Um Mês: como ficou o Honda Civic ao usar álcool

Troca de combustível aumentou o consumo mais que o esperado e reduziu a suavidade de funcionamento

Texto: Felipe Hoffmann – Fotos: autor e Fabrício Samahá

 

O uso urbano pelo trânsito de São Paulo, SP, foi a rotina do Honda Civic EXL em sua terceira semana da avaliação Um Mês ao Volante, mas isso não significa falta de novidades. Pela primeira vez usamos álcool como combustível para avaliarmos seu comportamento e o consumo. No total foram 518 quilômetros com média geral de 9,2 km/l.

A boa surpresa que tivemos no consumo com gasolina não se repetiu com o produto vegetal. Não que tenha sido ruim, mas esperávamos melhores números. Do ponto de vista técnico, a relação de Poder Calorífico Inferior (grandeza que mede quanta energia há em determinado combustível por massa) entre o álcool de posto, com 6% e 7% de água, e a gasolina E27 (com 27% de álcool — atual padrão brasileiro, exceto para o tipo premium, que tem 25%) fica em torno de 66%: por volta de 6.200 kcal/kg para álcool e 9.300 kcal/kg para E27. Ou seja, para o mesmo trabalho, no caso movimentar o carro, se com E27 tivermos 10 km/l devemos esperar — na teoria — por volta de 6,6 km/l com álcool.

Por que, então, a maioria dos carros com motor flexível obtém números melhores com álcool, em geral entre 70% e 75% do que conseguem com E27? A explicação é o motor conseguir trabalhar de forma mais eficiente com álcool, por operar em maior número de condições — entenda carga e rotação — em avanço de ignição MBT, o melhor avanço de ignição possível. Com gasolina é mais difícil fazer isso, por haver maior número de situações que levam a detonação: a central eletrônica então diminui o avanço de ignição e, em consequência, perde-se alguma eficiência — o que significa maior consumo e menor potência.

 

O rendimento por litro de álcool, no mesmo longo trajeto urbano, foi de 66% do obtido com gasolina: sinal de que o motor não obteve a máxima eficiência

 

Para uma comparação justa, o mesmo motorista que pegou mais de quatro horas de trânsito na semana passada com gasolina repetiu o trajeto, de mais de 80 km, no mesmo dia da semana com álcool. Até a média de velocidade ficou próxima: 19 km/h agora, 21 antes. Os resultados: 6,4 km/l com álcool e 9,7 km/l com gasolina, relação de exatos 66%.

 

O consumo urbano com álcool ficou em 66% do obtido com gasolina no mesmo trajeto: poderia ser melhor se a Honda aprimorasse a calibração do motor de 2,0 litros

 

Como dissemos, era de se esperar melhor número com álcool. Temos duas teorias para isso: 1) A Honda projetou tão bem as câmaras de combustão, a ponto de também trabalhar com gasolina quase sempre sem detonar usando avanço de ignição MBT. Nesse caso, poderia aumentar a taxa de compressão para favorecer o uso de álcool e trazer alguns benefícios também com gasolina. 2) A Honda foi conservadora na estratégia de avanço com álcool, ou seja, poderia trabalhar com avanço de ignição em MBT, mas por algum motivo não fez. Talvez pela aspereza de funcionamento, que aumenta com maiores valores de avanço de ignição.

Interessante que uma das motoristas da equipe, bem habituada ao carro, disse ao pegar pela primeira vez o Civic com álcool: “O que aconteceu com ele? Agora sinto um pouco de vibração do motor no pé”. Apesar de sutil, houve maior transmissão de vibração e aspereza para o interior ao adotar álcool. Percebemos também que o computador de bordo, como é comum, não alterou a autonomia total indicada ao trocarmos de combustível. Com gasolina a autonomia mostrada girava em torno de 600 km para tanque cheio, mesmo número mostrado após a mudança.

 

Conforto e itens de conveniência permanecem pontos elogiáveis do Civic EXL

 

É fato que leva certo tempo para a central reconhecer o combustível diferente e se adaptar — avanço de ignição e injeção de combustível —, mas isso acontece muito rápido hoje em dia. No Civic, só horas de uso mais tarde a central desprezou os antigos quilômetros com gasolina e recalculou a autonomia. Seria simples pegar a informação de teor de álcool, calculado pela central, e colocar um fator multiplicador na autonomia como 0,66. Como é hoje, se um motorista assume o carro sem saber que o combustível acaba de ser trocado, pode contar com 600 km de autonomia e descobrir mais tarde que serão apenas 400 km.

 

 

Um ponto interessante para quem usa “rabo de cavalo” nos cabelos, ou mesmo quem posiciona o encosto mais ereto, é o encosto de cabeça muito para frente a ponto de impedir qualquer vão entre a cabeça e o próprio — medida em prol da segurança no caso de impacto traseiro, mas que acaba dando um “tapinha na cabeça” ao passar em lombadas.

