Willys Interlagos: ícone brasileiro, GT italiano

De Carro por Aí

 

Esportivo nacional dos anos 60 inspira recriação na Europa;
brasileiro fez antes, mas aguarda parceiro para o projeto

 

Automobile Maggiora e Carrozzeria Viotti, italianas, fornecedoras da indústria automobilística, mostraram no Motor Show de Bolonha, Itália, veículo chamado Viotti Willys AW380 Berlinetta. Interpretação de carro brasileiro, o Willys Interlagos — versão melhorada do francês Alpine A108. Local adequado, próximo a Modena, onde estão míticos esportivos Ferrari e Maserati.

Willys AW 380 Berlinetta 01Numeral 380 não indica cilindrada ou potência, mas — curiosa e argentariamente — o preço: 380 mil euros, perto de R$ 1,2 milhão, e apenas 110 unidades serão construídas. Fabricantes querem homenagear o modelo nacional, A108, mas farão 110 unidades lembrando a versão francesa, sucessora da nacional.

Motor boxer, biturbo, 3,8 litros, seis cilindros — deve ser Porsche ou Subaru —, potência de 610 cv. Capaz de, por caixa com seis marchas, acelerar de 0 a 100 km/h em 2,7 segundos e atingir velocidade final em 340 km/h. Freios em compósito de cerâmica, carroceria em fibra de carbono, suspensão McPherson frontal, traseira por multibraço. Peso total, 1.350 kg.

Em números, um comparativo: no brasileiro Willys Interlagos, comprimento, 3,78 m; largura, 1,45 m; altura, 1,14 m; peso, 540 kg. No projeto italiano, respectivos 4,43 m, 1,94 m e 1,22 m, peso 1.350 kg. É outro bicho.

A justificativa do projeto é tipo capaz de inspirar o samba do crioulo doido histórico/mecânico. Cita, corretamente, as 822 unidades construídas pela criativa e ativa Willys-Overland entre 1962 e 1966 — e aí escorrega no restante, enfatizando a fama dos campeonatos mundiais de rali com os irmãos Fittipaldi, Bird Clemente e Luiz Pereira Bruno. Os Interlagos, assim como os pilotos brasileiros, nunca competiram em ralis externos. Ao contrário, eram carros de velocidade no Brasil. E o citado Bruno é Bueno.

Restam apenas 109 unidades. A primeira, exposta no Motor Show, foi vendida ao Gruppo Rumo, russo representante nos Balcãs.

Negócio difícil
A108 BerlinetaOs italianos viabilizaram a tentativa do designer brasileiro João Paulo Melo. Paulista, formado em design industrial pela Belas Artes de São Paulo, seu premiado trabalho de graduação foi a recriação do mesmo Willys Interlagos.

Batizado de Interlagos 2006, com desenhos coloridos e pequena maquete, Melo tem ido de Seca a Meca — aliás, tivesse negociado com algum oriental, possivelmente o projeto teria decolado. Ex-designer da Fiat, atualmente na Marcopolo de ônibus, ofereceu o projeto ao tricampeão Nelson Piquet, não interessado em diversificar negócios; buscou auxílio na Karmann-Ghia e em fábrica de plástico de engenharia, em lento andar.

Não arrefece. Agora retoma contatos com a Renault: o conjunto motopropulsor do Fluence, motor de 2,0 litros com turbo, câmbio de seis marchas, colocados sobre o eixo traseiro, tem tudo a ver com a interpretação original, pois utilizava o pequeno motor de 845 cm³ evoluído a partir da mesma unidade empregada nos Renault Dauphine e Gordini. A combinação baixo peso, aerodinâmica e motor forte tem tudo a ver com o projeto — e a renda nacional.

Para demonstrar a viabilidade da proposta propõe-se à construção de protótipo para aplicação esportiva, articulando o fornecimento mecânico pela Renault e o financiamento de empresas interessadas — valor ridículo ante a possibilidade, estimado em R$ 95 mil. Com o feedback gerado pelo veículo em si, pode-se imaginar a construção para categoria monomarca destinada a jovens talentos do automobilismo, o berço atualizado do já feito há meio século pelas Berlinette Willys Interlagos.

No Brasil o projeto se chama A108 Berlineta. O nome Interlagos, por oportunidade negocial, foi registrado pela Fiat.

O projeto nacional não é, como o italiano, cópia borrada do veículo original, anabolizando as curvas, estilizando as bases dos faróis auxiliares — não existentes no modelo A108, mas apenas no A110. É muito superior em design e proposta, apesar das limitações nacionais para a mecânica no país dos motores quatro-cilindros, e da pouca coragem para investimentos em projetos novos. Interessado em dar uma força? www.berlineta.com.br.

 

 

Fundação social, o rentável negócio social da VW

Negócio interessante da Volkswagen, sua Fundação, não ganha dinheiro — só gasta. E pouco conhecida por quem consome seus veículos. Festeja 35 anos e apresenta soma invejável: beneficiou, apenas na última década, 1.374.630 alunos e 18 mil professores em 13 estados brasileiros.

A Fundação coordena os investimentos sociais da marca, oferecendo projetos de Desenvolvimento Social para comunidades de baixa renda. Ultrapassou os municípios e estados onde tem operação industrial, e abriu amplitude nacional. Na prática aplica, de forma voluntária, recursos privados para finalidade pública.

Seu leque de projetos tem base interna, com a instigação aos 18 mil funcionários a se envolver em voluntariado, e na criação de projetos, gerando legião de cidadãos de bem. Neste ano os voluntários indicaram 569 projetos de instituições em 23 estados brasileiros. Não se busca apenas repassar recursos, mas implantar projetos dentro da linha educacional e de desenvolvimento social, buscar parceiros, ONGs, para tornar as ideias factíveis e autofinanciáveis, explica Kelly Smaniotto, executiva nº. 1 da Fundação.

Os projetos cumprem o objetivo estratégico de “fortalecer a sustentabilidade como princípio de gestão”, explica Eduardo Barros, superintendente da Fundação e diretor jurídico da Volkswagen. Amplo leque com 10 projetos, destes 7 educacionais. O ponto mais visível, ou audível, é o patrocínio ao Instituto Bacarelli, atendendo a mais de 1.400 crianças e jovens em programas socioculturais de formação musical artística e de excelência, instigando o desenvolvimento pessoal, criando uma vitrine para profissionalização em música. Um dos destaques é a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, surgida na enorme favela paulistana, tentando oferecer oportunidades ao público carente.

 

Roda a Roda

V – Análise do Dr. Joseph-Fidelis Sehn, ex-diretor de recursos humanos da VW Brasil e atual presidente da VW Argentina, em português fluente e correto: mercado brasileiro é um V. Cairá mais um pouco, chegará ao chão, e acelerará de volta. Em três anos, 2017, ultrapassará os resultados de 2013 — 3,6 milhões de veículos produzidos.

Telhado – A reformulação interna da fábrica VW de São Bernardo do Campo, SP, e a falta de investimentos para melhorar o Polo definiram o seu fim. Deambula pela beirada do telhado. Vida curta e inglória: foi o melhor dos Volkswagens construídos aqui até a chegada do Up.

Chery CelerEnfim – Janeiro a Chery iniciará distribuir o Celer (foto), de produção iniciada em outubro na fábrica de Jacareí, SP. Instalação industrial quer fazer os novos Tiggo e QQ em 2016. Previsão, curiosa, custará acima do modelo importado, submetido a cara logística e pagamento de impostos de importação.

Pré – Peugeot apresentou seu próximo modelo 2008 às revistas especializadas, parte da estratégia de lançamento. O 2008 é um utilitário esporte sobre o 208, de invejáveis sensações para conduzir. Marcou início de comercialização para junho.

Início – Volkswagen está nos acertos finais para o início da montagem do sedã Jetta, ponto superior de sua gama no Brasil. Pelo simplório processo industrial — as carrocerias virão montadas e pintadas —, não pode misturá-lo na mesma cadeia de produção com os outros produtos construídos integralmente aqui.

Herança – Assim, para não misturar intervenções industriais, será montado no antigo espaço onde se processava a Kombi. A Velha Senhora (1957-2013) tinha manufatura separada das linhas de produção por razão assemelhada: seu método de fabricação era tão antigo e com tantas intervenções manuais, não permitia sinergia com processo moderno. Na prática, se misturasse, atrapalhava.

Nova – Fiat inaugurará novas instalações na pernambucana Goiana. Apesar de ter começado como projeto com seu nome, com a incorporação da marca à FCA, o grande letreiro de identificação será Jeep.

Jeep Renegade 01Caminho – Escolha simples. O primeiro produto será o Renegade (foto), com o emblema Jeep, apesar de desenvolvido sobre plataforma original Fiat. Mas os formuladores comerciais da FCA entendem, a marca de maior crescimento mundial será a Jeep.

Esforço – Fábrica faz e lança veículos, mas quem vende é a rede de distribuição. Sem esta, não há escoamento. Assim, para evitar um balcão diminuto em relação à boca do forno, a divisão da marca corre para viabilizar rede. E quer fazer festa importante, nomeando 150 no mesmo dia, em abril. Três vezes o feito da JAC Motors inaugurando meia centena no mesmo dia.

Foi – Nos EUA, Chrysler não é mais Chrysler. A razão social foi alterada para FCA US LLC. FCA é a abreviatura da razão social da holding, Fiat Chrysler Automobiles; US para indicar a operação norte-americana; LLC é o equivalente à formatação de sociedade limitada. O guarda-chuva empresarial da holding mantém o sobrenome do fundador Walter P. Chrysler. Operação no Brasil também mudará de nome. Será FCA Latam (de Latin America) Ltda.

