Em Interlagos, o duelo final da Fórmula 1

Sebastian Vettel e Fernando Alonso decidem na pista
paulistana o título mundial de pilotos de 2012: o que esperar?

 

No próximo domingo (25), no circuito José Carlos Pace em Interlagos, em São Paulo, o Campeonato Mundial de Fórmula 1 de 2012 terá seu desfecho e, pela primeira vez desde 2009, é no Grande Prêmio do Brasil que o campeão será definido. Fernando Alonso e Sebastian Vettel decidem na lendária pista paulistana qual deles será o mais jovem tricampeão mundial da história — título que cabe até hoje a Ayrton Senna e, curiosamente, uma das últimas marcas do brasileiro ainda não superadas será derrubada justamente em sua cidade natal.

O GP dos Estados Unidos, disputado no último fim de semana em Austin, poderia definir o título mundial, mas a vitória de Lewis Hamilton — seguido pelos dois postulantes ao título — adiou a definição para Interlagos. Alonso teve uma daquelas corridas sensacionais e chegou ao pódio depois de um sábado de cão, no qual marcou apenas o nono tempo na classificação, enquanto Vettel perdeu uma corrida na qual parecia ter tudo para infringir ao adversário uma derrota contundente.

Curioso notar que foi o cenário invertido de Abu Dhabi, quando Alonso parecia destinado a retomar a vantagem, depois de um erro da Red Bull na classificação que deixou o alemão em último naquela ocasião. Ainda no campo da curiosidade, a diferença voltou aos 13 pontos, a mesma que a tabela de pontuação dos pilotos marcava antes da etapa no emirado.

 

O microclima da região pregou peças em muita gente gabaritada da Fórmula 1, como na tromba d’água de 1993, na corrida em que Ayrton Senna mostrou porque era o Rei da Chuva

 

A vantagem do alemão é importante: significa que uma quarta colocação na etapa brasileira (12 pontos) dará a Vettel o tricampeonato, não importando o resultado alcançado pelo ferrarista. Já o espanhol depende de um mau resultado do piloto da Red Bull, algo que não tem sido tão comum assim. Das 19 etapas anteriores, em apenas três o resultado que dará o título ao espanhol em Interlagos chegou a acontecer (Malásia, Alonso vencedor e Vettel 11º.; Europa e Itália, Alonso vencedor e Vettel abandonando).

Como vivemos tempos em que a Red Bull tem o melhor carro do grid e um histórico recente de domínio em Interlagos (três vitórias e dois segundos lugares nas últimas três edições), não parece haver um bom prognóstico para a turma de vermelho. Mas o histórico de falta de confiabilidade dos carros anglo-austríacos é um fator a ser considerado pelos tifosi, os torcedores da equipe italiana.

Nas últimas etapas, os carros com motores Renault da Red Bull têm tido problemas com o alternador, que causou diversos abandonos. Em Austin o carro de Vettel sofreu com o problema na sexta-feira, o que impediu o alemão de andar em quase todo o segundo treino livre do dia. Já Mark Webber não teve a mesma sorte e acabou abandonando, como aconteceu com o alemão em Valência e Monza. A Renault promete uma nova especificação da peça para Interlagos, testada pela Lotus em Austin sem problemas. A nova versão do alternador já havia sido prometida, mas a peça apresentou problema e demandou mais algum desenvolvimento.

 

 

O fator clima

Interlagos não é exatamente uma pista previsível — pelo contrário. Um dos casos que vem à cabeça é o de 2008, quando Lewis Hamilton apenas conseguiu alcançar uma posição que garantia o título mundial depois da última passagem pela Junção, no início da subida que leva aos boxes, depois que Felipe Massa havia recebido a bandeirada na primeira posição. Mas o inglês chegou a São Paulo com amplo favoritismo — pelo segundo ano consecutivo — e só chegou à situação de perder o caneco quando, depois de uma corrida mediana visando a garantir o título, se viu forçado a trocar os pneus e apostar na chuva em uma daquelas mudanças malucas de tempo na pista paulistana.

Claro, esse é apenas um dos muitos momentos em que o microclima da região pregou peças em muita gente gabaritada da Fórmula 1. Talvez seja o momento de maior clímax, mas não são raros os casos em que as chegadas de frentes frias, ou de áreas de instabilidade depois de dias quentes, dão um nó no clima da cidade e fazem a umidade da represa serem sentidas na pista. É fácil lembrar a tromba d’água de 1993 (a corrida em que Ayrton Senna mostrou porque era o Rei da Chuva) e a tempestade de 2003 (primeira vitória da carreira de Giancarlo Fisichella e última vitória da Jordan durante o 700º. GP da categoria), entre tantas outras corridas históricas.

E a previsão do tempo para São Paulo para o fim de semana mostra justamente isso: uma frente fria deve chegar na tarde de sábado à cidade, fazendo o tempo quente dos dias que antecedem a corrida virar uma verdadeira tempestade no decorrer da classificação — o que pode se estender até o momento da corrida e transformar a etapa paulistana em mais uma loteria.

Diferente do que fazem parecer as comemorações dos ferraristas com relação a essa notícia, os dois postulantes ao título têm bom desempenho em pista molhada — e não apenas Alonso. Contudo, a entrada desse fator na mistura significa que a corrida pode ter uma pitada de pimenta a mais, em vez de ser um território totalmente favorável aos carros projetados por Adrian Newey, como tem sido nos últimos anos.

Se a chuva vier e se mostrar um fator a complicar a vida de Vettel, impedindo-o de conquistar o terceiro título, Alonso evitará que o alemão obtenha um feito que lhe foi negado em 2007: o de ser o primeiro piloto a conquistar seus três primeiros títulos de forma consecutiva desde Juan Manuel Fangio. Os ingredientes de uma grande rivalidade estão aí, com a história se repetindo como farsa, algumas vezes.

Como será a corrida desse fim de semana? Tomara que seja inesquecível, divertida e emocionante. Que seja uma disputa limpa e que o vencedor saia de forma incontestável, sem polêmicas. Que vença o melhor.

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