Ira da estrada: quando motoristas perdem o controle

Com algumas dicas simples você pode evitar a irritação
de outros condutores — e manter a própria calma ao volante

 

Um conhecido — que pediu anonimato caso eu passasse o caso adiante — contou, numa conversa entre amigos, uma experiência preocupante. Ele estava na Rodovia SP-70 Carvalho Pinto, seguindo aqui  do Vale do Paraíba para São Paulo, quando um utilitário esporte (um Mitsubishi Pajero, ele acredita) surgiu rápido, piscando faróis com insistência para pedir passagem. A rodovia tinha duas faixas e havia pouco tráfego, mas o rapaz — sabe-se lá por quê — trafegava pela da esquerda, abaixo do limite de velocidade de 120 km/h, em seu Fiat Palio.

Ele conta que ficou ofendido pela conduta e não quis sair da faixa, mas que o motorista do utilitário acabou forçando passagem pela esquerda, junto ao canteiro central, quase que tocando seu carro de lado para que saísse da frente e fosse para a faixa da direita, que estava livre. Tudo poderia ter terminado em acidente grave, mas felizmente acabou por ali, sem vítimas. O Pajero, ou fosse o que fosse, conseguiu passar e foi embora, deixando meu conhecido na faixa da direita, indignado.

Não vou me estender aqui sobre o debate que se seguiu na roda de amigos, uns reclamando de “apressados” que se acham donos das estradas e não esperam passagem, outros dos motoristas que “compram” a faixa da esquerda e ali permanecem sem haver veículos mais lentos na da direita. Nem é meu objetivo, aqui, definir quem tem razão em seu argumento. A conversa valeu, isso sim, como partida para uma coluna sobre a ira da estrada, conhecida em inglês como road rage — assunto de que tratamos aqui anos atrás, mas que merece uma nova abordagem.

Pode-se definir a ira da estrada como um descontrole emocional ao volante, que pode desencadear tanto atitudes como a do motorista do utilitário esporte da história — usando o carro quase como arma — quanto agressões de outras formas, em alguns casos com violência física, uso de arma de fogo e… um fim trágico. A causa desse descontrole pode ser variada, como um carro mais lento à frente, como no fato que relatei, ou uma “fechada” não intencional no trânsito.

 

Nem todo motorista assume o volante em pleno equilíbrio emocional: nunca se sabe quanto falta para acabar seu pavio e fazer disparar a pólvora

 

Mais importante do que conhecer a ira da estrada, porém, é saber como evitar ser uma vítima desses motoristas enraivecidos — e como não se tornar um deles.

A máxima de Confúcio — “Não faça aos outros aquilo que não quer que lhe façam” — é um bom começo, mas não basta. O problema é que uma atitude que seja aceitável para alguns será motivo de irritação para outros. Cabe ainda considerar que nem todo motorista assume o volante em pleno equilíbrio emocional: nunca se sabe o que ele tem passado, a que pressões ou angústias tem sido submetido e quanto falta para acabar seu pavio e fazer disparar a pólvora.

Assim, vale seguir o que se resume em 10 recomendações:

1) Sinalize suas intenções. Use as luzes de direção antes das conversões e mudanças de faixa, sempre conferindo pelos retrovisores se não vai “fechar” alguém. Isso vale também em rodovia, como ao começar uma ultrapassagem.

2) Use os sistemas de iluminação e sinalização com bom senso. Faróis altos, só em estradas ou rodovias sem tráfego adiante e no sentido oposto — é ruim levar farol pela frente, mas também pelos retrovisores. Faróis de neblina não substituem os baixos ao rodar à noite; se forem regulados para cima para se tentar melhor iluminação, passam a ofuscar outros motoristas. Não rode no escuro só com luzes de posição (“lanternas”), pois seu veículo se torna quase invisível. A luz traseira de neblina, com sua forte intensidade, só deve ser usada sob nevoeiro ou chuva muito forte: passada a condição crítica, desligue de imediato para não incomodar.

