Indústria de automóveis: roupa suja se lava em casa

A carreira de um executivo é como uma escada — e no topo está a porta de saída, com honra ou em desgraça

 

Entre as práticas ocidentais introduzidas no Japão do pós-guerra, estava a auditoria externa, a que aderiram empresas nipônicas como a Pricewaterhouse Coopers e junções como a Deloitte Touche Tohmatsu. Na medida em que o capital japonês internacionalizou-se e as empresas começaram a captar recursos em bolsas do mundo todo, a auditoria passou aos padrões norte-americanos, regulados pela Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC), o que inclui adotar as demonstrações contábeis pelo padrão US GAAP (princípios contábeis geralmente aceitos), cujas normas são expedidas pelo FASB (Financial Accounting Standards Board).

Quem costumava viajar para o exterior nos anos 1980 via bandos de japoneses com broches das empresas a que pertenciam, todos conversando entre si, sem se misturar com outros bandos com outros broches — todos com ternos escuros, porém, numa tentativa de serem mais ocidentais que os ocidentais. Para eles não havia países no Ocidente, muito menos culturas variadas. O comum era ouvir deles: In Japan, we do like this; in western countries, you do like that.

 

A primeira coisa que ele fez foi demitir três mil funcionários, o que jamais acontecera: no Japão, as empresas mantinham empregados por toda sua vida produtiva

 

Ghosn deve ter dinheiro para ser rico por três ou quatro vidas: faria sentido destruir toda sua fama?

De repente, o país, que era a menina dos olhos do mundo, passou a ter seus produtos tributados pelos Estados Unidos, no que se chamou reestruturação tributária. Isso coincidiu com o que alguns economistas chamaram de “bolha japonesa”. Uma das maiores empresas automobilísticas estava por falir e o conselho resolveu chamar um CEO com tripla cidadania — brasileira, francesa e libanesa — para resolver o problema.

Ao chegar à Nissan, a primeira coisa que Carlos Ghosn fez foi demitir mais de três mil funcionários, o que jamais acontecera no Japão — cujas empresas sempre se orgulharam por manter os empregados por toda sua vida produtiva, chegando a intitular-se a prova de que o pleno emprego seria possível no capitalismo, contrariando Marx.

Na verdade, isso era uma herança do regime samurai, em que as pessoas prestavam vassalagem aos suseranos e cometiam o suicídio afastados para não se tornarem ronins, párias em japonês. Ser demitido era motivo para suicídio e houve muitos por aquele tempo, causando comoção nacional. Os subsídios dos EUA, que sustentavam o pleno emprego japonês por conta das fronteiras com a União Soviética e com a China, deixaram de fazer sentido. A primeira ruiu e a segunda integrou-se à economia mundial, deixando de ser ameaça.

 

 

Um meio de vida perdido

Para se manterem vivas em um ambiente tipicamente ocidental de competição, as empresas nipônicas teriam de adotar paradigmas de meritocracia igualmente ocidentais. Estejamos todos certos de que, embora os acionistas tivessem gostado de ver a falência evitada, seu mentor não virou um herói. Muito pelo contrário, era o símbolo de um meio de vida perdido para sempre. A fusão com a Renault, em 1999, foi mais um golpe no orgulho japonês, acostumado a ditar as regras no cenário tecnológico mundial. Foi uma interrupção na crença de que se poderiam impor padrões locais, como o toyotismo, ou mesmo as técnicas de controle de qualidade, ao resto do mundo indefinidamente. A junção com a combalida Mitsubishi selou a sorte de seu mentor.

Diante das prisões de Ghosn no Japão, não sendo juiz, ponho aqui uma questão. Como empresas tão vigiadas por tantas comissões de valores mobiliários, que exigem a contratação de caríssimas empresas de auditoria, de repente — não mais que de repente — se dão conta de que seu presidente cometera os crimes de abuso de mandato e apropriação indébita, encarcerando-o, quase que sem chance de libertação, mesmo pagando milionária fiança e não tendo fugido do país?

 

Ou Ghosn é um super-homem, capaz das mais incríveis falcatruas sem que ninguém soubesse, ou as empresas e comissões de auditoria são incompetentes

 

Será que se fez, fê-lo sozinho e em absoluto sigilo, a ponto de não precisar de apoio de nenhum outro funcionário de alto escalão? Se o fez, tê-lo-ia feito sem que nenhuma empresa de auditoria, de nenhum país em que se vê obrigado a prestar contas, percebesse por mais de 20 anos? Das duas, uma: ou ele é um super-homem, capaz das mais incríveis falcatruas sem que absolutamente ninguém soubesse, ou as empresas e comissões que deveriam zelar pela lisura dos registros e demonstração de resultados, único meio de proteger o investidor, são de incompetência inaudita.

A verdade não deve estar nem cá, nem lá. Os valores amealhados por Ghosn ao longo de sua carreira devem ser suficientes para que ele seja rico por umas três ou quatro vidas, e não me parece fazer sentido querer deixar destruída uma fama equivalente à de mitos como Lee Iacocca e Wolfgang Sauer. Quando uma pessoa chega aos píncaros, fica mais preocupada com como vai ser lembrada do que em amealhar uns milhões de dólares, cujo tempo restante de vida não será suficiente para gastar. Por outro lado, ninguém chega ao topo sem ser muito mais rápido em observar oportunidades do que a imensa maioria dos concorrentes — ou, como se costuma chamar no mundo dos negócios, sem ser um avião ou mesmo um tubarão. O caminho do sucesso deixa muitos inimigos para trás.

Aqui tem-se uma soma de inimigos pessoais, pouco importando se com motivo ou não, e um ressentimento cultural que se aflorou, suportado por uma onda de conservadorismo que aflige o mundo como um todo. Ora, se os Estados Unidos gostariam de voltar aos anos dourados, por que os japoneses não? Afinal, esse período foi concomitante ao Milagre Japonês. Novamente, sem a menor pretensão de julgar, mesmo porque, se nem as companhias de auditoria nada perceberam, quem somos nós, meros mortais, para saber o que ninguém sabe? Importante é analisar o fato como parte de um fenômeno cultural local somado a um movimento internacional, cujo fim é incerto e fatalmente deixará sequelas na imagem de um dos maiores executivos do século XX.

P.S.: Por motivo de reescalonamento entre as colunas do site, passarei a estar com vocês às sextas-feiras a partir de 3 de maio.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars