Consórcio e financiamento: o ponto de vista econômico

Carro Micro e Macro

Em um, paga-se antes pelo carro; no outro, pega-se dinheiro emprestado para a compra — e nos dois há implicações

 

Está na mídia que os carros estão deixando de ser o principal sonho de consumo no mundo. Isso não muda o fato de serem um símbolo de status que o mais avançado telefone jamais será. É que se anda dentro do carro, enquanto o celular fica no bolso — e, de acordo com as condições, nem se tira em público para não ser roubado. Para os economistas, é o efeito-demonstração, o carro novo que mostra aos vizinhos como se está bem de vida ou mesmo em que posição social se está. Mas como consegui-lo se não se pode pagar à vista?

As opções costumam ser duas: consórcio, quando se paga antecipadamente mediante uma taxa de administração, e financiamento, quando se obtém o dinheiro antes e se paga o empréstimo mediante uma taxa de juros.

 

Em um consórcio, vende-se dinheiro para que outra pessoa usufrua o bem: normal seria o consorciado receber juros entre a adesão e a retirada

 

Os economistas veem o dinheiro como uma mercadoria: quem empresta vende, quem pega emprestado compra e o preço são os juros. Ao entrar em um consórcio, vende-se dinheiro para que outra pessoa usufrua o bem. Normal seria o consorciado receber juros entre a adesão e a retirada, passando a pagá-los a partir da contemplação. É que outros passaram a contribuir para seu consumo. Entender o consórcio como finanças depende dos conceitos de valor presente e taxa efetiva de juros.

Não pode comprar à vista? As opções costumam ser duas: consórcio e financiamento
Não pode comprar à vista? As opções costumam ser duas: consórcio e financiamento

Imaginemos uma viagem em rodovia reta, num dia cristalino, com visada de muitos quilômetros. Um caminhão 100 metros à nossa frente parecerá muito maior que um a 200 m de distância, que parecerá enorme perto de outro idêntico que esteja 1 km à frente. Se o caminhão tiver saído de nosso alcance visual, seu tamanho será nada.

O mesmo se aplica à questão financeira: quanto mais no futuro estiver o valor, menos ele vale hoje, porque o risco por receber — ou de ter dinheiro para pagar — cresce com o tempo. John Maynard Keynes, economista britânico, dizia que no infinito nada vale coisa alguma porque estaremos todos mortos. A relação de diminuição do valor pode ser a taxa básica de juros, porque ela representa o que deixamos de ganhar ao pôr o dinheiro aqui e não lá — o que chamamos de custo de oportunidade. Se o consumo é postergado, vale o valor futuro; se o consumo é antecipado, vale o valor presente sobre os pagamentos.

Quando, numa loja, nos oferecem um produto de R$ 100,00 em três parcelas (0, 30 e 60 dias) com 10% de acréscimo, teremos uma entrada de R$ 36,67 e duas parcelas de R$ 36,66. O valor financiado foi de R$ 63,32, sobre os quais pagam-se R$ 10,00 de juros. Isso dá uma taxa mensal efetiva de 10,35%, que é para cair de costas. O mesmo raciocínio se deve aplicar com desconto à vista, porque a diferença sempre serão juros.

 

 

Os consórcios precisam ter um número de participantes igual ao dobro do número de meses, para entregar um por sorteio e outro por lance (que é calculado em número de parcelas com taxa de administração e tudo). Digamos que João tenha aderido a um consórcio para um carro de R$ 100 mil num grupo para 50 meses com taxa de 15% de administração. A parcela será de R$ 2.300.

Consideremos agora uma taxa básica de 12% ao ano. Como os juros são compostos (juros sobre juros), a taxa mensal será não de 1%, mas de 0,95% ao mês. Se João for o último a retirar o carro, terá deixado de ganhar 0,95% de juros sobre cada parcela, em proporção ao período de cada uma. A primeira gera perda de 0,95% ao mês por 49 meses, enquanto a última não gera perda alguma em uma progressão geométrica. No dia da entrega, a primeira parcela valerá R$ 3.653,44 e a última R$ 2.300, numa soma de 146.288,58.

 

Quanto maior for o lance, maior fica o valor do carro, porque maior será a parcela de capital próprio investido, agravado pela taxa de administração

 

As parcelas depois do lance comportam-se ao contrário: perdem valor ao longo do tempo, porque o consorciado não deixa de ganhar os 0,95%. Se João der um lance de R$ 23.000 no primeiro mês, deixando 40 parcelas pela frente, a primeira parcela valerá R$ 2.278,38 e a última R$ 1.576,40 em total de R$ 99.257,29. Se João for sorteado no primeiro mês, o resultado será melhor ainda: R$ 90.647,21. Isso acontece porque João estará usando o dinheiro dos outros por mais tempo.

Do exemplo, podemos inferir duas conclusões. Primeiro, quanto maior for o lance, maior fica o valor do carro, porque maior será a parcela de capital próprio investido, agravado pelo pagamento da taxa de administração, além de o prazo do restante financiado ser menor. A segunda: não importa se é dado ou não lance, quanto mais tarde for a contemplação, mais caro sairá o carro, porque o consorciado terá passado mais tempo financiando os outros.

Situação diversa é a do financiamento, no qual o valor recai somente sobre o saldo devedor. Suponhamos que João resolva comprar o mesmo carro, financiado pelo mesmo prazo, com uma taxa de juros de 1,5% ao mês sem entrada. A parcela será de R$ 2.857,17 e o montante em valor presente será de R$ 114.404,95. Se ele der uma entrada de R$ 23.000, como faria para o consórcio, e deixar para 40 parcelas no valor de R$ 2.573,89, o montante em valor presente será de R$ 109.148,51. Se ele der a mesma entrada e mantiver as 50 parcelas, pagará R$ 2.200,02 ao mês, mas o montante em valor presente sobe para R$ 111.091,81. Aí conclui-se que quanto maior for o prazo, mais caro fica o carro, e quanto maior for a entrada, mais barato ele fica.

No caso de sorteio sem lance algum, o consórcio ultrapassa o empréstimo no 25º mês. Resta saber qual é a probabilidade de o consorciado ser sorteado até lá, algo muito difícil de calcular, porque os consorciados que dão lance não fazem parte do sorteio. No caso de o participante dar lance nas mesmas condições do exemplo anterior, na terceira tentativa o consórcio já se iguala ao empréstimo com entrada equivalente.

Qual a melhor opção? Minha resposta: um sonoro e taxativo “Não sei!”. As decisões dos investidores dependem do risco a que estão dispostos a se expor. Pessoalmente, não sou tão inclinado a acreditar que a relação risco-retorno do consórcio seja favorável. Seria um negócio excelente se o consorciado recebesse a justa remuneração sobre o capital antecipado e pagasse taxa igual depois de receber o veículo.

Os leitores interessados em conferir os cálculos poderão encontrá-los aqui.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars