Os vencedores e vencidos de Spa

Por que a pista belga é tão especial? Por sempre sediar
corridas empolgantes, como a do último domingo

 

A Fórmula 1 voltou à atividade, depois de um mês de parada, desde o GP da Hungria. E voltou em grande estilo com o Grande Prêmio da Bélgica, no circuito de Spa-Francorchamps, no último domingo (2). Foi uma corrida digna de aplausos, capaz de acabar com qualquer tipo de saudosismo dos fãs sedentos por atividade em pista. Muitas mudanças de posições, ultrapassagens para todos os gostos — em trechos com ou sem o uso da asa móvel, o popular DRS —, algumas surpresas, sustos, um vencedor improvável e um campeonato que parece ser reaberto depois que o líder Fernando Alonso foi alvejado pelo suspenso Romain Grosjean, na largada, e acabou perdendo sua série de 23 corridas consecutivas marcando pontos.

Spa é uma pista venerada por dez entre dez fãs da velocidade e onze entre dez profissionais da categoria. Não é para menos: a pista tem todos os ingredientes para ser perfeita. Encravada no meio da floresta das Ardenas, é uma pista de alta média de velocidade, larga o suficiente para proporcionar muitas ultrapassagens e ainda, por todo o microclima da região e a extensão da pista, pode apresentar diferentes condições meteorológicas — chuva e sol, pista molhada e seca — ao mesmo tempo. Uma verdadeira loteria climática, mesmo no verão belga.

Nesta edição da visita anual do circo da Fórmula 1 a Spa, não choveu durante a classificação e a corrida, mas o tempo chuvoso da sexta-feira, que praticamente inviabilizou qualquer atividade de pista, fez com que o tempo de pista fosse reduzido, e os leques de alternativas de acertos escolhidos, ampliados.

Escolher entre velocidade final alta (com um carro capaz de ultrapassar muitos pilotos nos longos trechos de retas e aceleração plena) e um carro mais preso no chão (capaz de ganhar terreno no trecho de curvas de baixa e média velocidades, no chamado miolo do circuito, e de brilhar na classificação) fazem parte da ˜escolha de Sofia˜ que é a arte de acertar um carro de Fórmula 1 para Spa. Como a sexta foi comprometida, essa escolha foi feita praticamente no escuro, o que fez com que muitos pilotos seguissem caminhos diferentes para encontrar seus acertos.

Dentro de todas essas alternativas, Jenson Button — piloto que tinha uma vitória na temporada, mas ao mesmo tempo já passou sete corridas sem marcar pontos no campeonato — foi o grande vencedor da corrida. O inglês foi quem melhor leu as variáveis do tempo e da situação de pista e marcou não apenas a pole-position, no sábado, como também venceu a corrida de ponta a ponta, algo que não havia acontecido nesta temporada cheia de alternativas.

 

Ainda restam 24 pontos, mas é o início da reação de Vettel, um piloto que, historicamente, melhora seus resultados conforme a temporada vai rumando ao fim

 

A equipe aparece fortalecida, poisdesde que apresentou a versão B de seu carro, em Hockenheim, a McLaren tem duas vitórias e um segundo lugar, e seu companheiro de equipe nem sempre parece muito confiável — neste fim de semana se envolveu em outra polêmica ao divulgar informações sigilosas de telemetria em sua conta de Twitter. Nesse cenário, Jenson Button pode aparecer como um novo candidato ao título. Contudo, Lewis Hamilton tem sido mais rápido e constante no decorrer da temporada e, mesmo envolvido no acidente do início da corrida junto de Alonso e Grosjean, permanece à frente do campeão mundial de 2009 na tabela do campeonato de pilotos.

Button não foi o único a deixar Spa com um gosto doce na boca. Sebastian Vettel é outro que saiu, se não vitorioso, com o campeonato revigorado depois da grande reação empreendida na corrida. Vettel, que de forma surpreendente não passou à fase final da classificação no sábado, largando na 11ª. posição, terminou a corrida na segunda posição e tirou 18 pontos da grande vantagem de Alonso no campeonato.

Ainda restam 24 pontos — uma vitória, se considerarmos que o espanhol tem três vitórias na temporada e o alemão apenas uma. Mas é o início da reação de um piloto que, historicamente, melhora seus resultados conforme a temporada vai rumando ao fim. Um exemplo de reação aconteceu há dois anos num momento em que, curiosamente, os dois saíram derrotados da Bélgica, quando Vettel encheu o carro de Button na freada da Bus-Stop, no início daquela volta, e foi taxado como desastrado e imaturo. Depois daquele momento, quando ambos pareciam eliminados da briga pelo título, muita coisa mudou e Sebastian chegou ao título naquela corrida surpreendente disputada em Abu Dhabi.

Os perdedores de Spa

Não apenas de vencedores foi feito o GP da Bélgica. E se há um grande e claro vencido de todo o show acontecido nas Ardenas, esse é Romain Grosjean. O piloto da Lotus mais uma vez se envolveu em uma confusão na largada. Dessa vez, em uma manobra desastrada, espremeu Lewis Hamilton que, sem ter como escapar, acabou perdendo o controle do carro. Os carros de ambos promoveram uma carambola na primeira curva — a La Source —, afetando diversos outros carros e quase atingindo na cabeça Alonso, que nada tinha a ver com a confusão. O francês, em função do acidente, foi suspenso da próxima prova (Monza, já neste domingo) e tem que pagar uma multa considerável para a FIA, 120 mil Euros.

Claro, os pilotos que mais perderam foram Alonso e Hamilton, envolvidos de primeira hora no acidente. Fernando acaba perdendo boa parte da gordura acumulada no decorrer do campeonato, enquanto Lewis perde uma boa chance para tirar pontos de vantagem do líder e reaparecer como favorito ao título. De toda forma, os dois estão aptos e voltarão com a corda toda para a próxima etapa.

Outro que saiu perdendo nessa confusão é Mark Webber, que mais uma vez perde uma chance de ouro para se viabilizar como candidato ao título. Mesmo sem ter sido afetado pelo acidente na curva inicial, Mark não esteve numa tarde brilhante e ficou apenas na sexta colocação — foi-se assim sua chance de ouro de reduzir a vantagem de Alonso. Num momento em que a Red Bull não parece estar na melhor forma, estando menos competitiva do que Ferrari e McLaren, esse tipo de perda de oportunidade é mais sentida.

O campeonato é longo e temos uma maratona que se iniciou nesse domingo, com nove provas em 13 fins de semana, em locais tão distantes quanto São Paulo e Suzuka. Assim, muita água ainda vai rolar por baixo da ponte. Mas os detalhes serão fundamentais para definir o campeonato e, desses detalhes, que podem ter sido escritos em Spa.