De prejuízo em prejuízo, a indústria continua em pé

Passam-se anos de maus resultados antes de a empresa pedir uma boia de salvação: o que os fabricantes têm que nós não temos?

 

Há décadas que lemos que essa ou aquela indústria de automóveis está quebrada, clamando por auxílio estatal, caso contrário, desempregará muita gente e causará um caos econômico. Interessante é que se passam anos de prejuízo atrás de prejuízo antes de a empresa pedir que lhe joguem uma boia de salvação. Quando é conosco, mesmo com alguns milhares no limite do banco e o contrato de sete dias sem juros, se entrarmos no cheque especial por um dia só, pululam SMS de advertência nos nossos celulares. O que a indústria tem que nós não temos?

Para responder essa pergunta, temos que relembrar alguns conceitos básicos de Economia e do mercado de capitais.

 

Os juros são o preço do dinheiro: quando se faz uma aplicação, está-se vendendo dinheiro para um intermediário, que o empresta para quem dele precisar

 

A literatura mostra que a General Motors é uma que vem mascarando prejuízos pela emissão de títulos de crédito por um longo período

A imprensa costuma dizer que “Fulano investiu na poupança”. Isso é uma contradição. Poupança é o oposto de investimento. Quando um agente econômico assume o risco de um negócio, seja próprio, seja compartilhado, está investindo. Assim, a aquisição de ações ou debêntures é investimento, enquanto aplicar o dinheiro no mercado financeiro é poupança. É claro que, quando se faz uma aplicação, está-se assumindo o risco do agente financeiro, mas não o de quem tomou dinheiro emprestado dele — daí os juros serem o prêmio por essa aposta.

A diferença é que a renda depende tão somente do valor emprestado, já que os juros são o preço do dinheiro. Explicando melhor, quando se faz uma aplicação, está-se vendendo dinheiro para um intermediário financeiro que, por sua vez, empresta-o para quem dele precisar. Assim, o intermediário amortece o risco individual e, para evitar danos à população, existem garantias como as previstas pelo acordo de Basileia e Banco Central, como o Fundo Garantidor. Naturalmente, no mercado financeiro, rendimentos costumam ser menores do que no mercado de capitais.

Nos investimentos, os riscos assumidos são todos os da empresa, que podem ser vários, mas tomemos apenas quatro: soberano, de negócio, de crédito e moral. O prêmio é participar do lucro, no caso das ações; ou receber uma taxa determinada pela empresa, como no caso das debêntures.

Risco soberano é o relativo ao ambiente de negócio, indo desde a estabilidade política à inflação e outros condicionantes alheios à administração da empresa. De negócio, que engloba o de mercado e o de gestão, é o de não vender ou de, mesmo vendendo, não ter lucro. O de crédito é o de o cliente querer pagar, mas não ter dinheiro. O moral é o de o cliente ter dinheiro, mas não querer pagar. O prêmio sobre o investimento é forçosamente maior que a taxa de juros, caso contrário, em vez de investir, o agente poupa.

 

 

Títulos de risco-zero

Ocorre que existe uma intersecção entre os mercados de capitais e financeiro, que são os fundos de investimento que mitigam o risco pela composição de suas carteiras, que podem conter títulos considerados como de risco-zero, entre eles, os títulos do tesouro. Ações, seja por subscrição, seja pelo mercado secundário, e debêntures podem fazer parte de fundos. As debêntures são lançadas com deságio, se prefixadas, ou com juros por fora, se pós-fixadas. Elas têm prazo determinado.

Trata-se de papéis para quando a empresa não quiser ou não puder admitir mais sócios, mas precisar de capital, buscando quem queira compartilhar de todos os seus riscos. Caso a empresa preveja poder admitir mais sócios no futuro, ela lança debêntures conversíveis em ações; caso contrário, lança debêntures comuns. Curiosamente, elas são mais antigas do que as ações e já existiam no fim da Idade Média. As debêntures formam o mercado de dívida, circunscrito a meganegócios como a indústria de automóveis.

É preciso que a empresa tenha as ações negociadas em bolsa na praça em que vai lançar as debêntures; caso contrário, estará desobrigada de publicar balanços e os investidores locais ficariam sem elementos para investigar os riscos. Ninguém seria maluco o suficiente para emprestar dinheiro para uma empresa cujos números fiquem sob sigilo. Dessa forma, a indústria de automóveis — mesmo quando vai investir no Brasil, onde não participa do mercado de capitais — lança debêntures em outro mercado e traz o dinheiro sob a forma de empréstimos da matriz.

 

Depois de a vaca ir para o brejo e a indústria pedir arrego, ela fica passando de mão em mão entre os concorrentes, pois ninguém mais acredita em sua solidez

 

Uma grave crise pode secar a fonte, como teria ocorrido com a Ford nos anos 60 sem o Mustang

Esse não seria o melhor dos mundos, nem o pior deles. Ocorre que uma empresa pode lançar debêntures para cobrir as que estão vencendo, empurrando a dívida para diante, exatamente como os governos fazem ao lançar títulos públicos. A diferença é que, ao contrário dos papéis do governo, que são de risco-zero, debêntures têm risco estimável consoante índices calculados a partir de seus balanços.

O principal deles é o de alavancagem financeira: AF+PC/(AC-PC), onde AF é alavancagem financeira, AC é o ativo circulante e PC é o passivo circulante. Quanto mais debêntures a indústria lançar no mercado, maior será seu risco, jogando para cima o prêmio exigido, até que ele comprometa sua rentabilidade e ninguém mais queira comprar seus papéis. É quando a bancarrota se avizinha e a indústria pede água ao Estado.

A literatura mostra que a General Motors é uma que vem mascarando prejuízos pela emissão de títulos de crédito por um longo período. Alguns artigos dão como 1991 o início da emissão para postergar pagamentos. Ocorre que, como quem os compra está sujeito ao risco soberano, uma crise como a de 2008 pode fazer secar a fonte e o estrago na GM estava feito, como ocorreu em menor escala com a Chrysler na década de 1970 e teria ocorrido com a Ford no início dos anos 60, caso Lee Iacocca não tivesse lançado o Mustang.

Interessante é que, depois de a vaca ir para o brejo e a indústria pedir arrego, ela fica passando de mão em mão entre os concorrentes, pois ninguém mais acredita em sua solidez e empresta-lhe dinheiro sem querer participar de seu capital. Rolls-Royce e Rover na Inglaterra e a Chrysler, justamente com a AMC, nos Estados Unidos são exemplos dessa lista negra a que o mercado de dívida acaba empurrando quem dele abusa. Reles mortais como nós não rolamos dívida alguma, porque somos pequenos demais para que alguém pretenda assumir nosso risco.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars