Sons, assimetrias e outras esquisitices

Eu-um-Carro-e-a-Cidade

Muitas coisas podem ser apreciadas num carro, mas há aquelas que viram marca registrada de alguns modelos

 

Das várias características da antiga Chevrolet Caravan, uma me agradava especialmente: a saída de escapamento, que apontava para a lateral esquerda do carro em vez de descarregar os gases apontando para trás, como em quase todos os carros. Na certa a GM previu que, quando alguém rodasse com a tampa aberta, uma saída na traseira traria poluentes para o interior pela região de baixa pressão, mas a explicação não me importava. Adorava ver nas manhãs frias de inverno as Caravans a álcool despejando na lateral aquela quantidade incrível de vapor, fazendo uma grande nuvem esbranquiçada. Um charme, aquele escapamento torto, exclusivo da bela perua! Bobeiras de criança.

Também me divertia a peculiaridade dos sons dos escapamentos. Muitos carros mal emitiam ruídos pelo cano, mas outros tinham nesse som suas marcas registradas. O clássico motor Fiasa, quando equipou os Fiat 147, Uno e seus derivados, além do Palio nos primeiros anos, emitia um ruído muito característico, presente até os últimos dias de sua vida, até ser substituído pelo Fire. Quando o motorista acelerava a fundo, aquele sopro me fazia saber que carro estava por perto.

 

Ruído autêntico era o do motor Ford CHT: eu não distinguia qual carro estava em funcionamento, mas não tinha dúvida de que fosse o Corcel ou o Del Rey

 

O som do motor Fiasa, como no Fiat 147, era característico e ficou presente até os últimos dias
O som do motor Fiasa, como no Fiat 147, era característico e ficou presente até os últimos dias

O escapamento trazia um ruído típico também à primeira geração da linha Gol equipada com motor AP, fabricada até por volta de 1995. As acelerações faziam aquele característico som vibracional, que se tornaram uma marca inigualável desses carros. Provavelmente o projeto do sistema de exaustão trazia alguma variável que propiciava essa questão acústica. Fato é que carros com motores semelhantes, como Santana e Quantum, não faziam ruído igual.

Outro ruído do qual me lembro bem e era igualmente autêntico: o do finado motor Ford CHT, de origem Renault, em funcionamento. Um vizinho tinha dois: em um Corcel II LDO, ano 1984, e em um Del Rey GLX 1986. Não conseguia distinguir pela janela qual carro estava em funcionamento, mas não tinha dúvida de que fosse um dos dois. Era um som suave, acompanhado de um leve gemido, que lembra aquele emitido pela bomba de uma direção hidráulica quando necessita manutenção. Use o leitor essa referência meramente como… referência.

Da mesma Ford era o motor Endura que equipou, até o modelo 1999, os nacionais Ka, Fiesta e Courier. Parado em um semáforo, você identificava facilmente um deles ao lado pelo ruído em marcha-lenta, um tec-tec que parecia uma máquina de costura. O motorzinho de origem inglesa, um projeto décadas mais antigo que esses carros, era mesmo peculiar.

 

 

Não cabia no peito

Nenhum se iguala, porém, ao três-cilindros a dois tempos que motorizou toda a linha DKW-Vemag: sedãs Belcar e Fissore, perua Vemaguet, jipe Candango. Quando um deles passava, o som de popopopó do escapamento só não era mais característico que a fumacinha azul, produzida por um tipo de motor que queima óleo do primeiro ao último dia de vida. Não me esqueço da simpaticíssima Vemaguet branca de um vizinho de infância.

De todas as esquisitices, dismorfias e assimetrias, como a do escapamento da Caravan, nenhuma me fascinou tanto quanto a inesquecível bolha no capô do Gol GTI 16V lançado para 1996. Que incrível era pensar que botaram ali dentro um coração que não cabia no peito, a ponto de ser necessário providenciar um “defeito de fábrica” no capô! O GTI já me encantava desde a grafia vermelha do painel de 1989, até o exclusivo painel eletroluminescente da geração de 1995. Agora, aquela bolha fez meu coração bater mais forte.

 

A marcha-lenta dos Volkswagens arrefecidos a ar, com os dois carburadores bem regulados, parecia um relógio com máquina a quartzo

 

A bolha no capô do Gol GTI 16V: um “defeito de fábrica” para abrigar o potente coração
A bolha no capô do Gol GTI 16V: um “defeito de fábrica” para abrigar o potente coração

Falando em batidas de coração, pulso e sons, não poderia deixar de fazer uma menção honrosa à marcha-lenta dos Volkswagens arrefecidos a ar. Numa era onde não havia eletrônica alguma e os ajustes se resumiam a artesanato sobre palavras como giclê e platinado, meu amigo… aquilo é que era pulso regular. Um motor daqueles, com os dois carburadores bem regulados e com combustível decente, parecia um relógio com máquina a quartzo. O tipo de motor com cilindros horizontais contrapostos, sem o isolamento acústico promovido pelas galerias de água, possibilitava escutar perfeitamente a sequência 1-3-4-2 estampada sobre a tampa do distribuidor.

As duas últimas características que marcaram minha mente, observando carros, foram as tomadas de ar para a cabine no capô do Peugeot 206, caprichosamente deslocadas ao lado direito, e — como esquecer? — aquela porta traseira assimétrica do Fiat Doblò. Essa última, não consegui classificar como bonita ou feia, tamanha estranheza visual que causou da primeira vez que vi. O primeiro Doblò, aliás, puxa vida… Tamanha anormalidade visual só foi superada pela grade do Mille Fire 2004, que nada me tira da cabeça ter sido inspirada em tal furgão. Corrigida a tempo alguns meses depois… mas, isso é assunto para uma coluna exclusiva.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars