No mercado, o Chevrolet Onix é o VW Gol de outrora

Compacto da GM atinge números impressionantes de vendas, mas o que ocorreu com o VW pode servir de advertência

 

Impressionantes os números de venda do Chevrolet Onix. O compacto não abre espaço para concorrente algum se aproximar. Com mais de 22 mil unidades vendidas em novembro, por pouco não vendeu o triplo do segundo colocado, o Volkswagen Gol. Claro que esses números não abrem o mix de versões, no qual é de se supor que a versão Joy, mais barata, represente boa parte. É assim com todos os veículos que compõem ou compuseram esse pelotão de entrada, na briga por volume.

Há sólidas explicações para essa liderança inconteste do Onix e boa parte delas já foi falada aqui no Best Cars, que acaba de testar o compacto por 30 dias. É sabido que o carro não é o melhor, nem o mais completo. Pude dirigir um LTZ com transmissão automática e, sinceramente, detestei. Tanto que optei pela compra de um concorrente e, após este ter sido furtado, o substitui por mais uma alternativa do segmento.

 

Ele tem ampla rede e aura de confiabilidade, mas creio que o sucesso do Onix passa pelo intangível, como a imagem de carro jovial, bem explorada pela comunicação

 

Onix LTZ automático: pouco em satisfação ao dirigir em troca de R$ 60 mil

Em minha modesta avaliação, todo o problema ali se resumia a preço, muito alto para tão pouca percepção de valor. O carro tem equipamentos compatíveis com a categoria e o posicionamento, mas a dirigibilidade, a sensação de construção e o refinamento deixaram muito a desejar. Como era exatamente isso que eu buscava em troca dos meus R$ 60 mil, fui pra outras bandas e me senti mais bem-atendido. Com todo o respeito, R$ 50 mil pagariam bem. Por isso as versões com motor 1,0-litro e mais baratas são tão procuradas, porque de fato entregam algo mais coerente com seu preço.

Há a questão da ampla rede de concessionárias, há uma aura de confiabilidade. Certo. Mas creio que o sucesso do Onix está em outras questões que passam pelo intangível, como a imagem de carro jovial. Todo o posicionamento da comunicação reforça muito isso, e não só. Esse posicionamento está no que o carro entrega em termos de experiência, como a questão da conectividade muito acima da média, o que fez o compacto conseguir firmar-se para muitos como um objeto de desejo que agrega ao dono o atributo da jovialidade. Seu comprador não se importa com a mecânica datada, mas se a central de áudio My Link sincroniza bem com o telefone.

 

 

Desejo no consumidor

Para se ter noção de quanto a Chevrolet saiu à frente da concorrência nesse quesito, basta lembrar que a versão inicial do My Link, com ampla tela sensível ao toque, está no painel do Onix LTZ desde o lançamento, em 2012. O Hyundai HB20 passou a oferecer central semelhante um ano depois. O Renault Sandero ganhou em 2014; o Gol só em 2017, mesmo ano em que a Fiat adotou uma no Argo; e o Ford Ka foi receber a sua na linha 2019. Óbvio que isso, por si, não explica tamanho sucesso. Há muitos outros fatores, como a estratégia promocional.

Desejo no consumidor é coisa que o Gol também exerceu num passado, mas perdeu o bonde. Justo o Gol, que foi o sinônimo de carro de jovem para toda uma geração, numa época que o esporte era muito associado à juventude. As versões esportivas sempre lembradas — GT, GTS, GTI —, as séries especiais alusivas aos eventos esportivos, a comunicação sempre muito voltada aos meninos e meninas, reforçando a direção como esporte. E, como o Onix, sempre foi o lanterna quando o assunto era vanguarda técnica. Teve durante muito tempo motor longitudinal, volante fora de centro e estepe que ocupava grande espaço do porta-malas — imagine tudo isso num GTI de 1994. Mas a questão é que o Gol como marca perdeu o viço, gastou-se, como tudo na vida.

 

Desejar um Gol hoje é anacrônico: na molecada, a meta de consumo passa longe do envelhecido VW, outrora chamado de “namoradinho do Brasil”

 

O Gol foi sinônimo de carro de jovem para toda uma geração, que sonhava com esportivos como o GTI 16V

Percebi a diferença como encarei as versões Rock’n Rio de alguns anos atrás, notadamente para o público jovem. Caíram agradavelmente no Fox e desceram estranhas no Gol, tamanha diferença de imagem que os carros já guardavam entre si. O Fox tirou-lhe mesmo um tanto do brilho. Veio o Up, que num vaivém de posicionamento deixou o Gol perdido na tabela de preços. Até que se achou novamente um bom espaço pra ele, mas como compacto de entrada barato, não jovial. Falar hoje que alguém “deseja” comprar um Gol soa anacrônico. Na molecada, o desejo compacto de consumo passa longe do envelhecido Volkswagen, que foi outrora chamado de “namoradinho do Brasil”.

Isso é um aviso para o Onix, que ano que vem vai estrear nova plataforma num tempo bom para renovação — oito anos, prova que a GM entende o quanto foi bem-sucedida na construção da marca. E também vai debutar o Onix na estratégia de vender gerações diferentes com o mesmo nome, já que provavelmente manterá a versão atual em linha por alguns anos (o atual Joy é da mesma geração dos demais, apenas sem a reestilização). O Gol começou a perder o brilho no mercado justamente quando parou de vender a antiga geração, o que deixou claro que a velha fazia muito mais volume que a nova — mesmo caso do Fiat Palio depois que o Fire se foi. Sim, o Gol foi o Onix das vendas por 20 e tantos anos. Veremos quanto mais fôlego terá o Chevrolet.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars