Mitos: os cuidados com o carro que não se justificam

 

Heranças do passado ou frutos de má informação, alguns
procedimentos ainda são feitos sem necessidade pelos motoristas

 

Comer manga e beber leite faz mal? Tomar água morna com limão em jejum faz emagrecer? Assistir à televisão de perto prejudica os olhos?

Hoje sabemos que a resposta para essas perguntas é negativa, mas muita gente acreditou ou ainda acredita nesses e em outros mitos. Com os automóveis não é diferente: por desconhecimento ou má orientação, inúmeros motoristas são levados a fazer ou deixar de fazer alguma coisa ao dirigir ou na manutenção de seus carros, sem que haja razão efetiva para agirem assim. É o caso das 10 lendas que comento abaixo.

Manter a embreagem pressionada causa seu desgaste. Isso só valia muito tempo atrás, quando se usavam embreagens com platô de seis ou nove molas helicoidais. Nos platôs atuais, com mola diafragmática (“chapéu chinês”), a carga da mola é mínima quando o pedal está todo apertado, o que evita seu “cansaço”. Quanto ao desgaste do disco de embreagem, esqueça: ele só ocorre enquanto há deslizamento, ou seja, o pedal não está nem solto nem apertado até o fim.

 

Aquecer o motor antes de sair era preciso pelo
funcionamento irregular dos carros a álcool a frio
e as grandes folgas dos componentes do motor

 

Colocar o câmbio automático em ponto-morto (N) nas paradas de trânsito traz problemas. Não traz: a caixa está dimensionada para essa mudança frequente e para funcionar em ponto-morto sempre que desejado — há até câmbios que passam sozinhos, internamente, a neutro e voltam a engatar a marcha quando se liberam os freios, o que traz economia de combustível.

É preciso aquecer o motor antes de sair. Outra herança que não mais se justifica. No passado havia essa necessidade pelo funcionamento irregular dos carros a álcool a frio (sobretudo no inverno) e pelas maiores folgas dos componentes móveis do motor, que precisavam da temperatura normal para ser compensadas. Há décadas, ligar e sair em ritmo normal é o procedimento correto, o que também reduz emissões poluentes e consumo de combustível. Espere alguns minutos apenas para usar o motor a pleno — é por isso que em alguns esportivos a faixa vermelha do conta-giros começa antes durante a fase de aquecimento.

Carro flexível não deve rodar sempre com o mesmo combustível. Mito: nada impede que se use só gasolina ou álcool da concessionaria ao ferro-velho, pois motores e sistemas de alimentação estão preparados para isso. Da mesma forma, pode-se trocar de combustível sempre que desejado sem riscos. A central eletrônica adapta-se logo à nova condição.

 

 

Rodar com o tanque na reserva faz aspirar sujeira. Não procede, pois a aspiração do combustível é feita no fundo do reservatório. Assim, se fosse o caso, a sujeira seria levada ao filtro com qualquer quantidade de líquido. Também não há risco de superaquecer a bomba elétrica de combustível, que trabalha submersa, pois ela é refrigerada pela passagem do líquido durante seu funcionamento.

Ao trocar os amortecedores, substitua também as molas. Não existe essa relação. Os amortecedores desgastam-se pela rodagem, durante a qual o fluido em seu interior é forçado a passar por válvulas para controlar os movimentos da suspensão, e podem ser danificados em impactos. Cabe a substituição quando sua capacidade de “frear” as oscilações estiver comprometida. Já as molas sustentam o peso do carro e devem ser trocadas quando sua altura estiver abaixo do normal, o que tende a acontecer após muitos anos, sem vínculo ao desgaste dos amortecedores.

 

A aspiração do combustível é feita no
fundo do tanque e, se fosse o caso, a sujeira
seria levada ao filtro com qualquer nível

 

Pancadas secas na suspensão indicam amortecedores ruins. Em geral não são eles os culpados, mas algum elemento de borracha, como as buchas dos braços de controle (“bandejas”) ou as que ficam no topo dos amortecedores. Estes podem estar ainda perfeitos em sua função — mesmo que já não estivessem, nada adiantaria trocá-los e manter as buchas danificadas.

Não use as pastilhas de freio além da metade de sua espessura original. É claro que protelar a troca representa o risco de o material de atrito acabar, o que danifica o disco. Tomando esse cuidado, porém, as pastilhas podem ser usadas até cerca de 2 mm de espessura sem afetar a capacidade de frenagem. Uma pastilha usada freia tão bem quanto uma nova.

Na troca das pastilhas, mude também os discos. Pura conversa para vender discos sem necessidade. O que se deve fazer é analisar os discos à procura de riscos profundos ou empenamentos, que podem justificar sua retífica (“passe”). Trocar, só se a retífica for inviável por deixar a espessura do disco abaixo do limite. Discos com riscos superficiais podem ser mantidos com segurança.

Pneus mais largos são sempre mais seguros. Em termos: há um ganho em aderência pela maior área de contato com o solo, mas a largura adicional tende a ser prejudicial em piso molhado, por aumentar a tendência a aquaplanar. Portanto, recomenda-se moderação para ganhar em efetiva segurança e não apenas no visual esportivo.

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