“Amigo, que carro você me recomenda comprar?”

É comum que nos peçam conselhos na escolha de um automóvel,
mas a chance de acertar é maior se algumas regras forem consideradas

 

Marcelo, o namorado de uma prima de minha esposa (ufa!), veio perguntar há alguns dias o que eu achava de uma Chevrolet S10 da geração antiga, por volta de 2010, para substituir seu Citroën C4 hatch. “É uma picape de bom mercado e manutenção fácil”, respondi, “mas por que você quer trocar seu C4 em um utilitário?”.

Expliquei que, pessoalmente, pensaria duas… não, 20 vezes antes de comprar uma picape: “Se for para usar como carro — sem levar carga ou ir para um sítio com frequência —, traz mais desvantagens que vantagens. Gasta mais combustível, tem manutenção cara, a suspensão é dura, se for cabine simples só cabem duas pessoas, não tem porta-malas… Se for a diesel, há ainda o problema do seguro caríssimo. Mas cada um tem seu gosto e o que o importa é você curtir o carro, certo?”.

Ele explicou que agora precisava de um veículo para uso comercial, transportar alguma carga — nada que exigisse motor a diesel ou tração 4×4 —, e que cogitava também uma picape leve como a Montana. “Nesse caso eu pensaria na Montana ou similar, como Saveiro e Strada. São mais econômicas, práticas e baratas, a suspensão costuma ser mais macia. Mas recomendaria a Montana antiga, não só por achar mais bonita, mas porque a GM piorou o produto quando lançou a atual, derivada do Agile”, argumentei.

 

Metade acaba comprando um carro que
não sugeri: a tendência da maioria parece ser
adquirir o modelo com que simpatiza

 

Uma semana depois, Marcelo veio me contar que estava comprando a S10…

Desde que comecei o Best Cars, há mais de 16 anos, parentes e amigos — mesmo aquela tia distante, alheia à internet e que só sabe que “o Fabrício trabalha com uma revista” — gostam de se aconselhar na escolha de um novo carro, baseados tanto na experiência prática que obtenho com as avaliações quanto na teórica, conseguida acompanhando de perto o mercado e a opinião de proprietários no Teste do Leitor.

Claro que as sugestões nem sempre prevalecem, como o caso de Marcelo exemplifica. Dos que me consultam, arrisco a dizer que metade acaba comprando um carro que não sugeri — ou mesmo cuja compra desaconselhei, por alguma característica ou pela inadequação ao uso pretendido. A tendência da maioria parece ser adquirir o modelo com que simpatiza ou da marca com que mais se identifica.

Fico imaginando se acontece o mesmo com o caro leitor, que certamente conhece mais de automóvel que muitos de seus familiares — o fato de ter chegado a este Editorial já diz muito sobre seu interesse pelo assunto. Quantos, entre os que se aconselharam com você, acabaram comprando o carro que lhes foi sugerido?

Meu amigo Paulo Keller, grande fotógrafo que às vezes colabora para o Best Cars (confira suas imagens do Audi S5 e do Mercedes-Benz SLS AMG), costuma se esquivar desse tipo de consulta. “Compre o carro que você tem vontade de ter”, ele responde de pronto. Paulo não chegou a essa conclusão à toa: na certa, percebeu que muita gente busca apenas o endosso da decisão já tomada em seu íntimo, mesmo que não declarada. Se esse aval do “especialista” não vem, pouco importa: acaba-se comprando o que se tem vontade de dirigir.

 

 

Segmento inadequado

Em alguns casos não há decisão tomada, mas sim uma grande indecisão. Já contei aqui, dois anos atrás, de uma prima que estudava entre carros tão diferentes entre si como Fiat Palio Adventure, Hyundai I30, Renault Duster e um Volkswagen Jetta usado da antiga geração. Ela não pretendia sair do asfalto, mas pensava em um utilitário esporte; não precisava de alto desempenho, mas incluía entre as opções um sedã de 170 cv — era como não saber se comprava bananas na feira ou matava a fome com um chocolate.