Do ano – Veículo ainda não chegou ao Brasil, mas o motor de 2,0 litros com turbo do automóvel japonês Subaru WRX foi eleito um dos 10 melhores motores de 2015 pelo júri da respeitável publicação especializada estadunidense Ward’s. Faz 268 cv e 35,7 m.kgf de torque entre 2.000 e 5.000 rpm. Novo, reforçado para resistir às grandes pressões internas, e turbo relocado para maior eficiência.

Começou – Finalmente estado do Espírito Santo volta a contar com atividade automobilística, após o fechamento da Revisa, fábrica dos ônibus Itapemirim. A Volare, empresa Marcopolo, concluiu primeira parte das obras de sua fábrica em São Mateus. Fará 800 unidades em 2015 a mercado doméstico e exportação.

Atual – Instalações industriais conversam com a natureza. Área plana, pé direito com 10 m, telhado e laterais duplos para reduzir calor, iluminação natural, captação de energia solar para lâmpadas de leds, de águas de chuva, armazenadas em lago com 10 milhões de litros.

Consequência – Resultado da desvalorização do real frente ao dólar, veículos para exportação baixaram de preço, permitindo à Fiat voltar a enviar ao México. Marca projeta em 2015 relação entre as moedas em R$ 2,80 por dólar.

Descendo – Produção de veículos no México sobe, no Brasil, desce. A inversão dos ponteiros fará do parceiro nortista o 7º. produtor mundial, Brasil caindo à 8ª. posição.

Despedida – Tomas Schmall, deixando a presidência da Volkswagen para assumir diretoria mundial de componentes e lugar no board da marca, deve ter-se surpreendido com elevado número de festas de despedidas e homenagens.

Brasilianische – Schmall, 51, será o mais jovem membro e, nacionalizado, declara será o primeiro brasileiro do board da VW AG. Em seu discurso de despedida, em coquetel a amigos, confirmou a informação sabida por antecipação pelos leitores da Coluna: o motor com injeção direta e turbo será fabricado em São Carlos, SP.

Livro – Publicação interessante a quem gosta da indústria automobilística e, em especial, do Mercosul, é o livro Falcon, Un Clasico Hecho História, por Gustavo Feder, editor de Autohistoria. Conta a saga do Ford Falcon, com produção iniciada na Argentina logo após o lançamento nos EUA, feito por três décadas. Edição Auto-mobilia. Em www.auto-mobilia.com.ar.

Gente – Olivier Philippot, francês, 40, novo presidente da autopecista Magneti Marelli. Manterá gestão sul-americana da marca. Subcontinente representa 20% dos negócios da marca pertencente à Fiat./ Manuela Hoehne, jornalista, ex-Aston Martin, mudança. Relações com a imprensa pela Bugatti.

 

Mercedes lidera em ônibus; tecnologia ajuda

Onibus Mercedes-BenzCriticada implantação de faixas exclusivas para transporte coletivo em várias capitais, buscando dar maior fluidez e velocidade ao trânsito, caminha para resultado maior: a escolha do ônibus como modal de transporte pelo usual motorista do automóvel de transporte individual. Opção ocorre pelo deslocamento mais rápido sobre a faixa exclusiva e pelo ganho de conforto de marcha continuadamente aplicado aos ônibus.

Eventual incremento da frota circulante de coletivos terá pequeno efeito nas emissões de poluentes. Um ganho silencioso vem-se processando nestes equipamentos. Desde 1998, quando a Mercedes-Benz pioneira e corajosamente desenvolveu no Brasil motor para alimentação por injeção de combustível com comando eletrônico, em lugar da secular bomba mecânica e, mais recentemente, com a adoção da tecnologia Blue Tech, as emissões poluentes foram cortadas drasticamente.

A injeção eletrônica permitiu regrar melhor a alimentação do motor, oferecendo economia, redução de emissões, melhor comportamento, confiabilidade. Passo recente, novo degrau tecnológico, o motor enquadrado no regulamento do Proconve — Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores —, norma oficial de redução de emissões. Em sua regra 7, equivalente à europeia Euro 5, oferece sensíveis ganhos no setor.

Se comparado com as regulamentações anteriores (Proconve 4 ou Euro 2), as reduções de emissões foram sensíveis: desceram de 100% para 13%. Base para a mudança, a disponibilidade do novo diesel S50 contra o anterior S500, com teor de enxofre 90% mais baixo. A Mercedes lidera nas vendas de ônibus no país. Coerente. A marca criou o ônibus e fez a primeira aplicação de motor diesel em chassis para trabalho — caminhões e ônibus.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars