Eleição, termômetro do mercado e de sua evolução

Editorial

 

Pesquisa revela quais carros, utilitários e modelos fora de linha
são mais prestigiados por um público que conhece automóvel a fundo

 

Depois de apurar 23.821 votos válidos, enfim conhecemos os carros preferidos dos leitores do Best Cars. Com 30 categorias — cinco das quais dedicadas a modelos fora de produção e uma ao “Carro dos Meus Sonhos” —, a 17ª. Eleição dos Melhores Carros publica hoje (23) seus resultados e permite constatar quais as marcas e modelos que têm obtido maior êxito com um público selecionado, como o que acompanha este site, em um mercado tão competitivo como o brasileiro.

Se é verdade que a maioria gosta de novidades, cinco dos vencedores foram lançados no último período (entre outubro de 2013 e o mesmo mês de 2014) ou passaram por importante reformulação: Ford Ka e Ka+, Mercedes-Benz Classe C, Porsche Macan e Toyota Corolla. Não se trata apenas da atração exercida por automóveis ainda frescos no mercado, mas também de serem mantidos na memória — e nos desejos dos eleitores — pela exposição na imprensa e na publicidade, que tende a escassear depois de um ano ou dois.

 

Dos que conquistaram o título pela
primeira vez, três já são veteranos em outras
gerações: Ka hatch, Corolla e Classe C

 

Em diversas categorias, porém, houve lançamentos que não conseguiram desbancar os vencedores da edição anterior ou até mesmo obtiveram colocações modestas. Foram os casos de BMW Série 4, Honda Fit e City, Lamborghini Huracán, Mercedes CLA, Classe S e GLA, Nissan Sentra e Altima, Renault Logan e Sandero, Range Rover Sport e Volkswagen Up, além de diversos carros que saíram de produção no período e assim estrearam nas categorias Fora de Linha. Dos que conquistaram o título pela primeira vez, três já são veteranos no mercado em outras gerações — o Ka hatch, o Corolla e o Classe C. Isso mostra que nunca seus fabricantes haviam acertado tanto nos aspectos que os leitores julgam prioritários em sua escolha.

O único modelo a obter maioria absoluta de votos — acima de 50% — foi o Range Rover Evoque, que abocanhou 52,8% de uma categoria com 10 candidatos, ficando 40,7 pontos percentuais à frente do 2º. colocado Audi Q3, também a maior diferença verificada na pesquisa. Seguiram-se Fiat Strada com 48,2% (bem mais fácil por serem apenas três competidoras), Ford Fusion com 47,1%, Porsche Macan com 45,5% e VW Golf com 44,2%.

Na outra ponta, o Chevrolet Omega (fora de linha, década de 1990) foi quem se elegeu com menor percentual de votos, 16,2%, seguido pelo Porsche 911 (sonhos) com 16,6%, o Classe C com 17,5%, o Chevrolet Monza (fora de linha, anos 80) com 17,7% e o Corolla com 21,1%. A vitória mais apertada foi a do mesmo Toyota sobre o Ford Focus, por 1,3 ponto percentual. Mas poucos votos mesmo tiveram Chery Face, Effa M100, Geely GC2 e EC7 e JAC J5 — todos chineses —, que não passaram de 0,1%, cada qual em sua categoria (como regra, arredondamos para esse valor mesmo se houver um único voto).

Além do Porsche 911, que ganhou todos os 17 prêmios do carro dos sonhos, há outros vencedores invictos: o Cayenne da mesma marca, com nove títulos na classe superior dos utilitários esporte; o Chevrolet Opala, que venceu nove vezes entre os carros fora de linha dos anos 50 e 60 e outras oito entre todas as décadas; e o Omega do mesmo fabricante, imbatível por nove anos (sete entre os carros da década de 1990, dois nas décadas de 1990 e 2000 juntas). A Lamborghini garantiu a vitória nas seis disputas da classe de topo dos carros esporte, mas divididas igualmente entre o Aventador e o Gallardo, e a Chevrolet nos nove anos de modelos fora de linha nos anos 80, somando Opala e Monza.