Depois de alguns conselhos sobre focar-se no uso pretendido, ela concentrou-se em hatches médios e, como o I30 estava mudando de geração, optou por um Citroën C4. Até a última vez em que conversamos, estava satisfeita.

Se há quem esteja indeciso entre diferentes categorias, também existe quem tenha optado — a meu ver — por um segmento inadequado. Jonas, amigo de longa data, é médico e foi proprietário de diversas picapes, algumas a diesel. Nunca usou-as para transportar carga, mas como carro pessoal, com rodagem predominante em rodovias. Quando veio me falar em trocar sua Amarok por outra picape, sugeri: “Por que não um automóvel? Você ganharia em conforto e segurança ativa, evitaria o seguro oneroso da picape a diesel e poderia comprar algo muito bom com o valor destinado a mais um utilitário”.

O argumento de Jonas foi que rodava muito, cerca de 45 mil quilômetros por ano, e que a economia do diesel lhe faria falta. Nada que resistisse a alguns cálculos! A 12 km/l de média, os 3.750 km mensais custavam quase R$ 700 em diesel. Um carro de mesmo rendimento (não é difícil, pois picapes sofrem com a aerodinâmica deficiente, o alto peso e os atritos diversos) gastaria algo como R$ 900 mensais de gasolina. O que R$ 200 por mês significam para um profissional bem-sucedido como ele?

 

Preciso de amplo porta-malas, grande vão livre,
alto desempenho? Ou posso comprar algo
que me atenda bem a maior parte do tempo?

 

De início ele torceu o nariz, mas semanas depois apareceu sorrindo de orelha a orelha com um Mercedes-Benz Classe C praticamente novo. Nem da tração traseira precisou abrir mão… Talvez tivesse poupado em seguro e manutenção se escolhesse um carro mais simples, como um sedã médio nacional, mas há prazeres na vida que valem alguma concessão.

É claro que cada um tem o direito de comprar o que o faz feliz. Marcelo deve estar contente com sua S10 — torço por isso —, como a prima talvez não se arrependesse com o Duster, a Adventure ou o Jetta usado, e Jonas, com uma nova picape. Todos são bons produtos, cada um a seu modo. No entanto, em meu modo racional de ver as coisas, acredito que as pessoas deveriam seguir o seguinte roteiro para definir o que comprar.

1) Para que vou usar o carro? Isso define de forma aproximada o tipo de carroceria, o tamanho, a potência necessária e até o tipo de combustível. Preciso de amplo porta-malas, grande vão livre do solo, tração 4×4 ou alto desempenho? Ou posso conviver com algumas limitações de vez em quando para comprar algo que me atenda bem a maior parte do tempo?

2) Do que não quero abrir mão? Conheço gente que comprou carro sem ar-condicionado ou câmbio automático e, depois de conhecer melhor tais confortos, trocou um automóvel ainda novo por outro assim equipado. Outros escolhem um motor de 1,0 litro, pelo menor preço, e depois passam raiva ao viajar. Pese esses fatores.

3) Quanto posso gastar no carro e para mantê-lo? Raros são os compradores que estudam antes da compra fatores como custo de seguro e de manutenção, o que pode levar ao rápido arrependimento e até à venda precoce, com grande prejuízo. Não é incomum que seguro e IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), somados, superem o gasto anual com combustível.

4) Quais as melhores opções do tipo de carro que pretendo? Nesse momento é recomendável ler avaliações e comparativos, como os do Best Cars, e opiniões de proprietários no Teste do Leitor.

5) Novo ou usado? Existe quem prefira o melhor carro que o dinheiro pode comprar, mesmo que usado, e há quem não abra mão do veículo novo, ainda que mais simples e menos potente. Vale a pena pensar a respeito e considerar alguns custos.

Se após seguir o roteiro ainda houver dúvidas, certamente haverá um “entendido” por perto para aconselhar. Mas a chance de fazer uma escolha acertada será bem maior se essas regras básicas tiverem sido consideradas.

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