Comparativos: os automóveis frente a frente

Confrontos entre modelos similares são um importante
serviço ao leitor, mas dão trabalho antes, durante e depois

 

A rotina de avaliar automóveis é um prazer — e um privilégio, muitos acrescentariam —, embora um trabalhoso prazer, com todo o ritual de analisar e fotografar o carro, preencher uma longa ficha de avaliação e, mais tarde, colocar tudo isso à disposição do leitor tanto em texto quanto na forma de tabelas, como fichas técnicas e relações de equipamentos e opcionais. Mas há uma variação dessa rotina que me agrada em especial: comparativos.

A meu ver, comparar as opções do mercado é um dos melhores serviços que se podem prestar para o comprador de carros. Se uma avaliação pode revelar com pormenores — e é assim que gostamos de fazê-las — o que um automóvel oferece e como ele se comporta em diferentes condições de uso, um comparativo acrescenta a essa utilidade a referência exata, o modelo ao lado, o competidor, seja um ou sejam vários. Se pudermos então acertar nos modelos nos quais um grande número de leitores tem interesse, melhor ainda.

Comecei a avaliar carros no Best Cars em setembro de 1998 (um Ford Mondeo cedido pelo grande Luiz Carlos Secco, referência maior em assessor de imprensa) e não levou mais que alguns meses para que surgisse o primeiro comparativo no site, envolvendo dois apimentados esportivos — Alfa Romeo 145 e Citroën Xsara VTS. Logo vieram pautas mais abrangentes com três modelos, como Chevrolet Astra vs. Fiat Marea vs. Renault Mégane e Peugeot 206 vs. Chevrolet Corsa vs. Fiat Palio, ainda em 1999. Os comparativos sedimentavam-se como uma das subseções mais importantes e prestigiadas do site.

Se cabem três, cabem quatro ou mesmo seis, como fizemos algumas vezes, mas o recordista foi o confronto de sete hatches médios em 2008 com Chevrolet Vectra, Citroën C4, Ford Focus, Fiat Stilo, Nissan Tiida, Peugeot 307 e VW Golf. Enquanto carros pequenos da base do mercado foram comparados diversas vezes (só o Chevrolet Celta esteve em seis dessas matérias), os grandes e luxuosos também tiveram seu espaço, sendo que um artigo de 2004 — Volvo XC70 vs. Audi Allroad — foi o de maior valor envolvido por veículo até hoje: juntas elas superavam R$ 500 mil, e lá se vão oito anos de inflação.

A complexa seleção

Comparativos dão trabalho, sem dúvida, e ele começa bem antes de estarmos com os carros em mãos (aliás, caso o leitor ainda não tenha percebido, nosso padrão é obter os modelos um por vez e não em simultâneo por uma questão logística). A tarefa inicia-se na seleção dos modelos e versões.

Em geral um dos automóveis é de recente lançamento — às vezes mais de um —, o que serve de ponto de partida, mas como escolher o adversário ou os adversários? É onde entram os “quatro Ps” que usamos há pelo menos 10 anos: proposta de uso, porte, potência e preço. Com maior ou menor tolerância em cada item de acordo com o caso, a orientação por esses quatro parâmetros permite selecionar modelos que tenham muito em comum, e que provavelmente estarão na lista de opções do mesmo consumidor bem-informado.

Aqui, um parêntese. Alguns entendem que deve haver ampla liberdade de oscilar entre categorias, pois seria assim que muitas pessoas escolheriam seu novo carro (leia editorial a respeito). É claro que cada um compra o que quiser, mas minha visão é que os parâmetros devem ser respeitados pelo especialista para serem compreendidos por quem é leigo no assunto. Assim, respeitar o enquadramento dos veículos em categorias e por proposta de uso é um dos pontos fundamentais para nós. Se em algum momento isso não é feito, explicamos ao leitor por quê.

 

Os “quatro Ps” — proposta de uso, porte, potência e preço — permitem selecionar modelos que tenham muito em comum, e que provavelmente estarão na lista de opções do mesmo consumidor bem-informado

 

Definidos certos parâmetros, um dos critérios de escolha é procurar entre os modelos mais vendidos da categoria, por servirem de referência para (ou estarem entre as opções de) grande número de leitores. Só que isso nem sempre se aplica: é preciso obter o carro em versão adequada com o fabricante, que às vezes só dispõe dele em acabamento, opção de motor ou de câmbio incompatível — ou mesmo tem uma lista de mídias a atender antes que chegue nossa vez. Além disso, algumas vezes inserimos no confronto alguns modelos de menor aceitação, mas que tragam novidades interessantes ou que sejam reputados por nós como opções a considerar.

