As perguntas sem resposta no mundo do automóvel

“Papai, por que chamam fábrica de montadora, compram carro
flexível para usar só gasolina e ligam faróis de neblina sem nevoeiro?”

 

Quem tem filhos ao redor dos cinco anos ou convive com crianças dessa faixa etária conhece bem a “fase dos porquês”, aquele período no qual eles querem entender o mundo a seu redor e fazem infinitas perguntas. Algumas dessas desafiam nosso conhecimento a tal ponto que precisamos pedir algum tempo e recorrer ao “pai dos burros” — em sua versão moderna, o Google — em busca de uma resposta que as deixe satisfeitas… até a próxima pergunta, claro.

Em nosso mundo do automóvel também existem questões que desafiam o bom-senso e tornam improvável encontrar uma resposta convincente — da legislação ao comportamento dos motoristas e dos compradores de carros, passando pela forma como se chamam as coisas.

Começando pelo consumidor: por que os brasileiros insistem tanto em carros flexíveis em combustível, se no fim das contas a grande maioria só usa gasolina na maior parte do País? Foi-se o tempo em que abastecer com álcool trazia efetiva vantagem financeira (argumento pelo qual os usineiros despertaram o interesse do País, no começo da década passada), mas muita gente continua a achar que motor apenas a gasolina não serve, que vai ficar “com o mico na mão” na hora da revenda.

 

No Brasil os automóveis usam pneus de perfil mais
baixo que nos países desenvolvidos, mas
aqui temos muito mais buracos para danificá-los

 

Há mais comportamentos do comprador brasileiro que não consigo entender. Qual a razão para que, neste país tropical, tantos carros sejam pretos por dentro — muitos também por fora —, se é sabido que esse tom absorve mais calor dos raios solares e deixa o carro mais quente? Basta ver as fotos de modelos vendidos em outros mercados para notar a variedade de tons internos e a oferta de cores claras, que ainda trazem sensações de espaço e arejamento. Não se podem culpar só os fabricantes, pois eles alegam que o interior preto tem a preferência da grande maioria. O pior é que muitos carros de carroceria e acabamento negros nem mesmo têm ar-condicionado para amenizar o desconforto.

Ainda sobre cores, por que será que tantos compradores que tinham aversão a carro branco até alguns anos atrás, alegando que era “cor de táxi”, hoje adoram esse tom que os táxis continuam a usar? Seria questão de moda ou um “efeito manada”, que leva muita gente a seguir a corrente sem questionar? Pergunto-me se é também por isso que tantos consumidores — até taxistas, que supostamente teriam uma visão racional do automóvel — desejam um carro com o estepe pendurado à traseira, que a meu ver só serve para atrapalhar o acesso ao compartimento de bagagem e para amassar o capô do carro de trás em manobras.

E por falar em pneus, tanto vendo os carros em viagens ao exterior quanto comparando especificações daqui e de fora, percebo que no Brasil os automóveis costumam usar rodas maiores e pneus de perfil mais baixo que os mesmos modelos em países desenvolvidos. Qual o sentido disso, se aqui temos muito mais buracos para danificá-los e irregularidades que o perfil dos pneus ajudaria a suavizar?

Mas os brasileiros não causam estranheza apenas quando compram carros: fazem-no também ao dirigi-los. Alguém me explica por que as pessoas gostam tanto de acender faróis e luz traseira de neblina quando não há qualquer sinal de nevoeiro? Até nas fotos de divulgação (que usamos em muitas matérias) é comum vermos tais faróis acesos debaixo de um sol intenso. Mais: por que alguns são tão amáveis em avisar sobre a porta mal fechada ou o pneu murcho do carro que vai ao lado, mas tão egoístas quando solicitados a dar passagem no trânsito? E por que tanta gente gosta de viajar presa à faixa da esquerda, não importa a que velocidade esteja, se a faixa à direita está livre ou se uma multidão atrás quer passar?