 

 

Sucesso nos votos, nem tanto nas ruas

Diante dos resultados, o leitor pode se perguntar: por que os carros eleitos em cada categoria nem sempre são os mais vendidos em seus segmentos de mercado?

Há várias possíveis razões, e acredito que cada uma represente uma parcela da resposta. Uma, que os critérios de nossos eleitores — pessoas como você, que dedica seu tempo à informação sobre automóveis em fontes confiáveis — não parecem os mesmos do público em geral, mais influenciado pela tradição das marcas, pelo “ouvir dizer” de seu círculo de amizades ou até mesmo pela simpatia ao estilo do modelo.

Outra, que os automóveis eleitos podem estar em faixa superior de preços na categoria, sendo típico o exemplo do Evoque: na média das versões, ele é tão caro diante dos oponentes que poderia estar em uma classe à parte, mas acabaria como único candidato. Apesar de sugerirmos ao eleitor que considere sempre a relação custo-benefício, parece improvável que isso leve uma minivan mais simples (como C3 Picasso ou Spin) a vencer a Peugeot 3008 ou que um Mini Coupe/Roadster seja preferido aos prestigiados Porsches Boxster e Cayman. Mesmo assim, o Ford Fusion tem-se mantido forte na liderança, apesar de custar menos que a maioria dos adversários.

 

A divergência entre êxito comercial e na
Eleição não se limita aos atuais concorrentes:
ocorre também em carros fora de linha

 

Ainda, os fatores que podem colocar um carro no topo da escolha do eleitor talvez não sejam os mesmos que o levariam a concretizar a compra — para a qual elementos como o tamanho e a qualidade da rede de concessionárias, o valor e a facilidade de revenda contam pontos. Por mais racional que possa ser a seleção ao votar, a tendência é que os aspectos financeiros ganhem relevância no momento de levar o carro para casa.

A divergência entre sucesso comercial e êxito na Eleição não se limita aos atuais concorrentes do mercado: ocorre também entre os carros fora de linha. O Ford Maverick é considerado fracasso de público a seu tempo (1973 a 1979), quando vendia uma fração dos Opalas que chegavam às ruas, mas nos últimos anos tem encontrado surpreendente aceitação entre os que gostam de carros antigos nacionais, a ponto de superar o adversário da GM pela terceira vez na pesquisa entre os modelos daquela década.

A análise da Eleição também permite observar como o mercado brasileiro se modificou nesses 17 anos do Best Cars. Os utilitários esporte já eram numerosos no começo da pesquisa, mas 25 modelos cabiam em duas categorias no evento de 2003. Hoje são 56 opções divididas em seis categorias conforme as faixas de tamanho e de preço — ainda seria possível separá-los pela concepção, entre os tradicionais e os mais assemelhados a automóveis altos, o que deixaria o processo de votação ainda mais extenso.

Outra categoria que cresceu muito foi a dos sedãs pequenos: em 2001 eram só seis contra 14 hatches do mesmo porte; hoje temos 17 sedãs para 35 hatches. Assim, o segmento que podia ser todo agrupado naquela terceira edição corresponde a cinco categorias na 17ª. pesquisa. Em contrapartida, as opções de minivans encolheram — a ponto de eliminarmos a categoria de modelos maiores — e o mesmo se viu com as peruas, que não chegaram a participar do evento. Também temos hoje menos picapes pequenas (três contra quatro) e grandes (só uma, ante duas) que em 2001.

Portanto, por sua tradição — nenhum site desse porte faz tal tipo de pesquisa há tanto tempo — por e seu volume de participantes, a Eleição dos Melhores Carros representa um termômetro não apenas da atual situação de cada marca e modelo e de sua imagem diante de um público selecionado, mas também das transformações pelas quais o mercado brasileiro passou desde 1998. Transformações que nunca cessam e que são sempre fonte de bons debates entre os que se interessam pelo tema. Em outubro, contamos com sua participação mais uma vez.

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