que Jefferson descartou: “Não, nada disso. O carro é bom e está com menos de 30 mil quilômetros. Mas quero trocá-lo antes que desvalorize demais. Se esperar, logo não vou mais conseguir ‘dar o pulo’ para um zero”.

Meu amigo, como muita gente boa, está equivocado quanto a algumas regras do mercado de automóveis — e foi para esclarecê-las que escolhi este tema para o Editorial. Algumas inverdades, de tanto serem repetidas por vendedores e compradores, são aceitas como fatos por grande parte das pessoas e acabam por levá-las a gastar seu suado dinheiro no que talvez não devessem.

O primeiro conceito a ser combatido é o de que o “pulo para o zero” fica mais difícil à medida que o carro envelhece e perde valor. Essa constatação vem da simples comparação do preço do automóvel desejado ao valor daquele que se tem — uma distância que aumenta com o tempo, seja o cenário de muita, pouca ou nenhuma inflação. O valor do carro usado pode até subir em termos nominais, como se via no período de inflação descontrolada anterior ao Plano Real de 1994, mas sempre se afasta do preço do novo.

 

No caso do Gol, sobram R$ 9,3 mil em seu
bolso como compensação por ficar
dois anos com um automóvel mais usado

 

O que nem todos percebem é que cada troca de carro envolve um grande dispêndio financeiro e que, quanto mais vezes ela for feita, mais se gastará. Para ilustrar, vamos tomar o exemplo de um carro de grande volume de vendas e que não recebeu alterações substanciais nos últimos anos, o Volkswagen Gol de motor 1,6-litro. De acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o preço médio praticado para esse carro zero-quilômetro é de R$ 37,8 mil.

Como nos falta uma bola de cristal para prever quanto valerá o Gol no futuro, usaremos o histórico de desvalorização do modelo para o cálculo, o que funciona bem nesse caso de produto pouco modificado nos últimos anos. Se você o tivesse comprado há dois anos pelos R$ 37,8 mil (valor que usaremos para não precisar considerar a inflação nos cálculos), ele valeria hoje R$ 31,5 mil, a cotação da Fipe para o Gol 2013 de mesma versão. São 17% de desvalorização.

Contudo, obter esse dinheiro pelo carro usado é bastante improvável: basta notar quantos adesivos de “vende-se pelo valor de tabela” você lê nos automóveis a seu redor no trânsito, sem que apareça um interessado em cada esquina. Na prática, a forma mais comum de transformar um automóvel em dinheiro é entregá-lo na troca pelo novo em uma loja (veja Editorial com dicas sobre a hora de vender). Como a empresa existe para obter lucro e tem custos envolvidos nesse processo, como o do capital imobilizado por semanas ou até meses, você receberá algo como 20% abaixo da cotação de mercado — em nosso exemplo, R$ 25,2 mil.

Pronto: o “pulo para o zero” passou a R$ 12,6 mil depois de apenas dois anos. Isso significa que trocar de carro duas vezes em quatro anos, usando uma loja para cada negociação, acarretaria a despesa de R$ 25,2 mil para terminar como se começou — com um Gol novinho, até com plásticos nos bancos. E se você ficasse com o carro por quatro anos?

O mesmo VW, se comprado novo em 2011, valeria hoje pela Fipe R$ 27,4 mil, depreciação de 27,5% em relação ao zero-quilômetro. Entregando-o por 20% a menos (R$ 21,9 mil), você precisa de R$ 15,9 mil para cobrir a diferença entre o usado e o novo — bem menos que os R$ 25,2 mil das duas trocas no mesmo período. Para ficar claro: sobram R$ 9,3 mil em seu bolso como compensação por ter rodado dois anos com um automóvel mais usado.

 

 

Quem fica quatro anos fica seis

A essa altura, você se pergunta se valeria a pena continuar com o velho Gol na garagem por mais dois anos. O modelo 2009 (já da atual geração) vale hoje R$ 23,3 mil, de acordo com a Fipe, ou R$ 18,6 mil com o desconto de 20%. Isso significa que passar a um zero depois de seis anos demandaria R$ 19,2 mil, mais da metade do valor do carro novo. Parece muito? Sim, mas se o comprador trocasse o Gol a cada dois anos, gastando R$ 12,6 mil em cada mudança, acumularia na terceira troca nada menos que R$ 37,8 mil — por uma coincidência, o mesmo valor do novo carro, ou seja, o dinheiro gasto na primeira compra já teria ido todo para o ralo. A economia por esperar mais, nesse caso, passa a R$ 18,6 mil.

