Fórmula 1: um salto arriscado

Lewis Hamilton segue para a Mercedes, Sergio Perez é seu
substituto na McLaren: o mercado de pilotos se move, afinal

 

Na última semana, uma notícia chocou o mundo da Fórmula 1 e, informalmente, deu como aberta a temporada de anúncios e transferências da categoria. Mesmo na briga pelo título defendendo a McLaren, o inglês Lewis Hamilton anunciou que troca de equipe para a próxima temporada, rumando para a Mercedes. Poucas horas depois, o mexicano Sergio Perez, garoto-prodígio da atualidade, foi anunciado como substituto do campeão de 2007 na tradicional equipe inglesa.

Tudo começa com a aposta de Hamilton, que resolve mudar de ares e apostar no crescimento de uma equipe que tem tudo para dar certo, mas que sofre com a falta de alguns ingredientes — um dele, claramente, um líder da equipe. Por um lado, podemos dizer que Hamilton é a nova aposta da Mercedes para trazer a equipe oficial de Stuttgart para a briga por vitórias e por títulos, o que não aconteceu ainda durante a gestão alemã. E, de alguma forma, substituir em carisma ninguém menos do que Michael Schumacher, que deve se aposentar ao fim desta temporada.

O alemão ainda não fez nenhum anúncio, o que mostra um pouco da relutância do heptacampeão mundial em deixar as pistas — uma decisão que vem se arrastando nos últimos meses —, mas a expectativa é de que anuncie em breve que pendura mais uma vez o capacete. Até mesmo porque as alternativas no mercado não são muitas, e certamente a Mercedes não espera que o alemão siga competindo nas próximas temporadas, podendo ocupar um cargo honorário e de promoção da marca.

A ideia da Mercedes era fazer com que Schumacher fosse capaz de desempenhar, sozinho, o papel de líder técnico da equipe e embaixador da marca. Ele até começou bem, num comercial que ganhou as telas e mostrou a força de sua imagem — um anúncio do Mercedes SLS AMG onde ele fazia o carro girar pelas paredes de um túnel. Mas não é apenas disso que vive um campeão, e os resultados desde sua volta mostram que a atual Fórmula 1 exige mais do que um currículo para obter resultados e brigar por títulos.

 

A aposta em um piloto novato não é novidade para a McLaren: em 2001, um tal de Kimi Räikkönen — que tinha completado sua terceira temporada como piloto de monopostos — foi contratado para substituir Mika Hakkinen

 

Hamilton, aos 27 anos de idade, parece o homem certo para cumprir esse papel, já que vive a idade ideal para o auge técnico de sua carreira. Isso sem contar a notória vontade de se tornar uma superestrela e o gosto pelo mundo da fama, elementos que cairiam como uma luva para as pretensões da Mercedes de promover sua marca como equipe e como fabricante.

A McLaren teria oferecido a Hamilton uma equiparação financeira com relação à proposta da Mercedes, apesar de algumas restrições comerciais. E, claro, a capacidade técnica da equipe de Woking tem sido muito superior à de seus rivais de Brackley, sede da Mercedes — como mostram os resultados das equipes nos últimos meses, e até anos. Se a McLaren é tradicional, organizada, estável e acostumada com a disputa de títulos, a Mercedes ainda vive as agruras de uma reestruturação técnica depois da perda da mecenas anterior — a Honda —, a temporada de transição que terminou com o título e a nova realidade, na qual ainda precisa mostrar resultados e não parece próxima disso.

Por outro lado, o piloto de ponta é aquele capaz de tirar seus coelhos da cartola e transformar um carro médio em um brigador por vitórias e títulos. Pode ser o desafio de que Hamilton precisava depois de passar a vida toda sob o guarda-chuva da McLaren. E, claro, vale lembrar que a equipe inglesa não tem mais o status de equipe oficial da marca Mercedes, com todas as implicações que o detalhe pode causar nas pretensões e nos sonhos californianos do campeão mundial de 2008.

A aposta no novo

A McLaren, por sua vez, aposta no novo ao contratar a sensação Sergio Perez para substituir sua antiga estrela. É a coragem que, por exemplo, a Ferrari não teve ao dispensar o mesmo Perez em favor de um piloto mais experiente. Com isso, pode ficar até mesmo com um piloto com desempenho medíocre a sofrível, como tem sido Felipe Massa nessa temporada.

A aposta em um piloto novato, sem vitórias e com pouca experiência na categoria não é novidade para a equipe. O movimento lembra a aposta que a mesma McLaren fez há 12 temporadas num novato que despontava na mesma Sauber: em 2001, um tal de Kimi Räikkönen — um jovem finlandês que tinha completado sua terceira temporada como piloto de monopostos — foi contratado para substituir o bicampeão Mika Hakkinen.

Claro, Sergio Perez não é Kimi Räikkönen, e sabe-se lá se terá o mesmo sucesso (ou até mais) que o homem de gelo teve na equipe prateada. De fato, salta aos olhos a forma com que a Ferrari simplesmente não brigou por um piloto que integrava suas fileiras, o que leva à desconfiança de que os italianos sabem de alguma coisa e não acreditam no sucesso de Perez. O mexicano seria um piloto de difícil trato, egocêntrico e arrogante, que teve bons resultados mais pela sorte e por circunstâncias coincidentes que por seu talento ou sua velocidade. E chama a atenção a falta de consistência nos resultados de Perez, que variam muito de etapa para etapa. Mas pilotar para equipes menores tem suas peculiaridades — nem sempre o carro da Sauber é competitivo como os carros das equipes grandes.

Alguns grandes resultados de Perez foram produzidos sob circunstâncias especiais, embora ele estar ali para aproveitar essas chances mostre que o mexicano tem qualidade. Sobre comentar que a Ferrari tinha Perez sob contrato e que Petter Sauber tem uma dívida de gratidão com a Ferrari, que leva em conta alguns de seus valiosos conselhos, vale lembrar que a situação era a mesma em 2001 (com a Sauber como cliente da Ferrari e Petter Sauber teoricamente próximo à direção técnica dos italianos), mas naquela oportunidade Räikkönen foi para a McLaren.

Não há como negar que Perez seja o nome-sensação da atual Fórmula 1, o que desponta como o mais promissor dos pilotos da nova geração. Se ele conseguirá dar o passo seguinte na carreira, tornando-se um piloto de ponta da categoria, é uma outra discussão, que só será respondida a partir do ano que vem. Mas no atual cenário, ele parece ser a aposta mais sensata para o futuro da equipe.

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