A questão de versão é um ponto importante. Pela forma detalhada como analisamos os carros, evitamos a todo custo ter de escrever sobre uma opção (de acabamento, por exemplo) que não seja a do carro que dirigimos, pois isso levaria a imprecisão e risco de erros. Um caso desses foi de um Fiat Stilo comparado anos atrás a outros hatches pela maior revista do setor: foi usada uma versão Sporting, mas o texto considerava que fosse uma básica, Attractive, para proximidade de preço aos oponentes. Ora, havia diferenças técnicas — para não falar das visuais — o suficiente entre as versões para que tal substituição não devesse ser feita.

Contudo, tal dificuldade se estende aos opcionais, itens que em alguns casos afetam em 20% ou mesmo 30% o valor final do carro. É praxe entre os fabricantes que os veículos da frota de imprensa sejam de versões superiores e/ou que contenham grande número de opcionais. Qual o efeito disso? Um modelo que custe, digamos, R$ 40 mil pode participar de um comparativo com outro que, embora seja seu direto concorrente no mercado, chegue a R$ 50 mil por causa das opções acrescentadas.

Esse obstáculo, que não é apenas brasileiro (leio sobre ele com frequência em publicações estrangeiras, como as norte-americanas), tem levado a diferentes soluções. A mesma revista do caso do Stilo costuma desprezar os itens presentes no carro em teste, informando o preço dos competidores em condições similares de equipamentos. É uma válida estratégia a título de informação, mas não seria a melhor em nosso caso, pois teríamos de deixar de lado — no texto, nas fotos e na comparação dos carros em si — itens de conforto, conveniência e segurança que fazem diferença. Afinal, de que adianta os carros avançarem nesses aspectos e os tratarmos nas matérias como se tivessem só “ar, direção e ABS”?

Então, o que temos feito é comparar os carros na configuração em que eles vêm. Se for necessário para evitar um desequilíbrio de preço e conteúdo, deixamos de considerar apenas equipamentos que não afetem a forma como foram avaliados (como um teto solar) ou, no caso de elementos técnicos, usamos como referência outra avaliação.

Exemplo recente foi o do Fiat Grand Siena, avaliado com câmbio Dualogic, pois nos interessava experimentar a primeira aplicação de comandos de marcha no volante em um modelo da família Palio. Como seu oponente — o Nissan Versa — não oferece câmbio automático ou automatizado, consideramos, para efeitos de comparação de produtos e preços, que nosso Grand Siena tivesse caixa manual, analisada pouco antes em um novo Palio com o mesmo motor.

Como futebol

Apesar de todo o cuidado que cerca um comparativo em todas as suas etapas — desde fotografar os carros nos mesmos ângulos e, se possível, na mesma locação até obter informações com a engenharia dos fabricantes —, não há como agradar a todos. E já me acostumei a um de seus efeitos colaterais negativos, percebido assim que as matérias são publicadas: as críticas a supostos favorecimentos e injustiças.

Há quem compare marcas de automóveis a times de futebol, crenças religiosas e partidos políticos, pela forma como conquistam adeptos que não aceitam opiniões em contrário. Seja ou não uma analogia exagerada, é um fato que as pessoas têm preferências por fabricantes e modelos — possuindo-os ou não — e gostariam de vê-los vencedores em um comparativo. Mas algum sempre terá de perder… salvo no improvável evento de um empate múltiplo.

Nesses 14 anos de comparativos, recebi inúmeras contestações sobre seus resultados, mas uma mínima parte delas continha argumentos sólidos. O mais comum é a manifestação contrária pura e simples ao veredito final, não raro com acusações de favorecimento (“vocês devem estar sendo pagos pela empresa X”), e que não resiste a meu pedido de que o leitor apresente os pontos de discordância. É natural: quando se trata de maneira objetiva algo tão subjetivo quanto a preferência por um fabricante ou um automóvel, contra fatos não há argumentos.

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