E falando em segurança, um ponto negativo na visão de pai de família está no modo de fixação da cadeira infantil. O sistema Isofix conta com ancoragem superior apenas nas laterais, faltando a central. Para maior segurança, quem tem apenas um filho pode fixar a cadeirinha na parte central do veículo, o que diminui muito o risco de ferimentos em caso de impacto lateral. Como não há ancoragem superior no centro, precisa-se adaptar a ancoragem no furo de uma longarina na parte superior do porta-malas — provavelmente a mesma a que as ancoragens laterais estão fixadas.

 

Dificuldades com a cadeira: cintos não têm catracas e, por falta do ponto de ancoragem superior na parte central, foi necessária uma adaptação

 

Também sentimos falta do sistema de catracas nos cintos traseiros, encontrado em veículos desde os anos 90: ao puxar todo o cinto, um sistema de catracas só permite retrair o cinto e não estendê-lo mais, o que é ideal para a fixação da cadeira pelo método tradicional. Afinal, cadeiras Isofix começaram a ser vendidas no Brasil há pouco tempo e não há razão para descartar uma boa cadeira fixada pelo cinto.

De volta ao posto do motorista, o Civic continua a agradar pelo conforto geral, o acerto da suspensão e o desempenho do motor de 2,0 litros, que ganha 5 cv e 0,2 m.kgf com a troca de gasolina por álcool. No entanto, o sistema de áudio continua trazendo insatisfações. Como dito antes, enquanto se ouve rádio, o sistema passa à central do Apple Car Play se houver qualquer som emitido pelo celular. Mas achamos algo mais irritante: por diversas vezes a música, tocada via aplicativo Spotify, voltava a tocar 2 ou 3 segundos depois de desligar o áudio, a ponto de soltarmos o fio do celular para cortar o Car Play pela raiz. Já a qualidade do áudio é muito boa.

Também interessante a opção na central de configurar alguns itens de conveniência, como as portas se destravarem ao colocar a alavanca de transmissão em P. Pena que não há a mesma opção para o freio de estacionamento, que poderia se acionar assim que se colocasse em P e desligasse o motor, como em outros carros.

Para sua última semana conosco o Civic tem rodovia pela frente. E há mais planos para ele… aguarde a próxima terça-feira.

Semana anterior

 

 

Terceira semana

Distância percorrida 518 km
Distância em cidade 518 km
Distância em rodovia 0
Consumo médio geral 9,2 km/l
Consumo médio em cidade 9,2 km/l
Consumo médio em rodovia
Melhor média 10,5 km/l
Pior média 6,2 km/l
Dados do computador de bordo com álcool

 

Desde o início

Distância percorrida 2.076 km
Distância em cidade 1.399 km
Distância em rodovia 677 km
Consumo médio geral (gasolina) 12,0 km/l
Consumo médio geral (álcool) 9,2 km/l
Consumo médio em cidade (gasolina) 11,6 km/l
Consumo médio em cidade (álcool) 9,2 km/l
Consumo médio em rodovia (gasolina) 15,4 km/l
Consumo médio em rodovia (álcool)
Dados do computador de bordo

 

Preços

Sem opcionais R$ 105.900
Como avaliado R$ 105.900
Completo R$ 107.400
Preços sugeridos em 5/12/17

 

Ficha técnica

Motor
Posição transversal
Cilindros 4 em linha
Comando de válvulas no cabeçote
Válvulas por cilindro 4, variação de tempo e levantamento
Diâmetro e curso 81 x 96,9 mm
Cilindrada 1.997 cm³
Taxa de compressão 11:1
Alimentação injeção multiponto sequencial
Potência máxima (gas./álc.) 150/155 cv a 6.300 rpm
Torque máximo  (gas./álc.) 19,3 m.kgf a 4.700 rpm/19,5 m.kgf a 4.800 rpm
Transmissão
Tipo de caixa e marchas automática de variação contínua, simulação de 7 marchas
Tração dianteira
Freios
Dianteiros a disco ventilado
Traseiros a disco
Antitravamento (ABS) sim
Direção
Sistema pinhão e cremalheira
Assistência elétrica
Suspensão
Dianteira independente, McPherson, mola helicoidal
Traseira independente, multibraço, mola helicoidal
Rodas
Dimensões 7 x 17 pol
Pneus 215/50 R 17
Dimensões
Comprimento 4,637 m
Largura 1,798 m
Altura 1,433 m
Entre-eixos 2,70 m
Capacidades e peso
Tanque de combustível 56 l
Compartimento de bagagem 519 l
Peso em ordem de marcha 1.291 kg
Dados do fabricante; desempenho e consumo não disponíveis