Como o amigo Jefferson acredita, o “pulo” para trocar por um novo carro realmente aumenta com o tempo — mas, ao contrário de sua suposição, a troca ficará bem mais leve para a conta bancária se o usado for mantido por mais tempo.

A origem dessa economia está, de um lado, na forma desigual pela qual a depreciação afeta o valor do carro: é mais crítica no primeiro ano e vai-se tornando mais suave com o passar do tempo, pois o veículo mais barato se torna acessível e interessante a maior número de pessoas. No exemplo, os dois primeiros anos fizeram o valor do Gol cair R$ 6,3 mil, enquanto cada período seguinte acarretou perda de R$ 4,1 mil (as perdas foram iguais entre esses dois biênios, mas variam a cada caso). De outro lado, ao eliminar uma ou duas trocas de carro no período, você deixou de dar lucro à loja pelo serviço de passar seu automóvel adiante.

 

Você precisa colocar mais que um BMW X1
em cima para dar o “pulo para o zero”,
que mesmo assim doerá bem menos no bolso

 

Pode-se argumentar que o custo de manutenção cresce com o passar dos anos, o que é verdadeiro em muitos casos. A garantia dos carros nacionais fica em geral entre um e três anos, após os quais maiores despesas costumam aparecer. Substituições como as de pneus, amortecedores e embreagem tornam-se necessárias após certa rodagem, assim como reparos de componentes que chegaram ao fim da vida útil. Contudo, no exemplo do Gol o proprietário obteve R$ 9,3 mil de economia por não fazer a troca com dois anos e chegou a R$ 18,6 mil por ficar com ele até seis anos. Quanta manutenção se paga com esses valores?

Um carro importado de luxo certamente altera esses cálculos: a depreciação é bem mais rápida, por ser um automóvel mais oneroso de manter e que, em geral, atrai menos interesse de compradores logo que deixa de ser novo. Como seria se, em vez do Gol, você tivesse adquirido um BMW X1 SDrive 18i? Esse é um bom exemplo por estar na mesma geração e sem grandes alterações desde 2011.

Novo, esse X1 custa R$ 127,1 mil segundo a Fipe. Com dois anos, o modelo 2013 vale R$ 101 mil, uma perda de 20,5%. Entregue-o na loja por 20% a menos (R$ 80,8 mil) e você terá um “pulo” de R$ 46,3 mil para a troca — mais que todo o valor de um Gol novo, mas coerente com o prestígio de andar de BMW e o prazer de dirigi-lo, certo? Se fizer isso duas vezes, depois de quatro anos você estará de X1 cheirando a novo na garagem ao custo de R$ 92,6 mil, mais o valor inicial do carro (R$ 127,1 mil).

Como no caso do Gol, o proprietário pode optar por ficar os quatro anos com o mesmo carro. O X1 2011 de mesma versão, visto com desdém por aquele colega do jogo de tênis, vale R$ 78,5 mil (depreciação de 38,2% desde o preço do novo) e será entregue à loja por apenas R$ 62,8 mil após o habitual desconto de 20%. Você precisa colocar mais que um X1 em cima para dar o “pulo para o zero”, que cresceu para R$ 64,3 mil. Mesmo assim, doerá bem menos no bolso que as duas trocas da situação anterior, com economia de R$ 28,3 mil. Dá para substituir um bocado de pneus e amortecedores, não?

É claro que cada caso é um caso: as pessoas valorizam de formas diferentes fatores como o prazer de comprar um produto (ainda mais um carregado de elemento emocional como um automóvel), a maior confiabilidade de um carro novo, a satisfação de usufruir de novidades do mercado. A troca dá também a oportunidade de atender a novas necessidades de espaço — talvez naquele Gol já não caiba o carrinho do bebê ou o filho adolescente —, de experimentar confortos que o anterior não oferecia ou, quem sabe, de aderir à tendência pela cor branca pois o prata “já era”.

O valor de tudo isso cabe ao comprador — eu, você, o Jefferson — colocar na balança ao decidir. Mas, em um momento complicado para a economia como o que vive o Brasil, vale a pena considerar cálculos como os apresentados acima antes de ceder à vontade de entregar um bom carro usado na troca por um zero-quilômetro.

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