Dissabores da convivência

O convívio com o carro por tempo suficiente é essencial para uma boa escolha, ao expor detalhes que incomodam

 

Na vida urbana que levamos, o automóvel é um companheiro daqueles. Vivemos dentro desses “cômodos que andam”, passamos muitas e muitas horas em sua companhia. Por isso é comum que desenvolvamos relações emocionais com nossos carros, para o bem e para o mal. Ainda mais intensas àqueles que são sensíveis ao tema, como eu e você, leitor.

Tem gente que não se importa com detalhes, mas eu me importo, e muito. Não conseguiria comprar um carro com base em um mero teste de concessionária. Os carros que comprei, e com os quais convivi muito tempo, vieram parar na minha garagem depois que os experimentei por período suficiente, seja por meio de aluguel, emprestado de um conhecido, parente ou cedido por alguma empresa em que trabalhei.

 

Nada irrita mais no convívio diário e repetitivo do que coisas em lugares errados, caso do botão do controle elétrico de vidros: tem que estar na porta, é óbvio

 

Os botões no console eram de matar: toda vez que tinha de abrir o vidro, a mão procurava na porta e não encontrava

A gente cria vínculos de longo prazo com carros. Daí, como em qualquer relacionamento, as coisas pequenas vão se acumulando, acumulando… São vários os modelos que me atraem visualmente ou pela proposta, mas que descarto toda vez que convivo um tempo maior. De algumas coisas eu simplesmente não abro mão, como uma direção leve o suficiente para manobras rápidas. Por isso não consigo suportar o Renault Sandero. Acho seu visual muito bem acertado e o espaço interno é incrível para um veículo de sua categoria. Cairia como uma luva para um casal com filho pequeno, bem o meu caso. Mas não dá. Toda vez é dirigir e desistir. Quando a Renault acordará para a necessidade de uma assistência elétrica, como todos usam hoje?

Outras coisas eu consigo negociar a favor de outras características positivas, mas ainda assim vão acumulando raiva com o tempo. A ergonomia é um exemplo. Nada irrita mais no convívio diário e repetitivo do que coisas em lugares errados. Botão do controle elétrico de vidros: tem que estar na porta, é óbvio. É claro, é intuitivo. Lembro-me que certa feita me encantei com um Renault Clio que convivi por uma semana. O motor de 1,0 litro era esperto e econômico. Gostava das linhas diferentes, autênticas, e o carro era bem construído, sensação passada ao trafegar pelas mais diversas situações. Mas aqueles botões no console central eram de matar. Toda vez que tinha de abrir o vidro, a mão esquerda procurava na porta e não encontrava. Subia-me o sangue.

 

 

Montado em um cavalo

Suspensão mal ajustada ou com proposta equivocada é outra coisa que mina o convívio, em especial numa cidade com pavimento péssimo como São Paulo. Descartei o Peugeot 208 Griffe em muito devido a isso. O ajuste privilegiava a esportividade, é claro, o que tornava o carro responsivo e divertido, ainda mais aliado ao pequeno volante de respostas ariscas. Só que o ajuste firme em demasia repassava boa parte dos solavancos para a cabine, tornando a vida de motorista e passageiros um suplício na buraqueira da cidade. Sinta-se montado em um cavalo todo santo dia, na ida e na volta do trabalho, e saberá do que falo.

Alguns não ligam, mas pobreza em material fonoabsorvente é algo insuportável pra mim. Cogitei, certa vez, um Chevrolet Onix com transmissão automática para substituir o segundo carro da família, só que o nível de ruído me subiu aos ouvidos. Bastou um toque na partida e passei a escutar todos os sons do motor, numa riqueza incrível de detalhes. Ouvem-se as correias e polias girando, o cabeçote trabalhando frenético, os zunidos das bombas e relês. Impressão é de que o motor está funcionando em uma bancada à sua frente. Pura falta de esmero e pobreza na manufatura — a se esperar de um Renault Kwid de R$ 35 mil, não de um Onix LTZ, topo de linha. Nesse caso, não haveria central de áudio chamativa que me convencesse de que aquilo ali valia R$ 60 mil.

 

Bastou um toque na partida e passei a escutar todos os sons do motor — correias e polias girando, cabeçote trabalhando frenético, zunidos das bombas e relês

 

Aquela lataria exposta na porta do Up em nada me tirou o prazer de viver na companhia de um

Muitos dizem se importar quando a lata aparece pelo lado de dentro do carro, como no antigo Ford Ka e no Volkswagen Up, também pela impressão de acabamento empobrecido. Ou se ressentem da falta de um tecido mínimo nos painéis de porta. Esses detalhes a mim não interferem no convívio. É até uma vantagem no caso daqueles que têm crianças, exímias detonadoras de estofamento. O Up, por exemplo, passa uma sensação incrível de “vestir como uma luva” no dia a dia, e aquela lataria exposta na porta em nada me tirou o prazer de viver na companhia de um por alguns dias. Ela só chamaria mais atenção se fosse eu a assinar o cheque de quase R$ 60 mil, valor pedido pela versão Pepper.

Os carros que mais me convenceram na lida diária e que, no fim das contas, me conquistaram foram aqueles em que tudo estava em seu lugar, me propiciando uma doce sensação de que o preço valeu. Quanto mais baixo o valor pago, menores são as expectativas? Não sei. Ainda assim, eu me disponho a pagar um pouco a mais por detalhes que fazem uma boa sincronia homem-carro. Uma transmissão manual agradável de manusear, um pedal de embreagem de carga correta, acelerador bem calibrado, botões no lugar certo, painel legível e de desenho agradável, bancos bem conformados, uma suspensão gente-boa, ruídos apenas na dose necessária e justa.

Sem dissabores, só uma agradável convivência.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars