Rossi, de volta para casa

Valentino Rossi voltará à Yamaha, equipe que o
piloto italiano ajudou a reerguer na década passada

 

O piloto Valentino Rossi anunciou que deixará a Ducati ao fim da temporada de 2012: o italiano voltará à equipe oficial da Yamaha na MotoGP nas temporadas de 2013 e 2014. Rossi será companheiro de equipe do espanhol Jorge Lorenzo, reeditando a dupla bem-sucedida formada entre os anos de 2009 e 2010, mas que, devido ao crescimento do espanhol, resultou num racha dentro da equipe e acabou causando a saída de um dos dois — no caso, Rossi. O italiano substitui Ben Spies, norte-americano que chegou à categoria com muito nome, mas nunca conseguiu alcançar as expectativas criadas depois de temporadas bem-sucedidas nas Superbikes norte-americana e mundial e uma boa passagem num probatório no Mundial de MotoGP, na equipe satélite Tech 3.

O Doutor, assim, encerra uma passagem pela equipe italiana, que certamente ficará marcada para o piloto — um dos grandes nomes da história do motociclismo mundial — como o maior fracasso de sua gloriosa carreira. Agora, voltará à equipe que ele ajudou a colocar de volta ao caminho das vitórias em meados da década passada, naquela que — de forma irônica e curiosa — pode ser considerada a maior vitória de sua carreira.

Quando chegou à Yamaha, em 2004, Vale tinha a sua frente uma equipe desacreditada, em frangalhos, que havia muito tempo estava sem conquistar títulos — o último piloto campeão com uma moto da tradicional marca japonesa antes dele havia sido Wayne Rainey, no distante ano de 1993. Mas, logo que chegou, guiou a equipe à glória e conquistou o título logo em sua primeira temporada. E assim foi a convivência pelos sete anos que durou o casamento entre o Doutor e a marca nipônica, conquistando o título em quatro oportunidades (2004, 2005, 2008 e 2009).

Ao contrário do que havia acontecido em sua saída anterior, da Honda, a saída de Rossi da Yamaha foi relativamente tranquila. Se por um lado a equipe via em Jorge Lorenzo o nome que significava o futuro da marca na MotoGP, por outro Valentino sabia que — cedo ou tarde — a equipe ficaria pequena para ambos os pilotos. Lorenzo evoluiu, começou a dividir a equipe e dificultar a vida de Rossi. Depois de um ano de 2010 complicado, em que entre outros problemas sofreu uma fratura na perna, durante os treinos livres para o Grande Prêmio da Itália, e ficou de molho por alguns meses, Jorge acabou conquistando o título e fazendo com que o Doutor fosse buscar novos caminhos.

 

A Ducati não poupou esforços para fazer com que Vale se sentisse em casa, mas ele nunca conseguiu estar no patamar em que sempre esteve na Yamaha

 

A ideia de Rossi era reeditar a trajetória empreendida na Yamaha e trazer a Ducati para fazer frente às gigantes japonesas. Piloto italiano, moto italiana, tecnologia italiana — na teoria, uma história perfeita. Na prática, porém, não foi bem isso o que aconteceu. O Doutor teve problemas com a adaptação a uma moto complexa, temperamental. Se um piloto de pilotagem arrojada como Casey Stoner — a quem Vale foi substituir na Ducati — tinha menos problemas e conseguia fazer com que a moto obedecesse a seus comandos, um piloto mais tradicional como Rossi não conseguia fazer a moto funcionar como deveria.

O Doutor não foi o único a naufragar comandando a moto italiana. Para se fazer justiça, o fato é que apenas Stoner conseguiu fazer com que a Ducati fosse competitiva nos últimos anos. Bons pilotos como Marco Melandri e Nicky Hayden tiveram dificuldades para fazer a moto italiana competitiva, amargando resultados decepcionantes pela equipe. Valentino foi apenas mais um a sucumbir à moto temperamental.

Tentativas sem sucesso

Claro que a Ducati também se esforçou para ver a estrela brilhar com sua moto e não poupou esforços para fazer com que Vale se sentisse em casa. Modificou seus projetos, produziu quadros em diversas tecnologias, usando tanto a fibra de carbono — que a Ducati tanto se orgulhava em dominar e empregar na construção de suas máquinas — quanto o duralumínio, que caracteriza a construção dos quadros das marcas japonesas. Tentou diversas alternativas, mas Rossi nunca conseguiu estar no patamar em que sempre esteve na Yamaha.

Sem a possibilidade de oferecer ao multicampeão uma moto capaz de fazê-lo competitivo — e sofrendo grande pressão por parte da Dorna, a promotora do campeonato, para fazer com que Valentino voltasse a brigar pelas vitórias ou deixá-lo partir —, a Ducati não teve outra opção a abrir mão de sua estrela para a próxima temporada. Os italianos certamente ainda procuram um nome que faça com que a equipe renasça, mas, sem a pressão de obter resultados imediatos, pode ser que a coisa saia mais naturalmente.

A Ducati procura um nome capaz de liderar, de dentro da pista, essa nova fase — e um possível nome seria o de Cal Crutchlow, um bom valor que tem se destacado na Yamaha Tech3 nesta temporada. Não seria um Rossi ou um Stoner, mas seria uma aposta com boas chances de dar certo.

Assim, Valentino volta à Yamaha num momento em que a rival Honda perde sua grande estrela (Casey Stoner já anunciou que deixará as pistas no fim do ano) e a substitui com uma promessa (Marc Marquez, atualmente a sensação da Moto2), o que prenuncia que a briga pelo título da próxima temporada tem boas chances de uma luta interna na Yamaha. Rossi, porém, volta para a equipe por baixo, sem as regalias que marcaram sua relação com Jorge Lorenzo nos primeiros anos. Se em sua passagem anterior a situação de divisão de equipe e melhores técnicos para seu lado era natural, certamente não será assim nessa volta — afinal, o espanhol também se colocou como um dos grandes nomes da categoria, brigando pelo título na temporada.