O reino, os cavalos e o capim com 27% de farelo

Editorial

 

A pressão dos produtores levou a rainha a aumentar o teor de grãos na
alimentação equina, mas os súditos fizeram grande protesto

 

Nossa história não se passa nos dias atuais, em que o automóvel está integrado ao cotidiano das pessoas. Tudo aconteceu há alguns séculos em um reino distante, onde as pessoas baseavam-se na tração animal para mover suas carruagens, em geral compradas com suor mediante longos financiamentos — a taxa de juros por lá era, afinal, a mais alta do mundo.

Leitores habituais do Best Cars logo reconhecerão esse reino, o mesmo que visitamos em 2011, para conhecer a reação popular a uma alta injustificável nos tributos a carruagens importadas, e em 2013, quando vimos como o povo reagiu à proposta de adiar a implantação de itens de segurança a seus veículos. No entanto, há uma nova razão para voltarmos até lá.

O reino vivia tempos difíceis, muito difíceis. Após anos de incompetência real para administrar o território de dimensões continentais, a população enfrentava problemas os mais diversos, como inflação descontrolada, corrupção em níveis impensáveis, recessão econômica, tributos elevadíssimos, falta de água e de combustível para os lampiões, sucateamento das empresas. A população dividia-se ao meio entre adeptos da rainha, que seguia uma longa dinastia, e os que gostariam de vê-la bem longe do trono.

 

Para cavalos alimentados com capim, seria
arriscado adotar maior percentual de
farelo: poderiam ter sua vida útil abreviada

 

A má administração do reino abrangia a questão do transporte pessoal, que por lá dependia em grande parte das carruagens particulares. Havia carroças coletivas, é verdade, mas em um sistema tão desprovido de conforto, segurança e eficiência que praticamente ninguém o escolheria se pudesse ter a própria carruagem, por mais que isso lhe custasse.

E como custava! Naquele reino, as carroças alcançavam facilmente o dobro de seu valor em reinos vizinhos, ainda que menos equipadas em itens de segurança e conforto ou dotadas de cavalos velhos e de alto consumo alimentício. A Ancovea (Associação Nacional dos Construtores de Veículos de Tração Animal) justificava os preços pelos tributos escorchantes, embora muitos suspeitassem que a margem de lucro dos construtores locais fosse das mais altas do mundo.

O reino tinha outra particularidade: a alimentação dos cavalos. Mundo afora, o usual era que eles comessem apenas capim — ainda em abundância, apesar de antigos temores de que um dia viesse a acabar — ou capim com até 10% de farelo. O baixo teor tinha sua razão: sendo os cavalos alimentados com capim havia gerações, seria arriscado adotar um maior percentual de farelo. Eles poderiam engasgar ou mesmo ter sua vida útil abreviada.

Contudo, a pressão dos produtores de grãos junto à realeza era intensa. Décadas atrás eles haviam conseguido a criação do Profarelo, o programa real de incentivo à produção de farelo. Foram gerados cavalos capazes de ingerir o novo alimento, com as vantagens anunciadas de reduzir a importação de capim e as emissões poluentes — por assim dizer — dos animais. Houve dificuldades, é verdade: cavalos que comiam farelo relutavam em acordar no tempo frio, o que levava os donos a lhes dar um pouco de capim antes de começar o dia. Mais tarde haviam surgido os cavalos Flex Food, ou flexíveis em comida, que podiam ingerir farelo e capim, puros ou em qualquer proporção.

 

 

O risco aos velhos cavalos

O Flex Food dava liberdade aos condutores de comprar a comida que mais lhes compensasse — o que consistia em vantagem ou problema, conforme o ponto de vista. Como os cavalos andavam 30% menos com um quilo de farelo que com igual quantidade de capim, todos sabiam que sairia mais barato usar o vegetal sempre que os grãos custassem mais de 70% de seu valor. Mas os produtores de farelo insistiam em oferecê-lo no limite de preço ou mesmo acima, o que fez despencar as vendas dos grãos. Decidiram então convencer sua majestade a, mais uma vez, socorrê-los.

Enquanto isso, milhões de condutores do reino mantinham carroças antigas ou mesmo optavam por modernas carruagens importadas, com cavalos acostumados a comer capim com 22% de farelo — e que já vinham sendo forçados a ruminar o F25, um capim com 25% de grãos, caso único no mundo. Agora, a pressão dos produtores junto à rainha era para elevar ainda mais essa proporção para 27%.

A notícia alarmou a população (parte dela informada por bons veículos de comunicação, como o Best Carriages) e os técnicos dos construtores de carroças, que viam riscos à saúde dos cavalos com o aumento do teor de farelo. Estudos sobre a nova mistura foram encomendados, mas os produtores de grãos impacientaram-se: não queriam esperar mais para rever suas contas bem recheadas como nos velhos tempos do Profarelo.

 

Esperava-se da Ancovea que pleiteasse a
conclusão dos estudos, mas a entidade
concordou com a alteração — uma vergonha

 

Certo dia, em reunião no castelo com seus representantes e do poder real, ficou definido que o F27 — capim com 27% de farelo — seria adotado, doesse a quem doesse.

Esperava-se da Ancovea que pleiteasse a conclusão dos estudos antes de acatar a medida, mas isso não aconteceu. A entidade concordou com o capim ainda mais distante das especificações adotadas, anos atrás, pelos construtores — vergonha para uma associação que deveria, acima de tudo, defender os cavalos e os interesses de seus donos. Pior: a Ancovea sugeriu que os condutores de carroças velhas ou importadas passassem a usar o capim premium, de alto preço, que manteria o teor de 25% de farelo.

A medida surtiu grande repercussão negativa entre a população. Ora, o alimento fornecido pela estatal Capimbrás — combalida pela má administração e os escândalos de corrupção sem precedentes — já estava muito caro se considerado que seu valor no mercado internacional caíra pela metade. E mais: dias antes, a rainha anunciara aumento de tributos sobre o alimento equino para ajudar a sanear as contas do poder real.

Como impor novo aumento de custo à população? Como esperar que o dono de um velho pangaré pudesse alimentá-lo com um capim oneroso, idealizado para os puros-sangues das carruagens importadas de luxo? E se os cavalos adoecessem pela alimentação fora dos padrões? Quem pagaria essa conta?

Era mesmo um grande desrespeito aos súditos, meros pagadores de impostos sem qualquer direito.

Mas a população não deixou por menos. Organizado pelas redes sociais — pelas quais os súditos trocavam bilhetes entre si, de papel, é claro —, um amplo boicote ao farelo fez com que todos os cavalos, Flex Food ou não, passassem a comer apenas capim. Protestos levaram multidões à frente do castelo real. Os produtores de grãos, com perda brutal de faturamento, e a rainha logo marcaram nova reunião na qual se decidiu pelo retorno aos 22% de farelo originais.

E assim se fez. A rainha anunciou o engavetamento do programa F27: não mais mexeria na proporção entre os alimentos, para o bem da saúde dos equinos. Os produtores perceberam que, sem causar prejuízos aos súditos, teriam de volta a fatia de mercado que mereciam. A população, satisfeita, voltou a comprar para seus animais aquilo a que cada um estivesse habituado. E concluiu que a união entre os súditos é o melhor remédio — ontem, hoje e sempre — para ter seus direitos respeitados pelo poder real.

Editorial anterior