 

 

A legislação e o bom-senso

Itens determinados pela legislação também são difíceis de entender. Como explicar que só no Brasil e em mais uns poucos países (nenhum deles de vanguarda) seja obrigatório o extintor de incêndio nos veículos? Quem entende por que este é um dos poucos países no mundo, se não o único, a proibir o uso de diesel pelos automóveis? Será só nossa a incapacidade de administrar a oferta de combustíveis, a ponto de um mais eficiente — em rendimento e emissão de gás carbônico — ficar restrito a certos utilitários, ônibus e caminhões?

“Porquês” sem resposta, diga-se a nosso favor, também existem na legislação de outros países. A cada vez que dirijo um carro de origem japonesa, ao travar os controles elétricos de vidros das portas traseiras para evitar seu uso pelas crianças, tenho meu próprio controle sobre tais vidros bloqueado, assim como o passageiro a meu lado deixa de comandar seu vidro. Se a esposa quiser abrir a janela, preciso desbloquear os comandos e deixar os botões traseiros disponíveis aos pequenos… O que os legisladores nipônicos (só pode ser imposição legal, ou já teria sido abolida pelo bom-senso) teriam pensado para obrigar a algo tão absurdo?

Do lado de cá do Oceano Pacífico, ao norte, há outros desafios à razão. Embora o retrovisor com lente convexa seja muito superior em campo visual e reduza pontos cegos na faixa de trânsito ao lado — o que explica ser o único tipo usado no lado direito —, os Estados Unidos obrigam ao uso da lente plana com seu campo limitadíssimo no lado esquerdo. Nem mesmo com a anacrônica advertência de que “os objetos refletidos estão mais perto do que parecem” (obrigatória no espelho direito convexo) um fabricante pode vender lá um carro com retrovisor convexo do lado do motorista. Depois ficam inventando sensores para detectar veículos nos locais que o espelho não cobre…

 

Se o passageiro ao lado quiser abrir a janela,
precisam ser desbloqueados os comandos de vidros
traseiros, deixando-os disponíveis às crianças

 

E o que dizer dos faróis? Depois de afinal abolir a exigência do tipo selado (leia história), que por décadas deu trabalho a fabricantes estrangeiros e limitou a criatividade em estilo, os norte-americanos continuam a especificar o facho de luzes simétrico, ou seja, de igual distribuição para ambos os lados. O resto do mundo prefere o eficiente facho assimétrico, que ilumina melhor no lado direito da pista (o esquerdo no caso de circulação “à inglesa”) sem causar ofuscamento aos motoristas em sentido contrário. A exigência ainda se explicaria se fosse comum carros dos EUA viajarem para países com circulação pelo lado oposto, como fazem os britânicos ao rodar na Europa continental, mas não é o caso.

Um último tema entre as perguntas sem resposta é a forma como algumas coisas são denominadas. Já observou que, quanto mais vezes a palavra “novo” é usada na divulgação pelo fabricante, menos novo o carro realmente é? “Fabricante”, sim, que é como devem ser chamadas essas empresas com extenso processo produtivo, da estampagem de carrocerias inteiras à fundição de blocos de motores. Mas alguém explica por que várias delas se intitulam “montadoras”, como se apenas apertassem parafusos?

Deve ser outro daqueles maus usos de palavras e expressões que não se sabe como surgiram, mas se espalharam como pragas, assim como “cilindradas” como unidade de medida (alguém diz que mede 1,80 estaturas ou que entre São Paulo e o Rio existem 400 distâncias?) e “bloco” para designar todo o motor (existe bloco de 16 válvulas ou precisamos do cabeçote para tê-las?).

O que ninguém consegue me explicar é por que as rádios com informações de trânsito usam tanto a expressão “excesso de veículos”, embora não se atribua a falta de leitos nos hospitais ao “excesso de doentes”. Talvez as crianças de cinco anos tenham a resposta…

Editorial anterior