 

 

3) O Código de Trânsito Brasileiro é claro: a faixa (ou as faixas) da esquerda destina-se a ultrapassagens e ao deslocamento dos veículos de maior velocidade. Mas ainda há quem “compre a esquerda” — como fez meu conhecido —, mantendo-se ali por muito tempo enquanto deveria estar na direita, ou mesmo sirva de fiscal do trânsito para tentar impedir que outros excedam o limite de velocidade. Essas atitudes são comuns causadoras de irritação. Ceda a passagem sempre que puder e, se notar insistência do motorista de trás enquanto você ainda não puder sair, sinalize essa intenção com a luz de direção direita.

4) Na posição oposta — ao se deparar com quem não sai da esquerda —, seja cortês. O ideal é pedir passagem com uma aproximação gradual e a luz de direção esquerda; usar os faróis baixos todo o tempo em rodovias costuma ajudar. Pisque os faróis altos só se realmente necessário, e apenas durante o dia. Não “cole” ao veículo da frente: seus faróis ficam menos visíveis pelos retrovisores dele; isso causa desconforto ao motorista, sobretudo aos menos habilidosos; um condutor impaciente tende a não atender a seu pedido; e ainda há o risco de colisão se o carro adiante frear forte por qualquer motivo.

5) Na cidade ou em rodovias de menor velocidade, onde não puder seguir por uma faixa mais lenta, cuide de manter a fluidez. Rode no ritmo do trânsito e evite atitudes que possam transformar seu carro em obstáculo móvel, como usar o telefone celular, desviar muita atenção para o navegador ou o sistema de áudio, ou mesmo procurar endereço nas ruas (GPS existe para isso e custa pouco hoje). Se precisar fazer algo demorado ou que consuma mais atenção, pare em local apropriado.

6) O oposto também é verdadeiro: evite rodar muito acima do ritmo. À parte a questão legal do excesso de velocidade, pode causar irritação andar bem mais rápido que a corrente de tráfego ou “costurar” entre as faixas.

 

Mantenha a fluidez: rode no ritmo do trânsito e evite atitudes que possam transformar seu carro em obstáculo móvel para outros motoristas

 

7) Não participe de ações que bloqueiem o trânsito ou o prejudiquem, como carreatas e manifestações. Nenhum protesto — ou, pior, propaganda — é motivo bastante para atrapalhar o direito de ir e vir dos demais. Candidatos políticos deveriam se dar conta disso.

8) Gentileza traz gentileza. Procure dar passagem e facilitar a vida dos outros, mesmo que precise frear porque um “apressado” interrompeu a ultrapassagem de vários carros entrando à sua frente. Você nunca saberá por que ele tem pressa, se não há uma razão justa para que precise se adiantar (um dia pode acontecer com você). Esqueça tanto quanto possível que a buzina existe. Em junções de vias ou certos cruzamentos, siga o método do zíper: um carro da esquerda se alterna com um da direita e assim por diante. Não bloqueie os cruzamentos e em nenhuma hipótese use o acostamento para superar o trânsito lento: além da irritação coletiva que vai causar, pode prejudicar a passagem de veículos de socorro e comete uma infração gravíssima.

9) Manter a calma é essencial para lidar com situações estressantes de trânsito. Previna-se: procure dormir as horas necessárias, saia com mais antecedência, estude previamente o caminho, evite se puder os horários de pico, sintonize uma rádio com informações de tráfego — ou coloque o áudio para tocar músicas que lhe agradem. Em viagens, não estique demais o trajeto: faça paradas no máximo a cada três horas e dirija só enquanto a atenção e o humor estiverem em ordem.

10) Por último, mas não menos importante: desarme-se também no sentido emocional. Se fechou outro motorista ou tomou qualquer atitude que o prejudicou sem querer, desculpe-se com um aceno (evite usar apenas a buzina: embora dois toques rápidos sejam uma convenção de agradecimento, uma pessoa nervosa pode interpretar como provocação). Se foi o outro quem o atrapalhou, releve e, caso perceba agressividade, evite o contato visual e procure se afastar. O trânsito não é uma competição, e deixar alguém passar e ir embora — mesmo que tenha sido grosseiro — não significa perder, mas ganhar. Siga seu caminho e preserve o que você tem de mais valioso: sua vida.

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